Durante o apartheid, o regime da África do Sul encontrava-se isolado e era mal visto pela maioria dos países africanos. No continente, Pretória era considerada um pária devido à sua política de segregação racial. Após as guerras coloniais e já independentes, Angola e Moçambique apoiaram movimentos de libertação que pressionavam o regime sul-africano. A Nigéria e o Gana prestaram apoio político, diplomático e logístico a várias organizações que trabalhavam no mesmo sentido.
Esse estatuto de pária terminou com o fim do regime do apartheid. A África do Sul passou a integrar diversas organizações internacionais, como a União Africana (em que entrou em 1994), e melhorou substancialmente as suas relações com os restantes países do continente, aproximando-se de vários deles. A defesa do multilateralismo tornou-se uma das marcas da nova política externa de Pretória, que procurou manter boas relações com os seus vizinhos africanos e em todo o mundo.
Em 2010, a África do Sul juntou-se aos BRICS, um marco encarado como um grande sucesso da diplomacia do país. Passou a integrar o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China, afirmando-se como uma das principais economias emergentes do mundo. Foi um motivo de orgulho, mas também de algum distanciamento em relação ao restante continente africano. Afinal, era o único país de África a integrar este bloco, que procurava afirmar-se como contraponto à influência do G8 (antes da expulsão da Rússia, na sequência da anexação da Crimeia).
Uma década e meia depois, a reputação de Pretória entre os parceiros africanos volta a ficar comprometida pelas mais recentes manifestações contra imigrantes e pelo teor de afrofobia. Em Moçambique, por exemplo, na semana passada, um grupo de turistas sul-africanos foi expulso de um restaurante do país, em retaliação contra o tratamento que os moçambicanos enfrentam na África do Sul.
Entre os países africanos, aumenta a desconfiança e alguns ameaçam agir diplomaticamente. Após dois nigerianos terem morrido em circunstâncias ainda por apurar na semana passada, o Ministério dos Negócios Estrangeiros nigeriano acusou as autoridades da África do Sul de não agirem. “Se a situação continuar a persistir, todas as opções mantêm-se em cima da mesa, algumas das quais serão colocadas em prática se esta tendência provocadora não for endereçada.”
Na mesma linha, a Frelimo — partido do poder em Moçambique —, já veio condenar a “onda de xenofobia que se verifica na República da África do Sul”. Essa situação coloca em causa “os esforços coletivos em manter relações históricas saudáveis, entre os dois países, a região Austral de África e continente africano, em geral”. Outros países têm também equacionado reconsiderar as relações diplomáticas com Pretória.