Musée des Beaux-Arts et d’Archéologie de Besançon / Wikimedia

Pintura de “canibais à volta de restos humanos”, de Francisco de Goya (1746–1828)

Do ponto de vista energético, comer outras pessoas dificilmente compensa os riscos envolvidos.

Um novo estudo de modelação sugere que a transmissão de infeções, incluindo as doenças priónicas, pode ter tornado o canibalismo repetido evolutivamente desvantajoso, apesar das calorias obtidas.

Um exemplo histórico destes perigos é a kuru, doença neurodegenerativa que, na década de 1950, se tornou uma das principais causas de morte entre as mulheres de algumas aldeias Fore, na Papua-Nova Guiné.

A doença começava com tremores e perda de coordenação e retirava progressivamente aos doentes a capacidade de andar, engolir e falar. Era fatal. Numa população então estimada em cerca de 11.000 pessoas, a epidemia chegou a causar mais de 200 mortes por ano.

Após vários anos de investigação, foi estabelecida uma ligação entre a kuru e os rituais funerários de algumas comunidades Fore, nos quais familiares consumiam partes do corpo de parentes mortos. Para estas populações, a prática constituía uma manifestação de respeito, afeto e luto, explica o ZME Science.

As mulheres tinham um papel central na preparação dos corpos e consumiam frequentemente tecidos com elevada concentração de priões, como o cérebro. Caso a pessoa falecida estivesse infetada, essas proteínas anómalas entravam diretamente em novos hospedeiros humanos.

A prática diminuiu acentuadamente a partir do final da década de 1950, mas continuaram a surgir casos durante décadas, devido ao período de incubação muito longo da kuru.

Este exemplo está na base de um novo estudo, recentemente publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Michal Misiak, da Universidade de Wrocław, e Petr Tureček, da Universidade Carolina, construíram um modelo matemático para avaliar os custos e benefícios do canibalismo socialmente aceite ao nível de uma população.

O modelo comparou a caça a uma pessoa com o aproveitamento de um cadáver já disponível, o consumo de tecidos crus com o de carne submetida a tratamento térmico e as cadeias curtas de consumo com situações repetidas nas quais canibais comiam outros canibais.

Uma transmissão mais fácil

O consumo de qualquer tipo de carne pode expor uma pessoa a infeções, mas a barreira entre espécies dificulta a transmissão de muitos agentes patogénicos.

No canibalismo, essa barreira desaparece. Um agente já adaptado ao organismo humano encontra no novo hospedeiro tecidos, temperaturas e condições fisiológicas semelhantes, o que pode facilitar a transmissão.

Um único corpo infetado também pode expor várias pessoas. Numa refeição comunitária, diferentes indivíduos podem consumir tecidos da mesma pessoa, permitindo que uma só infeção alcance simultaneamente vários membros do grupo.

Os investigadores avaliaram ainda o que acontece quando a pessoa consumida também tinha praticado canibalismo. Chamaram a este fenómeno a “ordem” do canibalismo.

Comer alguém que nunca consumiu carne humana corresponde à primeira ordem. Comer alguém que já tinha comido outra pessoa corresponde à segunda. A ordem aumenta sempre que um canibal consome outro canibal.

O modelo não pressupõe que os agentes patogénicos se tornem mais perigosos a cada etapa. Contudo, à medida que a cadeia se prolonga, aumenta a probabilidade de ocorrerem desfechos raros, mas muito graves, que fazem subir acentuadamente o custo médio para a saúde.

“Do ponto de vista calórico, uma pessoa acaba por ser uma refeição mediana. O problema central, contudo, está noutro lugar: o risco de infeção. Os agentes patogénicos têm a tarefa facilitada, porque acabam num organismo de fisiologia quase idêntica”, explicou Misiak.

A cozedura pode destruir muitas bactérias e parasitas e inativar numerosos vírus. Não consegue, porém, neutralizar de forma fiável os priões responsáveis pela kuru e por outras doenças neurodegenerativas.

Os priões são formas anómalas da proteína priónica que induzem outras moléculas da mesma proteína a adotar também uma conformação anómala. A sua acumulação danifica progressivamente o tecido cerebral.

Estas proteínas resistem à fervura e aos métodos culinários habituais. As doenças priónicas não têm atualmente cura e são fatais.

As calorias quase não compensam os custos

Para comparar os benefícios e os riscos numa unidade comum, os investigadores exprimiram-nos em quilocalorias.

O modelo atribuiu à parte comestível de um corpo humano um valor estimado de 32.376 kcal, com base num estudo anterior sobre o conteúdo energético de um adulto do sexo masculino.

Os valores usados para representar incapacidade, morte ou infeção são parâmetros matemáticos, não a energia literalmente consumida por esses acontecimentos.

Segundo os pressupostos do modelo, caçar outra pessoa tinha um custo médio equivalente a 24.500 kcal, devido ao risco de ferimentos, incapacidade ou morte. A preparação do corpo acrescentava cerca de 5.700 kcal.

No conjunto, estes custos atingiam aproximadamente 30.200 kcal, quase anulando o valor nutricional estimado do corpo antes mesmo de serem considerados os riscos de doença.

Para representar as consequências da infeção, os investigadores partiram do princípio de que a maioria das refeições causava poucos ou nenhuns danos, mas que uma pequena fração podia conduzir a doença grave ou à morte.

No consumo de uma pessoa que nunca tinha praticado canibalismo, o custo médio modelado da infeção rondava 403 kcal. Se essa pessoa já tivesse consumido alguém, o valor subia para cerca de 2.981 kcal.

Na terceira ordem de canibalismo, os desfechos raros e catastróficos faziam aumentar o custo médio para mais de 162.000 kcal.

No cenário mais perigoso — caçar pessoas, consumir os tecidos crus e permitir a sobrevivência dos agentes patogénicos —, as calorias obtidas só superavam os custos quando os restantes alimentos forneciam menos de cerca de 643 kcal por dia.

Neste cenário, o canibalismo só apresentava um saldo energético positivo em condições de fome extrema.

Quando o modelo excluía os custos da caça e pressupunha que o tratamento térmico reduzia cem vezes a carga inicial de agentes patogénicos, as condições em que a prática poderia proporcionar um ganho energético tornavam-se mais amplas. Ainda assim, as cadeias mais longas de consumo acabavam por ser desvantajosas.

Uma possível origem dos tabus

Uma análise publicada em 2017 na Scientific Reports já tinha concluído que os seres humanos forneciam aproximadamente as calorias esperadas de um animal de tamanho semelhante, mas muito menos do que mamutes, bisontes e outras presas de grande porte.

O novo estudo acrescenta a essa comparação os custos de perseguir uma presa perigosa e de transmitir doenças.

Os investigadores consideram que estes riscos podem ter contribuído para a criação de regras culturais rigorosas contra o canibalismo. “O tabu funciona como uma salvaguarda evolutiva”, afirmou Misiak.

O modelo não reconstrói, porém, nenhuma sociedade ou epidemia antiga em particular. Usa valores ilustrativos, reduz a nutrição sobretudo às calorias e representa o canibalismo através de uma cadeia linear simplificada.

Também não inclui diretamente fatores como a prevalência dos agentes patogénicos, a dimensão das populações ou as recompensas sociais associadas ao ritual, à intimidação ou à identidade de grupo.

Por isso, o estudo não permite determinar definitivamente por que razão o canibalismo foi abandonado ou proibido em diferentes sociedades.

O estudo mostra apenas que os custos de aquisição e, sobretudo, os riscos de infeção podiam tornar a prática progressivamente desvantajosa, mesmo quando proporcionava algum benefício energético.