ArteA arte que começou com os remendos feitos pela avó transformou-se em um legado que segue vivo nas mãos de Rosi Teresinha Vieira Steinbach e das filhas Leticia e Renata SteinbachFoto: Leticia Steinbach/Reprodução/ND Mais

Em meio à pressa da vida moderna, existem atividades que convidam a desacelerar. Para Rosi Teresinha Vieira Steinbach, moradora de Águas Mornas, na Grande Florianópolis, há 55 anos, a costura sempre foi mais do que uma profissão: foi um espaço de criação, concentração e tranquilidade.

Há 20 anos, entre tecidos, linhas e detalhes, ela encontrou no trabalho manual uma forma de expressão e bem-estar — uma paixão que também foi compartilhada com suas duas filhas, Leticia Steinbach e Renata Steinbach.

O som da máquina de costura acompanha a rotina há décadas em uma casa no interior da Grande Florianópolis.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir Entre máquinas de costura, tecidos e linhas, Rosi Vieira e as filhas mantêm viva uma tradição familiar que atravessa geraçõesFoto: Leticia Steinbach/Reprodução/ND MaisEntre máquinas de costura, tecidos e linhas, Rosi Vieira e as filhas mantêm viva uma tradição familiar que atravessa geraçõesFoto: Leticia Steinbach/Reprodução/ND Mais

Entre tecidos, linhas, tesouras e moldes, Rosi Teresinha construiu muito mais do que uma profissão. Costurou uma forma de viver, de cuidar da família e de encontrar tranquilidade em meio às exigências do dia a dia.

Como tudo começou: o legado familiar e a necessidade da época que se transformam em vocação

Essa história não começou quando ela decidiu trabalhar com costura. Começou muito antes. Ainda criança, Rosi observava a mãe transformar a necessidade em criatividade. “Na época, a grande maioria das pessoas aqui era bem pobre. Muitas vezes a gente ganhava roupa para usar na roça. Quando rasgava, minha mãe não deixava ninguém usar roupa rasgada“.

À esquerda o pai de Rosi, Antônio Clementino Vieira. À direita a mãe, Maria Olinda Hinkel Vieira. E no centro a filha, Rosi Teresinha Vieira SteinbachFoto: Leticia Steinbach/Reprodução/ND MaisÀ esquerda o pai de Rosi, Antônio Clementino Vieira. À direita a mãe, Maria Olinda Hinkel Vieira. E no centro a filha, Rosi Teresinha Vieira SteinbachFoto: Leticia Steinbach/Reprodução/ND Mais

Sem dinheiro para comprar peças novas, a solução era reaproveitar. Ela recorda que a mãe recortava a parte rasgada, escolhia outro pedaço de tecido e fazia um remendo tão bem feito que quase desaparecia, “Ficava perfeito“.

Foi ali, sem perceber, que Rosi começou a aprender. Enquanto a mãe costurava, ela observava. Depois passou a ajudar. Na adolescência, por volta dos 14 e 15 anos, já fazia as próprias saias e blusas.

Naquela época, comprar roupas prontas não era a realidade da maioria das famílias. “Normalmente a gente comprava o tecido e levava para a costureira”, conta Rosi, sobre a habilidade que nasceu da necessidade e que acabou se tornando vocação.

A profissão que permitiu cuidar da família

No fim da década de 1990, Rosi participou de um curso de corte e costura oferecido pela prefeitura da cidade. Depois veio um curso básico de lingerie. Foi suficiente para despertar uma paixão.

Ela começou a estudar sozinha, pesquisar, testar moldes e descobrir técnicas por conta própria. Quando os primeiros sutiãs com bojo chegaram ao mercado, ela decidiu aprender antes mesmo que alguém pudesse ensiná-la. Comprou os moldes, os tecidos e os materiais necessários. “Eu nunca tinha feito. Ninguém tinha me ensinado. Mas dei um jeito“. Deu certo, e, desde então, ela nunca mais parou.

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    Mais do que confeccionar peças, Rosi Vieira encontrou na costura uma forma de cuidar da família e transmitir às filhas um legado construído ponto a ponto - Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

    Mais do que confeccionar peças, Rosi Vieira encontrou na costura uma forma de cuidar da família e transmitir às filhas um legado construído ponto a ponto – Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

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    Quase todos os cômodos da casa de Rosi já foram transformados em sala de costura e loja de vendas na região - Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

    Quase todos os cômodos da casa de Rosi já foram transformados em sala de costura e loja de vendas na região – Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

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    Hoje a loja atual é assim e segue aberta todos os dias recebendo clientes com amor e carinho à mais de 20 anos - Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

    Hoje a loja atual é assim e segue aberta todos os dias recebendo clientes com amor e carinho à mais de 20 anos – Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

A costura também representou liberdade

Com as filhas pequenas, Leticia Steinbach, hoje com 30 anos, e Renata Steinbach, de 33, Rosi precisava encontrar uma forma de trabalhar sem abrir mão da família. “Sempre a minha prioridade foi a família. Eu precisava cuidar das meninas. Morava aqui do lado da casa dos meus pais. Também cuidava da minha mãe e do meu pai“.

Rosi com seus 4 filhos, à esquerda Luiz Henrique Steinbach, no colo Letícia Steinbach e à direita Renata SteinbachFoto: Letícia Steinbach/Reprodução/ND MaisRosi com seus 4 filhos, à esquerda Luiz Henrique Steinbach, no colo Letícia Steinbach e à direita Renata SteinbachFoto: Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

Trabalhar em casa permitiu conciliar todas essas responsabilidades. Mais do que uma fonte de renda, a costura se tornou o fio que mantinha a família unida.

Muito além da máquina de costura

Quem observa apenas o resultado final dificilmente imagina quantas etapas existem antes que uma lingerie fique pronta.

  • O tecido precisa descansar;
  • É preciso conhecer o sentido da malha;
  • Escolher a linha correta;
  • Selecionar os aviamentos;
  • Passar por diferentes máquinas;
  • Finalizar cuidadosamente cada detalhe;
  • Depois vem a etiqueta;
  • A dobra;
  • A pilha de peças prontas.

“Quando fica tudo etiquetado dá uma sensação muito boa. Parece que agora está tudo pronto“, conta Leticia. Embora trabalhem com moldes, mãe e filhas fazem questão de preservar o caráter artesanal da produção. “Eu nem gosto que fique tudo igual“, diz Rosi.

“As pessoas não são iguais. Então por que as peças precisam ser?”, as vezes é um laço diferente. Uma renda. Um acabamento. Pequenos detalhes que carregam a identidade de quem fez, ressalta Rosi.

Quando a ciência explica aquilo que o coração já sabia

A sensação descrita por Rosi encontra respaldo na psicologia. Segundo a psicóloga Aline Aguiar, que atua há 17 anos na área clínica e há 12 anos no SUS (Sistema Único de Saúde) de Palhoça, também na Grande Florianópolis, atividades manuais ajudam a direcionar a atenção para o momento presente.

“Quando a gente ocupa as mãos em uma atividade que exige atenção aos detalhes, criatividade e cuidado, também encontra uma forma de desacelerar”.

Ela explica que costura, bordado, crochê, pintura e outros trabalhos manuais reduzem temporariamente o espaço ocupado pelas preocupações constantes, favorecendo concentração, criatividade e regulação emocional.

“Criar algo com as próprias mãos proporciona uma importante sensação de realização. Também funciona como uma forma saudável de expressão e de regulação das emoções, especialmente da ansiedade”.

A especialista explica que trabalhos manuais ajudam a direcionar a atenção para o momento presente, reduzindo, ainda que temporariamente, o espaço ocupado por preocupações constantes, pensamentos repetitivos e pelo excesso de informações que fazem parte da rotina.

“Essas atividades favorecem a saúde mental porque levam a pessoa para o aqui e agora. Em vez de permanecer conectada ao excesso de estímulos, ela passa a concentrar a atenção naquilo que está criando“, afirma.

A psicóloga ressalta que essas atividades não substituem acompanhamento profissional quando existe sofrimento emocional importante, mas podem ser grandes aliadas na promoção do bem-estar.

O prazer de criar

Além de estimular a concentração, o processo de transformar uma ideia em um objeto concreto desperta uma sensação de realização.

A psicóloga explica que acompanhar todas as etapas da criação fortalece sentimentos de competência, autonomia e criatividade. “Criar algo com as próprias mãos proporciona uma sensação importante de realização. Também funciona como uma forma saudável de expressão e de regulação das emoções, especialmente da ansiedade”.

Essa satisfação não depende do resultado final. O próprio processo de criar já favorece momentos de pausa, foco e relaxamento.

Costurar também é cuidar da mente

Para Rosi, o trabalho nunca foi apenas trabalho. “Para mim não é nem um serviço. É como se fosse uma terapia“. Enquanto costura, ela sente que a mente desacelera. Os problemas parecem diminuir de tamanho. A atenção se volta completamente para a peça que está sendo criada.

Nem sempre o processo é tranquilo. Há dias em que nada parece dar certo. Em outros, é preciso desmanchar uma peça inteira e começar novamente. Mas até nisso ela encontra um ensinamento.

“Se tiver que desmanchar, desmancha tudo e começa de novo. A vida da gente também é assim. Quantas vezes a gente precisa dar um passo para trás para depois conseguir seguir em frente“, declara com profundo sentimento, a relação da costura com a vida.

Outra lição surgiu observando um detalhe simples da máquina.

“A linha estoura e fica onde ela está. Ela rompe o ciclo. A vida da gente muitas vezes precisa ser assim também. Tem coisas que a gente precisa arrebentar e deixar ir”, relata Rosi.

Para Rosi, o trabalho nunca foi apenas trabalho, ela encontrou propósito na costura. O quadro pendurado na parede diz “Você é do tamanho dos seus sonhos”Foto: Letícia Steinbach/Reprodução/ND MaisPara Rosi, o trabalho nunca foi apenas trabalho, ela encontrou propósito na costura. O quadro pendurado na parede diz “Você é do tamanho dos seus sonhos”Foto: Letícia Steinbach/Reprodução/ND MaisUma herança feita à mão

Na casa da família, os trabalhos manuais sempre fizeram parte da infância. Renata, ainda pequena, sentava ao lado da avó enquanto ela bordava. “Ela gostava de ficar junto. A vó já deixava ela bordar“.

As sobras dos tecidos também ganhavam novos significados. As roupas das bonecas Barbie eram feitas pelas meninas, Leticia e Renata. Vieram depois as pulseiras de miçangas, os colares, o biscuit, a pintura em tecido, as colagens, os cadernos encapados à mão e as caixas decoradas.

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    No ateliê, cada detalhe tem sua função. O trabalho artesanal passa por diferentes etapas até que a peça fique pronta - Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

    No ateliê, cada detalhe tem sua função. O trabalho artesanal passa por diferentes etapas até que a peça fique pronta – Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

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    As máquinas de costura acompanham a trajetória profissional de Rosi e ajudam a dar forma às peças confeccionadas pela família - Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

    As máquinas de costura acompanham a trajetória profissional de Rosi e ajudam a dar forma às peças confeccionadas pela família – Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

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    As peças são produzidas de forma artesanal, com atenção aos detalhes em cada etapa da confecção - Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

    As peças são produzidas de forma artesanal, com atenção aos detalhes em cada etapa da confecção – Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

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    Cada lingerie passa por diversas fases de produção, desde o corte do tecido até os acabamentos finais - Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

    Cada lingerie passa por diversas fases de produção, desde o corte do tecido até os acabamentos finais – Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

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    Carretéis de linha, moldes e aviamentos dividem espaço com histórias construídas ao longo de gerações - Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

    Carretéis de linha, moldes e aviamentos dividem espaço com histórias construídas ao longo de gerações – Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

Cada fase da infância trazia uma nova criação. “Era sempre algum trabalho manual“, lembra Leticia. Ela conta que a mãe nunca ensinou apenas técnicas. Ensinou também um jeito de demonstrar carinho. “A mãe sempre ensinou que fazer alguma coisa para dar para alguém tem mais significado“.

Por isso, em vez de comprar presentes prontos, ela preferia pintar panos de prato e toalhas para presentear madrinhas e pessoas queridas. “Era muito mais legal do que comprar“, diz Leticia.

Para a família, cada peça carrega um valor que não cabe em etiquetas. “É um presente com significado“.

Hoje, mesmo morando em São Paulo desde 2019, Renata continua produzindo peças artesanais. Ela faz tapetes de retalhos já pensando em quem vai receber. “A mãe. A irmã. A madrinha. Os amigos. O afeto continua viajando junto com cada pedaço de tecido“, finalizam sobre o carinho que tanto ela, quanto a sua irmã, tem pelo legado da família na arte do trabalho manual.

Um tempo para desacelerar

Em uma rotina cada vez mais acelerada, reservar alguns minutos da semana para uma atividade manual pode representar um momento de reconexão consigo mesmo.

“Quando a pessoa cria esse espaço na rotina, ela diminui o ritmo, exercita a atenção e encontra uma oportunidade de descansar da sobrecarga mental provocada pelo excesso de estímulos do dia a dia“, explica a psicóloga.

Ela ressalta, porém, que os trabalhos manuais não substituem o acompanhamento psicológico quando existe um sofrimento emocional significativo. “Essas práticas são recursos importantes para promover bem-estar, qualidade de vida e cuidado com a saúde mental, mas não substituem um tratamento profissional quando ele é necessário“.

Quando a atividade aproxima pessoas, em especial, a família

Os benefícios podem ser ainda maiores quando essas práticas acontecem em grupo. Oficinas de costura, encontros de bordado, rodas de crochê e aulas de pintura, por exemplo, estimulam a convivência e ampliam as relações sociais.

De acordo com a especialista, além do trabalho manual, esses ambientes favorecem a troca de experiências, fortalecem vínculos e desenvolvem habilidades sociais, fatores que também contribuem para a saúde emocional.

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    Entre linhas e tecidos, Rosi Vieira compartilha com as filhas um ofício que se tornou legado familiar em Águas Mornas - costura-legado-familiar-aguas-mornas-grande-florianopolis

    Entre linhas e tecidos, Rosi Vieira compartilha com as filhas um ofício que se tornou legado familiar em Águas Mornas – costura-legado-familiar-aguas-mornas-grande-florianopolis

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    Quatro gerações foram unidas pelo trabalho manual: a tradição começou com os remendos da mãe de Rosi Vieira e segue presente na vida das filhas e netas - Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

    Quatro gerações foram unidas pelo trabalho manual: a tradição começou com os remendos da mãe de Rosi Vieira e segue presente na vida das filhas e netas – Letícia Steinbach/Reprodução/ND Mais

Um legado costurado em família

Ao olhar para trás, Rosi percebe que sua história nunca foi apenas sobre tecidos. Foi sobre a mãe que remendava roupas para preservar a dignidade da família.

  • Sobre aprender observando;
  • Sobre criar soluções quando o dinheiro era pouco;
  • Sobre escolher permanecer perto das filhas;
  • Sobre transformar retalhos em presentes carregados de afeto;
  • Sobre ensinar que nem tudo precisa ser comprado quando pode ser feito com carinho.

Entre linhas que às vezes arrebentam, peças que precisam ser desmanchadas e outras tantas que ganham forma pouco a pouco, ela segue encontrando sentido no mesmo lugar onde tudo começou. Um ponto de cada vez.