ZARA

As agora famosas “flowing wide-leg trousers” da Zara
Dos vestidos com arsénio às crinolinas ou espartilhos. O que se passa com as calças da Zara nem parece muito mau, comparativamente.
Umas calças da Zara chocaram os utilizadores das redes sociais, depois de se multiplicarem relatos de quedas atribuídas à peça. Mas o vestuário perigoso está longe de ser um fenómeno contemporâneo.
Várias mulheres relatam no TikTok e no Instagram quedas, escoriações e até fraturas, aparentemente relacionadas com a largura extrema da peça de poliéster.
Segundo os testemunhos, ao caminhar, um pé pode facilmente ficar preso na perna oposta das calças, fazendo com que a pessoa que as usa tropece. Os relatos circulam sob a hashtag #deadlyzarapants (“calças mortais da Zara”).

As calças “mortais” estão à venda no site da Zara por 25.95 euros
Uma análise da história da moda mostra, contudo, que o vestuário já foi muito mais perigoso do que sugere a mais recente tendência viral das redes sociais.
Vestidos de baile com arsénio no século XIX
No século XIX, os vestidos verdes eram extremamente cobiçados. Até então, a maioria das pessoas usava sobretudo tons terra discretos, obtidos através de pigmentos naturais. Mais tarde, químicos descobriram o brilhante acetoarsenito de cobre verde, que um empresário bávaro começou a comercializar à escala industrial, fornecendo também fábricas têxteis.
Uma aparição espetacular da imperatriz francesa Eugénie num baile noturno, vestida precisamente com esse tom, conhecido como “Verde de Schweinfurt”, revolucionou o mundo da moda parisiense. A cor tornou-se uma tendência em toda a Europa e o nome alemão depressa deu lugar a uma designação internacional, mais fácil de pronunciar: “Verde de Paris”.
Aquilo que já se sabia desde o início, mas foi ignorado, era que o pigmento era extremamente tóxico e também utilizado como veneno para ratos e insetos. Quando as mulheres que usavam estes vestidos transpiravam durante os bailes, o veneno libertava-se do tecido.
As consequências incluíam úlceras dolorosas na pele, queda de cabelo, náuseas e intoxicações crónicas e progressivas. Além disso, o pó dispersava-se no ar.
Não existem números exatos sobre mortes, mas um médico de Berlim demonstrou que, numa única noite de baile, cerca de quatro gramas de pó fino de arsénio podiam desprender-se de um vestido e espalhar-se inadvertidamente pelo ambiente — uma quantidade suficiente, em caso de ingestão, para matar cerca de 20 pessoas.
Armadilhas fatais: as saias de armação

Também no século XIX, as crinolinas eram muito populares: enormes saias de armação feitas de aço e crina de cavalo.
Além de serem extremamente incómodas para qualquer mulher que precisasse de se movimentar, estas peças de roupa interior revelaram-se um perigo mortal.
Ao entrarem em contacto com velas ou com o fogo de uma lareira, as saias podiam incendiar-se facilmente e ficar completamente em chamas em poucos instantes. Como as mulheres que as usavam não conseguiam libertar-se delas sem ajuda, as crinolinas transformavam-se em armadilhas fatais.
Os historiadores estimam que incêndios envolvendo crinolinas tenham provocado a morte de vários milhares de mulheres entre o final da década de 1850 e a década de 1860, só no Reino Unido.
Os espartilhos dos desmaios
Wikimedia Commons

Espartilho
Os espartilhos voltaram a estar na moda — ou talvez nunca tenham verdadeiramente desaparecido. Estrelas como Taylor Swift, Billie Eilish e Kim Kardashian são disso exemplo. Há séculos que as mulheres usam corpetes apertados para realçar e moldar a cintura. Uma cintura fina simbolizava juventude, enquanto ancas marcadas eram associadas à fertilidade.
No século XIX, esta procura pela silhueta ideal atingiu, em certos períodos, níveis extremos através da prática conhecida como tight-lacing, ou “aperto extremo”. Com a ajuda de hastes rígidas feitas de barbas de baleia ou aço, os corpos das jovens eram comprimidos centímetro a centímetro.
A compressão provocada por estas peças podia ter consequências graves para a saúde. A forte pressão exercida pelo espartilho deformava, por vezes, as costelas inferiores e comprimia os órgãos internos. Médicos da época relatavam problemas digestivos graves, uma vez que o estômago e os intestinos permaneciam sob pressão constante.
Ao mesmo tempo, um espartilho excessivamente apertado limitava a mobilidade da caixa torácica, tornando a respiração mais superficial. Por esse motivo, as tonturas e os desmaios eram considerados efeitos secundários típicos.
Além disso, historiadores e médicos acreditam que o uso prolongado de espartilhos muito rígidos podia enfraquecer a musculatura do tronco.