
Coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus)
Uma nova análise científica reúne evidências genéticas, reprodutivas e ecológicas de que os coelhos do sudoeste da Península Ibérica formam uma espécie autónoma, cujo reconhecimento poderá permitir medidas de conservação mais adequadas.
Afinal, o coelho que salta pelos campos portugueses poderá pertencer a uma espécie diferente da que é atualmente reconhecida pela ciência. Um novo artigo publicado na semana passada na revista Biological Conservation reúne as evidências disponíveis e defende que o coelho-ibérico deve ser reconhecido como uma espécie autónoma.
O trabalho é liderado por Rafael Villafuerte e Miguel Delibes-Mateos, do grupo TRAMAS do Instituto de Estudos Sociais Avançados (IESA-CSIC), em Córdova, e reúne investigadores ligados a instituições de vários países, incluindo os portugueses do Paulo Alves, Miguel Carneiro, Pedro Esteves, Nuno Ferrand e João Queiros, do BIOPOLIS e do CIBIO.
Atualmente, os coelhos selvagens da Península Ibérica continuam classificados como uma única espécie, o coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus), dividida em duas subespécies.
Os autores propõem que a linhagem do sudoeste, atualmente classificada como Oryctolagus cuniculus algirus, passe a ser reconhecida como uma espécie distinta, com o nome Oryctolagus algirus, ou coelho-ibérico.
As duas linhagens separaram-se há cerca de dois milhões de anos, durante as glaciações do Pleistocénico, quando ficaram isoladas em refúgios diferentes: um a norte, na região do vale do Ebro, e outro a sul, junto ao golfo de Cádis.
Desde então, permaneceram largamente isoladas do ponto de vista reprodutivo, embora exista uma estreita zona de contacto entre ambas, onde pode ocorrer alguma hibridação.
O problema, explicam os investigadores, é que os dois coelhos são muito semelhantes a olho nu. Os autores consideram estar perante duas espécies crípticas: apesar da aparência semelhante, apresentam diferenças consistentes a nível genético, morfológico, fisiológico, reprodutivo, comportamental e ecológico.
A taxonomia tradicional, muito dependente da aparência dos animais, não terá conseguido captar plenamente essas diferenças.
O coelho-ibérico ocorre naturalmente em Portugal continental e no sul e oeste de Espanha. Foi introduzido por ação humana na Madeira, nos Açores e em algumas regiões do norte de África.
Já a outra linhagem, atualmente classificada como Oryctolagus cuniculus cuniculus, ocorre sobretudo no leste e norte da Península Ibérica e foi introduzida em grande parte da Europa, bem como na Oceânia, Argentina e Chile.
A distinção poderá ter consequências importantes para a conservação. No sudoeste da Península, onde vive o coelho-ibérico, as populações sofreram um declínio acentuado, agravado pelo vírus da doença hemorrágica do coelho de tipo 2, conhecido pela sigla RHDV2.
Noutras regiões, muitas populações da outra linhagem permanecem estáveis ou estão a aumentar e, em determinadas zonas agrícolas, são tratadas como uma praga.
A classificação das duas linhagens como uma única espécie esconde, assim, realidades populacionais muito diferentes: uma encontra-se em forte declínio no sudoeste, enquanto a outra está estável ou em expansão em algumas regiões.
Esta situação pode dificultar a elaboração de avaliações de risco, regras de caça e programas de recuperação adaptados a cada linhagem. Os autores alertam também para os riscos de repovoamentos ou translocações com animais pertencentes à linhagem errada.
O reconhecimento do coelho-ibérico como espécie autónoma poderá permitir medidas de conservação específicas e ajudar a preservar uma linhagem com cerca de dois milhões de anos de história evolutiva.
“Chegar a este ponto após quatro décadas de investigação é particularmente gratificante. Ver a ciência traduzir-se em consequências concretas para a conservação de uma espécie tão importante do ponto de vista ecológico, social e económico constitui um marco muito especial”, diz o biólogo Nuno Ferrand, em comunicado do CIBIO.
A separação é, para já, uma proposta científica. Os próprios autores esclarecem que o artigo não constitui uma revisão taxonómica formal, que terá de ser realizada num trabalho sistemático específico antes de a nova classificação obter aceitação generalizada na comunidade científica.