ProLogium

Vincent Yang, fundador e CEO da ProLogium, na sessão de apresentação do centro de I&D da empresa em Paris
A taiwanesa ProLogium aposta nas baterias de estado sólido, numa gigafábrica em França e na procura de setores como robótica e centros de dados para conquistar espaço num mercado dominado pela China, antes de avançar em força para os veículos elétricos.
O mercado das baterias de lítio é hoje dominado por empresas chinesas como a BYD e a CATL, que vendem a maioria das baterias usadas em veículos elétricos e projetos de armazenamento de energia em todo o mundo — e continuam a abrir fábricas fora da China.
Quem tenta competir com estas empresas, como aconteceu com a europeia Northvolt, depressa percebe a dimensão do desafio.
Mas há ainda esperança para os rivais da China: se outra empresa conseguir dominar a próxima geração de tecnologia de baterias, poderá assumir a liderança. E há um relativo consenso no setor sobre qual poderá ser essa tecnologia: as baterias de estado sólido.
Quase todas as baterias de iões de lítio atualmente comercializadas usam eletrólitos líquidos para transportar os iões entre os elétrodos positivo e negativo. O problema é que o líquido pode derramar-se, evaporar-se e até incendiar-se.
Há décadas que os cientistas tentam substituí-lo por um eletrólito sólido, capaz de tornar as baterias mais seguras, mais potentes e mais resistentes ao frio. Estas baterias já foram produzidas em laboratório, mas continuam a ser caras e difíceis de fabricar em grande escala.
É esse o objetivo de Vincent Yang, fundador e diretor executivo da ProLogium, uma empresa taiwanesa que afirma que poderá iniciar a produção em massa das suas baterias de estado sólido de nova geração já em 2027.
Com formação em ciência dos materiais e mais de 20 anos de experiência no setor, Yang descreve-se com humor: “Já fabriquei quase todos os tipos de bateria. Podem chamar-me um fóssil vivo no que toca a algumas das tecnologias mais antigas”, afirmou à Wired.
Até há pouco tempo, a ProLogium era um dos operadores de menor dimensão no setor das baterias. No início deste ano, apresentou a quarta geração do seu produto, que afirma ser barata e fácil de produzir em massa — e, desde então, tem acelerado a sua expansão.
Em fevereiro, lançou a primeira pedra de uma gigafábrica em Dunquerque, no norte de França, depois de ter garantido apoios públicos de cerca de 1,4 mil milhões de euros.
Em maio, a empresa anunciou um acordo de fusão com a TDAC, uma SPAC norte-americana — empresa criada especificamente para realizar uma aquisição —, com o objetivo de se cotar na bolsa Nasdaq, numa operação que avalia a ProLogium em 3,8 mil milhões de dólares.
A concorrência é feroz. Em 2024, a China criou a All-Solid-State Battery Collaborative Innovation Platform, conhecida pela sigla CASIP, que reúne praticamente todos os grandes fabricantes de baterias do país num esforço nacional coordenado para concentrar recursos e acelerar o desenvolvimento desta tecnologia.
A japonesa Toyota e a sul-coreana Samsung estão entre os líderes nesta área. Entre as startups norte-americanas de maior destaque encontram-se a QuantumScape e a Solid Power.
“As baterias de estado sólido têm cadeias de abastecimento menos desenvolvidas do que as baterias convencionais de iões de lítio, o que cria simultaneamente oportunidades e riscos”, explicou BloombergNEF, investigadora da BloombergNEF.
Há mais espaço para operadores não chineses estabelecerem cadeias de abastecimento, mas também maior exposição a perturbações no fornecimento de matérias-primas controladas pela China, como a grafite, as terras raras e o lítio.
Um dos trunfos da ProLogium é não ter fábricas na China — uma vantagem num mundo cada vez mais protecionista e no qual a dependência da tecnologia chinesa é encarada com crescente desconfiança.
A empresa assinou recentemente um contrato com uma companhia asiática de infraestruturas de serviços públicos apoiada pelo Estado, que exigiu especificamente um fornecedor que não fosse oriundo da China, diz Yang.
“Quase todas as regiões do mundo têm a sua própria forma de protecionismo. Há consequências positivas e negativas, mas tenho de admitir que, por vezes, podemos beneficiar disso”, afirmou.
Na Europa, o Regulamento Indústria de Impacto Zero, em vigor desde 2024, pretende que a capacidade global de fabrico da União Europeia para o conjunto das tecnologias estratégicas de impacto zero se aproxime ou atinja pelo menos 40% das necessidades anuais de implantação até 2030. As baterias e o armazenamento de energia estão entre as tecnologias abrangidas.
Resta um obstáculo: as baterias representam uma parte substancial do custo de um veículo elétrico, e as versões de estado sólido continuam a ser mais caras de fabricar, o que poderá aumentar significativamente o preço dos automóveis e afastar potenciais compradores.
Por isso, Yang acredita que as primeiras grandes aplicações poderão não ser os carros, mas os robôs e os centros de dados de inteligência artificial — setores menos sensíveis ao custo e que valorizam a segurança acrescida.
Ainda assim, a longo prazo, os automóveis deverão ser o principal destino das baterias de estado sólido. Yang estima que, em 2032, 60% das baterias sejam utilizadas em carros e 40% em mercados emergentes — embora, em termos de receitas, a proporção possa ser a inversa.