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“Como disse o Imã [Khomeini], o regime que ocupa Jerusalém deve ser varrido do mapa”. Durante a sua presidência, o antigo Chefe de Estado iraniano Mahmoud Ahmadinejad usava frequentemente uma retórica hostil como esta, visando Israel, defendendo a destruição do Estado judaico. Para além disso, negava o Holocausto e dava ordens para impulsionar o programa nuclear do país, agitando sempre a necessidade da dissuasão nuclear perante os inimigos regionais.
No entanto, foi precisamente Ahmadinejad que a Mossad (os serviços secretos externos israelitas) escolheu para liderar o Irão no âmbito de um plano de mudança de regime, que estava a ser preparado há anos. Segundo uma investigação do New York Times — que cita autoridades norte-americanas e outras com conhecimento do tema —, agentes da Mossad encontraram-se com o antigo Presidente do Irão várias vezes, nomeadamente na Hungria, em 2024, à margem de uma conferência. Já antes, em 2023, terá havido um contacto entre as partes durante uma viagem que Ahmadinejad fez à Guatemala para participar numa outra conferência. O antigo Presidente do Irão esteve em Budapeste em fevereiro de 2026, poucos dias antes do início da guerra entre Irão e Israel e Estados Unidos — numa visita que terá servido de fachada para novo encontro com agentes da Mossad.
Nos últimos anos, Israel custeou o alojamento e as viagens de Mahmoud Ahmadinejad.
A campanha secreta preparada por Israel culminou com um ataque contra os guarda-costas de Ahmadinejad para libertar o antigo presidente iraniano da prisão domiciliária em que se encontrava, logo no primeiro dia do ataque conjunto dos EUA e Israel contra o Irão em fevereiro. O objetivo era colocar em prática o plano para derrubar o regime atual e voltar a colocar na presidência o antigo presidente. No entanto, a estratégia israelita falhou.
A 28 de fevereiro, logo no início da operação militar contra o Irão, um ataque aéreo israelita atingiu o complexo onde se encontrava Ahmadinejad, tendo como alvo o edifício que albergava os seus guarda-costas e o veículo blindado onde se fazia transportar. Após o ataque, contaram ao diário nova-iorquino quatro altos funcionários iranianos, um Peugeot recolheu Ahmadinejad e levou-o a alta velocidade para longe do local. O carro em causa era conduzido por agentes da Mossad que operavam em território iraniano e que transportaram o antigo presidente do Irão para uma localização segura.
No entanto, a estratégia israelita para mudar o regime iraniano começou a falhar logo nesse momento. Ahmadinejad não ficou satisfeito com a forma como decorrera a operação de resgate e acabou por deixar o local, desistindo do plano.
Neste momento, o paradeiro do antigo Chefe de Estado é ainda desconhecido. Apesar disso, quatro altos funcionários iranianos garantiram que Ahmadinejad está sob custódia dos serviços secretos da Guarda Revolucionária Islâmica, em prisão domiciliária, depois de o Irão ter tomado conhecimento de grande parte das interações que estabeleceu com Israel.
Ahmadinejad foi visto pela última vez, cercado por guardas, no funeral do ex-líder supremo Ali Khamenei, no início de julho.
No entanto, o plano de Israel para mudar o regime do Irão — que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu chegou a sugerir, afirmando que Telavive estava a criar “condições” para que o regime pudesse “colapsar internamente” — não passava apenas pelos ataques ao território iraniano e pelo regresso de Ahmadinejad ao poder. Segundo o New York Times, outro elemento do plano passava por armar e treinar forças de oposição curdas baseadas no norte do Iraque para que estas pudessem cruzar para o oeste do Irão, controlar parte do território e eventualmente avançar em direção à capital, Teerão.
Líder da Mossad avisa que operação para mudar regime no Irão ainda não terminou
Ahmadinejad, um conservador da designada linha dura do regime, cumpriu dois mandatos na presidência do Irão, entre 2005 e 2013, durante os quais adotou uma retórica anti-Israel. Contudo, nos anos que se seguiram à sua saída da presidência, moderou as suas opiniões, concedendo entrevistas nas quais chegou a criticar a repressão levada a cabo pelas forças de segurança do país, e a acusar a classe política de corrupção. No seu escritório em Teerão, ele realizava reuniões todas as manhãs para ouvir as queixas dos habitantes da cidade, e viajava pelo país, encontrando-se com apoiantes nas zonas rurais — uma atuação que muitos viam como uma tentativa de reforçar a sua imagem junto da população e de se distanciar das autoridades governamentais.
Segundo uma fonte próxima do antigo Presidente do Irão, Ahmadinejad confidenciou a um pequeno grupo de assessores as suas ambições de se tornar no futuro líder do Irão com a ajuda de potências estrangeiras. Para essa intenção terá contribuído o facto de ter sido impedido de concorrer à presidência três vezes pelo sistema montado pelo regime, tendo concluído que não poderia voltar ao poder enquanto o regime atual subsistisse. O antigo Presidente do Irão temia que, em caso de guerra e mudança de regime, norte-americanos e israelitas escolhessem uma figura da oposição residente fora do Irão e que não conhecesse o país. E considerava que poderia assumir um papel de reformador, reconheceria Israel e normalizaria as relações com vários países árabes.
O comportamento de Ahmadinejad não passou, contudo, despercebido ao regime. As suspeitas dos serviços secretos da Guarda Revolucionária aumentaram, segundo dois membros daquela organização afeta ao regime, quando o antigo chefe de Estado começou a enviar cartas públicas ao Presidente dos EUA, Donald Trump, e, posteriormente, ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, em 2017. Após o ataque israelita de fevereiro, que culminou na libertação momentânea de Ahmadinejad, os serviços secretos iranianos começaram a investigar e a reconstituir a ligação com Israel.
Nos relatórios sobre as viagens de Ahmadinejad ao exterior, elaborados pelos seus guarda-costas, esses membros da Guarda Revolucionária relataram que o antigo Presidente desaparecia em várias ocasiões, dizendo à equipa de segurança que se ia reunir com professores universitários.
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