Quem acompanhou Larry David ao longo das doze temporadas de “Curb Your Enthusiasm” (leia mais aqui) reconheceu seu carimbo indelével no primeiro minuto de “Larry e a busca da infelicidade”. Os esquetes são embebidos daquele humor rascante, malcomportado e corajosamente iconoclasta. Larry retorna em grande estilo para o primeiro lugar na fila do cancelamento (embora ele mesmo já tenha dito em entrevistas que não entende por que nunca foi cancelado). A série produzida por Barack e Michelle Obama foi gravada para ser lançada nos 250 anos da Independência dos EUA e satiriza grandes passagens da História americana.
Há três episódios disponíveis na HBO — serão sete no total e os inéditos entram às sextas-feiras. Já estou animada para assistir aos próximos.
O presidente Donald Trump pode não ser nominalmente citado, mas sua presença incorpórea é sentida em mil recadinhos. Um desses momentos é na participação-surpresa especialíssima de Rob Reiner. O diretor e ator gravou um mês antes de ser assassinado por seu filho, no ano passado. Ele aparece interpretando George Washington, um dos pais fundadores dos Estados Unidos. No esquete, discorre sobre a urgência de se proteger a democracia e sobre a transferência pacífica de poder.
Há muitas outras participações ilustres, mas vou destacar a de Jerry Seinfeld, como William Clark, um explorador e militar do início do século XIX. Larry faz Meriwether Lewis, outro pioneiro. Os dois combinam uma viagem (na imagem que ilustra essa crítica) alegando razões patrióticas. Na verdade, querem se aventurar longe das mulheres.
Nem Rosa Parks escapa das flechas desse anedotário. Jurnee Smollett interpreta a mulher que se recusou a ceder o seu lugar no ônibus a um homem branco no Alabama, em 1955. Na série, ela repete o gesto pelo qual é lembrada. Só que o seu vizinho (Larry) fala sem parar, emendando um assunto chato no outro. Ele é tão insuportável que afugenta até a ativista-símbolo do Movimento dos Direitos Civis.
A série transita entre fazer graça com a História e praticar a comédia do cotidiano, focada em pequenas situações. Por exemplo, Larry surge como Robert Livingston, um dos redatores da Declaração de Independência. O personagem “inclui” mil exigências no texto. Entre elas, a de que ninguém deveria poder desejar um Feliz Ano Novo depois de 7 de janeiro. Outro assunto recorrente é a etiqueta na hora de fazer fila para se servir de comida. As piadas que em “Curb” eram ambientadas em restaurantes ressurgem num esquete passado na Grande Depressão, quando um grupo de pessoas se alinha para tomar sopa grátis. Às vezes, parece uma espécie de “Curb your enthusiasm de época” e cheia de figuras conhecidas e caracterizações caprichadas.
É muito divertido reencontrar esse espírito de porco vivo e inexplicavelmente imune ao cancelamento.