Ensaio pré-clínico em mamíferos não primatas sugere que robôs humanoides comandados à distância poderão ajudar a levar cirurgia especializada a zonas rurais, cenários de guerra e até missões espaciais.
Pela primeira vez, médicos concluíram com sucesso não uma, mas duas cirurgias com recurso a robôs humanoides controlados à distância.
O ensaio pré-clínico de prova de conceito envolveu a remoção da vesícula biliar em porcos. Um robô humanoide e um cirurgião humano, a atuar como assistente, realizaram uma das intervenções; na segunda, a cirurgia foi feita por dois robôs humanoides, ambos comandados à distância por cirurgiões.
Os procedimentos cirúrgicos assistidos por robôs, que podem salvar vidas, são já comuns em muitas unidades de saúde, mas têm limitações.
Muitos destes dispositivos com vários braços são sistemas enormes, com mais de 800 kg, e exigem equipas especializadas para serem instalados em salas de operações adaptadas. Além disso, são habitualmente concebidos para apenas um tipo de procedimento.
Em comparação, os robôs humanoides são aquilo que o nome indica. Com cerca de 1,5 metros de altura e apenas 27 kg, os robôs cirúrgicos, apelidados de “Surgie“, são relativamente pequenos, ágeis, personalizáveis e de custo muito mais baixo.
Com a formação adequada e os avanços tecnológicos necessários, frotas de Surgies poderão um dia ser destacadas para comunidades com falta crítica de recursos.
“Os robôs humanoides operados à distância e autónomos têm um verdadeiro potencial para ampliar o acesso a cirurgias críticas a que, de outra forma, os doentes não teriam acesso”, disse em comunicado Michael Yip, engenheiro da Universidade da Califórnia em San Diego. “Isto pode ajudar a responder à crise nos cuidados de saúde, não só nos Estados Unidos, mas também em todo o mundo”.
Yip e os seus colegas detalharam recentemente o ensaio pioneiro num estudo publicado na quarta-feira na revista Nature. Embora a equipa tenha tido de conceber adaptadores para permitir que cada robô segurasse instrumentos cirúrgicos, os operadores disseram que controlá-los à distância foi inesperadamente natural.
“Ficámos surpreendidos com a forma como o Surgie se integrou bem no nosso espaço de trabalho e no nosso fluxo de trabalho”, afirmou Nikita Thareja, cirurgiã da UC San Diego.
“Custa uma fração do preço e ocupa uma fração do espaço numa sala de operações. Por isso, é fácil de implementar, seja em zonas rurais, no campo de batalha ou até no espaço”, acrescentou Shanglei Liu, cirurgião da UC San Diego e coautor do estudo.
As primeiras cirurgias realizadas com robôs humanoides controlados à distância tiveram alguns problemas iniciais. Os robôs Surgie precisaram de ser recalibrados várias vezes, o que atrasou muito o processo em comparação com os sistemas cirúrgicos atualmente disponíveis. A latência entre o controlador e o robô também precisa de ser melhorada.
No entanto, os investigadores estão confiantes de que a tecnologia irá evoluir e apontam para progressos semelhantes na cirurgia laparoscópica robótica. A primeira cirurgia laparoscópica robótica demorou seis horas; hoje, procedimentos semelhantes assistidos por robôs demoram cerca de 30 minutos.
Um Surgie também não tem necessariamente de ficar limitado ao ato cirúrgico. A equipa imagina que, no futuro, robôs humanoides possam também ajudar a ir buscar instrumentos ou a limpar a sala de operações depois da cirurgia.
“Um dos nossos objetivos é desenvolver um assistente cirúrgico autónomo”, disse Yip. “Muitas comunidades debatem-se com falta de pessoal adequado nas equipas cirúrgicas, o que significa que há doentes que não estão a ser tratados. O nosso objetivo é um bloco operatório do futuro, onde robôs humanoides e humanos trabalhem lado a lado como uma equipa integrada”.