Estudo da Faculdade de Medicina destaca o impacto importante de uma proteína de colesterol na síndrome coronária aguda em mulheres.
Ricardo Fontes-Carvalho é Professor Catedrático Convidado da FMUP e médico cardiologista na ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho. Foto: Miguel Matias Alves/FMUP
Um estudo desenvolvido por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) alerta para a importância da medição da lipoproteína(a), ou Lp(a), uma partícula de colesterol que circula no sangue, cujos níveis são determinados sobretudo pela genética e que continua a não integrar, de forma habitual, as análises clínicas de rotina.
A investigação, realizada em Portugal com doentes internados por síndrome coronária aguda (enfarte agudo do miocárdio ou angina instável), mostrou que cerca de 39% apresentavam níveis elevados, acima dos 100 nmol/L, sendo que um em cada cinco tinha valores superiores a 175 nmol/L.
Os dados revelaram ainda que a associação entre níveis elevados de Lp(a) e síndrome coronária aguda foi particularmente marcada nas mulheres e em indivíduos mais jovens.
“Estes resultados sugerem que a Lp(a) pode ter um impacto importante no risco de síndrome coronária aguda nas mulheres, um grupo em que o risco cardiovascular continua muitas vezes subestimado”, afirma Ricardo Fontes-Carvalho, professor da FMUP e um dos autores do estudo.
Segundo os investigadores, esta informação poderá ajudar a identificar mulheres aparentemente saudáveis, mas geneticamente predispostas a um maior risco de enfarte ou de outros eventos cardiovasculares, permitindo uma prevenção mais precoce e personalizada destes casos.
“As conclusões sugerem que a Lp(a) poderá ajudar a explicar alguns casos de doença coronária que surgem precocemente ou em pessoas sem o clássico perfil que apresenta outros fatores de risco cardiovascular”, acrescenta Ricardo Fontes-Carvalho.
Medir a Lp(a) pelo menos uma vez na vida
Outro dos principais resultados foi que a associação entre Lp(a) elevada e síndrome coronária aguda se manteve independentemente de fatores de risco cardiovascular tradicionais, como o colesterol LDL (conhecido como o “mau colesterol”), a diabetes, a hipertensão arterial ou o tabagismo.
“Muitas pessoas apresentam níveis elevados sem o saberem e podem desenvolver doença cardiovascular prematura (como enfarte ou AVC), apesar de terem os restantes fatores de risco aparentemente controlados”, exemplifica o cardiologista.
Os investigadores verificaram ainda que os níveis de Lp(a) não apresentam relação com outros parâmetros lipídicos, reforçando o papel desta partícula como um fator de risco cardiovascular independente.
Publicado na Revista Portuguesa de Cardiologia, o estudo reforça as recomendações internacionais mais recentes, que apontam para a necessidade de todas as pessoas medirem os níveis de Lp(a) pelo menos uma vez na vida.
“Os níveis desta partícula são determinados pelos genes e permanecem relativamente estáveis ao longo da vida, pelo que uma única medição é geralmente suficiente para identificar indivíduos com maior risco cardiovascular e que podem beneficiar de estratégias preventivas mais intensivas”, explica Ricardo Fontes-Carvalho.
O estudo contou ainda com a participação de Catarina Carrapa, Marta Leite, Francisca Saraiva, Sílvia O. Diaz, António S. Barros, Inês Neves, Marta Almeida, Diogo Santos Ferreira, Gualter Santos Silva, Francisco Sampaio e Eduardo Vilela, investigadores e profissionais de saúde da ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho e do RISE-Health/FMUP.