A Delta vai desembolsar perto de 10 milhões de euros para ficar com a Mocoffee, que detém uma fábrica na Azambuja com capacidade para produzir 350 milhões de cápsulas de café por ano, que avançou, no início do ano, com um Processo Especial de Revitalização (PER). A empresa do Grupo Nabeiro, que tornar-se-á na única acionista, vai injetar diretamente 3 milhões, mas só vai cobrir, ainda que “de imediato”, 35,6% da dívida a credores comuns.
É o que consta da versão final do plano, depositado no final de junho, no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa no âmbito do Processo Especial de Revitalização (PER), consultado pelo Negócios.
À luz do documento, a Delta Cafés, que será a “futura única acionista”, vai avançar com uma injeção direta de 3 milhões de euros “destinados a fazer face às necessidades correntes de tesouraria, incluindo o pagamento das dívidas vencidas durante o PER designadamente à Autoridade Tributária e à Segurança Social”.
Além disso, irá “refinanciar a totalidade do montante a pagar aos credores comuns através de uma única prestação a liquidar no prazo de 30 dias após o trânsito em julgado da decisão que homologar o Plano – ou seja, um valor total que deverá rondar os 6,5 milhões de euros, incluindo 5,48 milhões correspondentes a 35,6% dos demais credores comuns no montante de 15,40 milhões de euros, e ainda os valores em dívida emergentes de leasings e contratos de aluguer de equipamentos operacionais“.
O plano traz mexidas de relevo no que toca à dívida: É que a versão inicial “previa o pagamento de 100% de capital ao longo de 12 anos, sem juros – enquanto a final pressupõe um perdão à generalidade dos credores comuns de 64,4%.
E – como se justifica – foi “sujeito a revisão em função das condições exigidas pelo investidor efetivamente encontrado: a Delta.
“Com a entrada da Delta como investidora e futura única acionista, e em face das necessidades de injeção de capital para manter a empresa em funcionamento, tornou-se necessário ajustar o plano de pagamentos para assegurar a sustentabilidade e exequibilidade do plano”.
E, neste sentido, “indo ao encontro das preocupações suscitadas pelos credores, a nova versão explica em maior detalhe que o perdão de 64,4% previsto para os demais créditos comuns resulta de uma análise e decisão da Delta, que apenas aceitou comprometer-se com a aquisição da Mocoffee na condição de o passivo ser reduzido para níveis que permitam à empresa operar de forma viável e sustentável no futuro”.
“Atendendo à análise das projeções financeiras e da capacidade de geração de caixa da Mocoffee feita pela Delta (…), o perdão proposto é o que é compatível com a execução sustentável do plano e com o investimento que terá de realizar”, lê-se no documento.
A Delta apenas aceitou comprometer-se com a aquisição da Mocoffee na condição de o passivo ser reduzido para níveis que permitam à empresa operar de forma viável e sustentável no futuro.
Plano de recuperação da Mocoffee
Embora a solução proposta “possa aparentar ser mais penalizadora para os credores comuns (…), a verdade é que a recuperação da Mocoffee depende sempre da sua capacidade para gerar os “cash flows” necessários para pagar as suas dívidas”.
E, apesar do “sacrifício”, enfatiza, os credores comuns “ficam numa posição muito mais favorável do que num cenário de liquidação – 35,6% de recuperação imediata versus 4,8% em liquidação, com espera de anos”.
“Esta solução é a única que permite manter a empresa em atividade, preservar postos de trabalho e possibilitar relações comerciais futuras”, frisa.
Segundo o plano de recuperação da empresa, que emprega 32 trabalhadores, “não se prevê a adoção de quaisquer medidas com consequências relativas ao emprego – designadamente, despedimentos, redução temporária dos períodos normais de trabalho ou suspensão de contratos de trabalho”.
Não se prevê a adoção de quaisquer medidas com consequências relativas ao emprego.
Plano de recuperação da Mocoffee
O contexto do passado e as perspetivas de futuro
“Este plano não se resume a um mero reescalonamento de dívida, consubstanciando antes uma verdadeira transformação estrutural da Mocoffee: a entrada de um novo acionista estratégico, a substituição integral da administração e a definição de um novo rumo empresarial”, vaticina.
À luz do plano, está prevista uma operação harmónio: ou seja, uma redução do capital social da Mocoffee (de 5,5 milhões) para zero para a cobertura de prejuízos, acompanhada de um aumento de capital integralmente subscrito pela Delta, no valor de 1,5 milhões. Após o trânsito em julgado da decisão de homologação, a Delta irá ainda realizar prestações acessórias sujeitas ao regime das prestações suplementares no valor de 1,5 milhões, “assegurando assim uma injeção de fundos total na Mocoffee de 3 milhões”.
Em maio, a Mocoffee apresentava capitais próprios negativos no valor de 1,26 milhões de euros.
A Mocoffee Europe foi fundada em 2016 na Azambuja, mas as suas origens remontam à marca suíça Monodor, criada pelo suíço Eric Favre, inventor da cápsula unidose de café e primeiro CEO da Nespresso.
Em 2018, entrou “numa nova fase de expansão” após um “management Buyout” (MBO) liderado pelo então CEO Ricardo Flores, que passou a ser o maior acionista individual (27,04%). Entre os donos figura também a brasileira Alpaca Soluções em Digital (24%) e a Iberia Holding Group Limited, constituída em 2025, detida por João Lopes, presidente do conselho de administração da empresa (20%).
Com uma forte orientação internacional, a empresa serve mercados como a Suíça, França, Estados Unidos e Japão.
“Apesar de entre 2019 e 2024, a Mocoffee ter registado um desempenho financeiro globalmente positivo e, por vezes, até superior às suas expectativas, o ano de 2024 revelou-se particularmente desafiante para a devedora e para todo o setor do café. O café, enquanto ‘commodity’, triplicou o seu preço nas bolsas mundiais (…) sem que nada fizesse antever este aumento de preço e o seu impacto no mercado”, justifica.
Este aumento de preço – sustenta – “teve um impacto direto e significativo na tesouraria das empresas do setor. Várias empresas de “trading” – isto é, empresas que atuam como intermediárias entre os produtores e os compradores finais (como, por exemplo, a Mocoffee) – não conseguiram manter os seus limites de crédito e níveis de ‘stock’ adequados junto dos seus clientes”.
Um impacto que se refletiu diretamente de duas formas: por um lado, pela escassez de fornecimento de café por parte dos seus principais fornecedores e, por outro, pela alteração das condições de pagamento, que passaram de um prazo de 90 dias (prazo habitual no setor) para um regime de pré-pagamento, o que originou dificuldades de tesouraria”, explica.
O cenário foi agravado por outros fatores e as vendas deixaram de ser suficientes para solucionar a falta de liquidez ou para garantir o cumprimento pontual das suas obrigações dentro dos prazos. Para se ter uma ideia: em 2025 o volume de negócios caiu 32,1% para 8,9 milhões.
“A situação da Mocoffee veio a deteriorar-se, tanto que durante o ano de 2025 foram instauradas diversas ações executivas contra a devedora, o que também contribuiu para a apresentação a PER”, em fevereiro, contextualiza.
Para o negócio avançar, o plano de recuperação tem de ser aprovado e obter ainda “luz verde” da Autoridade da Concorrência.