Já enfrentou nas urnas o antigo primeiro-ministro Boris Johnson, o autarca de Londres Sadik Khan ou o potencial próximo primeiro-ministro Andy Burnham, e agora prepara-se para ir a votos contra Nigel Farage na eleição especial em Clacton-on-Sea, depois da demissão do líder do Reform UK na passada quarta-feira. Será provavelmente o único rival do líder populista britânico na votação, que deve acontecer na primeira semana de agosto. Chama-se Count Binface, ou, em português, algo como “Conde Cara de Lixo”.

Veste-se com uma armadura estilo Darth Vader e usa uma cabeça de caixote de lixo, apresenta-se como um guerreiro intergaláctico do Planeta Sigma IX, nascido “Lorde Cabeça de Balde”, e traz propostas como nacionalizar a cantora Adele ou renomear a London Bridge em homenagem à atriz Phoebe Waller-Bridge — mas também construir “pelo menos uma casa acessível” ou vincular o salário dos enfermeiros ao dos ministros. E é, na verdade, um alter ego político do comediante e escritor Jon Harvey. Para já, à BBC, diz que o seu mote de campanha é “não ser Nigel Farage”.

“On my way, Clacton”, escreveu Count Binface no Instagram. Horas depois de o Partido Trabalhista, os Conservadores, os Liberais Democratas, os Verdes e o Restore Britain recusarem apresentar candidatos para concorrer com Farage, Count Binface tornou-se (mais uma vez) sensação na imprensa britânica. Na noite da passada quarta-feira, deu entrevistas a vários meios de comunicação, sempre em formato de videoconferência, com um fundo no estilo Star Wars, como se estivesse algures num outro planeta. Diante das perguntas, mantém a personagem, que com humor sarcástico mistura a crítica ao establishment britânico e soluções simples para as dores mais básicas dos cidadãos comuns.

Numa entrevista à LBC, recordou que ainda precisa de “convencer 10 pessoas que vivem em Clacton” a incluírem o seu nome nos boletins de voto, assumindo que não acredita que esta será “uma corrida de dois cavalos”. “Nesta altura, podemos ter candidatos a vestirem-se como cavalos. Ainda é um jogo justo”, atirou. Mesmo assim, admitiu estar preparado para “qualquer eventualidade”: “Há uma pequena janela de oportunidade em que eu talvez me torne um membro do Parlamento. E acho que isso é algo que o povo britânico acharia hilariante, o resto da humanidade acharia hilariante, e, devo dizer, eu acharia hilariante.”

Uma das “questões” para os jornalistas britânicos reside na capacidade do candidato de manter o seu visual depois de eleito, já que há uma regra da Câmara dos Comuns que o impede de usar acessórios que cubram o rosto, e uma lei de 1313 que proíbe o uso de armaduras dentro do recinto. “As regras da Câmara dos Comuns também são muito claras com o que podes fazer com doações”, responde Count Binface, uma clara provocação ao novo escândalo no qual Farage está envolvido. O candidato, que traz no nome a opinião crítica à monarquia, também disse que iria “cruzar os dedos” quando prestasse o juramento de fidelidade à Coroa.

O comediante Jon Harvey licenciou-se em Estudos Clássicos pela Universidade de Oxford antes de seguir a carreira de escritor e guionista, trabalhando em programas de televisão como Have I Got News for You, uma espécie de quiz, The Revolution Will Be Televised, um programa humorístico, e The Thick of It, sitcom de Armando Iannucci, todos da BBC. Também é autor de A Fan For All Seasons, um livro de memórias sobre desporto e como enfrentou o luto pelo irmão, Dan, que morreu em 2015, aos 43 anos, de forma inesperada.

Num artigo de 2024 para o The Times, Harvey contou ao pormenor como encontrou o corpo do irmão em casa e revelou que só passadas algumas semanas a família descobriu a causa da morte. Dan sofreu uma hipoglicemia provocada por diabetes não diagnosticada — mas até chegar o relatório do médico legista, Harvey acreditava que o irmão, que também dava sinais de enfrentar questões de saúde mental, se tinha suicidado. “Tudo o que sei é que só uma coisa me impediu de ser completamente engolido pelo luto na vida adulta”, escreveu o comediante. “Para começar, numa idade incomummente jovem, Dan inspirou o meu amor por política e comédia, se é que essas duas coisas não são o mesmo”, disse ainda Harvey, que contou que o irmão costumava citar “sem parar” a série de comédia britânica The Blackadder. “Em 1992, tentou convencer-me a passar uma noite inteira com ele no apuramento dos votos da eleição geral da autarquia de Croydon, quando eu tinha 12 anos, ‘só por diversão’. Recusei educadamente, mas enquanto eu o observava de pijama a sair pela porta, com aquele sorriso radiante no rosto, uma semente inesperada foi plantada“.