As redes móveis no Médio Oriente foram alvo de repetidos ciberataques com o objetivo de localizar o pessoal dos EUA durante a guerra com o Irão, escreve o Financial Times esta terça-feira, citando dados das empresas de telecomunicações e fontes familiarizadas com o assunto. Os sistemas de roaming e a tecnologia de publicidade (utilizada para direcionar campanhas publicitárias online) foram utilizados para tentar localizar norte-americanos enquanto as forças iranianas atacavam na região.

A possibilidade de os adversários estarem a seguir as forças americanas alarmou alguns legisladores norte-americanos, que alertaram para o facto de os sistemas de roaming e a tecnologia publicitária dos smartphones terem deixado as forças armadas vulneráveis a ataques, escreve o Financial Times, que adianta que as tentativas de localização ocorreram no período que antecedeu o ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irão, no final de fevereiro, e continuaram nos primeiros dias da guerra, quando Teerão retaliou com ataques com mísseis e drones contra as forças norte-americanas e instalações militares em toda a região.

Os dados, partilhados com o FT pelo projeto de investigação Mobile Surveillance Monitor, mostram que as redes de telecomunicações regionais tiveram de fazer face a uma onda de pedidos, denominados “pings SS7”, que procuravam localizar telefones específicos em roaming fora das suas redes de origem, o que, segundo dois especialistas em cibersegurança que analisaram os dados, sugeria uma campanha coordenada.

Autoridades do Golfo suspeitavam que o Irão ou os seus aliados estivessem a aproveitar-se de acordos de roaming com operadoras de telemóvel locais para tentar localizar norte-americanos, afirmou uma pessoa a par do assunto ao jornal. Por outro lado, uma segunda pessoa — um responsável norte-americano que falou sob condição de anonimato — afirmou acreditar que agentes ligados ao Irão tinham abusado de bases de dados publicitárias disponíveis no mercado para rastrear telemóveis no Curdistão iraquiano.

Os especialistas afirmam, contudo, que é necessária uma investigação mais aprofundada para atribuir ataques específicos à vigilância digital, que seria uma das várias fontes de informação utilizadas para identificar alvos — desde observadores humanos até às críticas de hotéis e publicações no Facebook que alguns membros das equipas norte-americanas deixaram durante as missões. No entanto, o Comando Central dos EUA informou o Congresso, em abril, que tinha “recebido vários relatórios de ameaças relativos à exploração, por parte do adversário, de dados de localização comerciais para identificar ou vigiar o pessoal norte-americano no teatro de operações“.

Os pedidos SS7 exploram uma vulnerabilidade inerente às primeiras infraestruturas das redes telefónicas, permitindo que uma operadora e outras entidades com acesso legítimo obtenham uma localização aproximada dos telemóveis. As operadoras de telemóveis iranianas têm acordos de roaming em todo o Golfo e no Médio Oriente, o que lhes confere a capacidade técnica de enviar pings SS7 para além das suas fronteiras.

Segundo Wyden, que citou uma apresentação do Departamento de Segurança Interna que identificou o Irão como um dos “principais países” a utilizar o SS7 para visar “assinantes norte-americanos”, Teerão terá utilizado esse método no passado.

Mas a suspeita de vigilância não se limitou a isto, frisa o Financial Times. No Curdistão iraquiano, suspeita-se que o Irão tenha utilizado software disponível no mercado, concebido para apresentar publicidade personalizada, com o objetivo de identificar hotéis onde se alojavam funcionários e contratados do governo dos EUA, afirmou uma das fontes.

O uso indevido da tecnologia publicitária é bem conhecido nos círculos de segurança nacional e tem sido utilizado pelos EUA para fins de vigilância. Os identificadores publicitários atribuídos aos smartphones pelos fabricantes dos dispositivos têm permitido, há anos, localizar um telemóvel específico ou um conjunto de dispositivos.