A análise é feita por Margarida Tavares, investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e especialista em doenças infeciosas e saúde pública, na sequência da avaliação rápida de risco publicada pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) em 17 de junho de 2026.

Segundo o ECDC, entre dezembro de 2025 e junho de 2026 foram notificados cerca de 100 casos em seis países europeus, um número que contrasta com menos de 50 casos humanos descritos em mais de seis décadas de literatura científica. Historicamente, a infeção estava quase sempre associada ao contacto direto com animais infetados, sobretudo em contexto profissional.

A maioria dos casos registados na Europa ocorreu em homens que têm sexo com homens (HSH), com historial de frequência de saunas e outros espaços de socialização sexual. Paralelamente, foi identificado um surto distinto na Noruega, relacionado com a prática de artes marciais.

De acordo com Margarida Tavares, a principal novidade reside no facto de a maioria dos doentes não apresentar qualquer contacto conhecido com animais e de existirem dados genómicos que apontam para uma estreita relação entre as estirpes isoladas em diferentes países, sugerindo transmissão de pessoa para pessoa através de contacto próximo, incluindo contacto sexual.

A dermatofilose é considerada uma doença típica dos animais, tendo sido descrita pela primeira vez em 1915 no então Congo Belga. A bactéria afeta sobretudo bovinos, ovinos, caprinos e equinos, sendo responsável por importantes perdas económicas na pecuária tropical e subtropical. Nos seres humanos, era considerada uma infeção extremamente rara e de caráter ocupacional, afetando principalmente veterinários, pastores, trabalhadores agrícolas e outras pessoas com contacto direto com animais infetados.

Segundo a especialista, até ao atual surto europeu nunca tinha sido documentada transmissão entre humanos.

A apresentação clínica observada nos surtos recentes caracteriza-se por pápulas avermelhadas que evoluem para pústulas ou lesões escamosas e crostosas, geralmente acompanhadas de prurido ligeiro a moderado. As lesões localizam-se sobretudo na região genital, púbica e perianal, na face, barba, tronco e membros, sem envolvimento das mucosas nem sintomas sistémicos relevantes.

O período de incubação é estimado numa mediana de cerca de seis dias, podendo variar entre dois e 22 dias. Na maioria dos casos, a evolução é benigna, com resolução completa após tratamento antibiótico oral, existindo também relatos de resolução espontânea.

Margarida Tavares alerta, contudo, para a facilidade com que estas lesões podem ser confundidas com outras infeções cutâneas mais frequentes, como foliculites bacterianas, herpes genital ou mpox, contribuindo para atrasos no diagnóstico.

Entre dezembro de 2025 e junho de 2026, França notificou 40 casos distribuídos por oito cidades, a Alemanha registou 17 casos, sobretudo em Berlim e Brandemburgo, Espanha identificou nove casos em Barcelona e a Suécia quatro casos em Estocolmo. Na Noruega foram confirmados 10 casos num clube de artes marciais de Trondheim, aos quais se juntaram dois casos posteriores associados a treinos na Tailândia. A Áustria notificou ainda 17 casos identificados através de revisão retrospetiva laboratorial, sem informação sobre a exposição dos doentes.

A evidência mais consistente a favor da transmissão interpessoal resulta da sequenciação completa do genoma de 16 isolados humanos provenientes de França e Espanha. Os investigadores verificaram que várias estirpes eram geneticamente indistinguíveis ou apresentavam diferenças mínimas, contrastando com as grandes diferenças observadas relativamente às estirpes isoladas em bovinos, o que torna improvável que todos os casos resultem de transmissões independentes a partir de animais.

Os investigadores admitem ainda a possibilidade de o agente atualmente em circulação representar um novo táxon dentro do género Dermatophilus, hipótese que permanece por confirmar.

O diagnóstico baseia-se na cultura microbiológica e na identificação por espectrometria de massa (MALDI-TOF), podendo também recorrer à microscopia. A investigadora sublinha que o isolamento laboratorial exige incubação a 37 ºC, ao contrário dos protocolos habitualmente utilizados para fungos, o que pode originar falsos negativos quando este procedimento não é seguido.

Os casos descritos responderam favoravelmente a ciclos curtos de antibióticos orais, incluindo amoxicilina, cefadroxil, cloxacilina e doxiciclina. A ciprofloxacina revelou eficácia insuficiente e a mupirocina tópica não é recomendada devido à resistência observada nas estirpes estudadas. O isolamento rigoroso dos doentes não é considerado necessário, mas recomenda-se a suspensão da atividade sexual até ao desaparecimento completo das lesões.

Na sua análise, Margarida Tavares enquadra este surto num fenómeno mais amplo de adaptação de agentes zoonóticos ou ambientais às redes sexuais de homens que têm sexo com homens. Recorda que situações semelhantes ocorreram anteriormente com a mpox, determinados fungos dermatófitos, bactérias como Klebsiella aerogenes, bem como com surtos de hepatite A, doença meningocócica invasiva e infeções por Shigella.

Segundo a investigadora, o fator comum não é o agente infecioso, mas sim a estrutura altamente conectada destas redes sociais e sexuais, que favorece a rápida disseminação internacional através de viagens, festivais e espaços de socialização.

A especialista considera que a experiência adquirida durante a resposta portuguesa ao surto internacional de mpox, em 2022, demonstrou a importância da colaboração precoce com organizações comunitárias, associações LGBTQI+, serviços comunitários de saúde sexual e responsáveis por saunas e outros espaços frequentados pelas populações mais expostas.

Na sua perspetiva, estas estruturas devem ser encaradas como uma infraestrutura permanente de saúde pública e não apenas mobilizadas durante situações de emergência.

Margarida Tavares destaca igualmente o papel da Coorte de Lisboa dos Homens que Têm Sexo com Homens, desenvolvida pelo ISPUP em parceria com o CheckpointLX/GAT desde 2011, referindo que este acompanhamento contínuo permite monitorizar a evolução da infeção por VIH e outras infeções sexualmente transmissíveis e identificar precocemente alterações dos padrões epidemiológicos.

Apesar dos avanços, a investigadora salienta que subsistem várias questões por esclarecer. A duração da infecciosidade, a frequência da infeção assintomática, a persistência ambiental da bactéria, o comportamento da doença em pessoas imunocomprometidas e os próprios mecanismos de transmissão entre humanos permanecem insuficientemente conhecidos. Também não está esclarecido se a Tailândia poderá constituir um reservatório relevante para a estirpe atualmente em circulação, nem se existe risco de transmissão de humanos para animais de companhia.

Perante lesões cutâneas suspeitas após contacto sexual, especialmente em pessoas com frequência de saunas ou outros locais de contacto íntimo, a recomendação passa por procurar avaliação clínica, evitar atividade sexual até à resolução completa das lesões e manter vigilância durante cerca de 14 dias caso tenha existido contacto com um caso confirmado. A investigadora lembra ainda que o preservativo continua essencial para prevenir outras infeções sexualmente transmissíveis, mas não impede especificamente a transmissão da dermatofilose, por esta ocorrer através do contacto direto com pele lesionada fora das áreas protegidas.

ISPUP/HN/AL

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