A remoção de uma antiga parede opaca deu lugar a um elegante biombo de madeira ripada e metal, recuperando a transparência e a leveza que os arquitetos originais idealizaram nos anos 60. Esta abertura estratégica, realçada pela arquiteta responsável, permite ao visitante, ainda rodeado pelas peças asiáticas, antever à distância as salas da Arte Europeia e vislumbrar de imediato as obras-primas de Rembrandt e Rubens. É ali que se dá o mote para outra importante mudança, explica Xavier F. Salomon. A partir desse ponto, o chão volta a ser alcatifado, tal como acontecera originalmente. “O tom bege-esverdeado (um pouco mais claro do que o original) restabelece a continuidade visual entre os espaços interiores e o jardim envolvente. Esta reintrodução contribui para reforçar a unidade espacial do Museu, tornando os espaços mais harmoniosos e acolhedores. Nesta secção, a seda voltou a revestir as paredes, recuperando a elegância e o espírito original das salas”, explica a Gulbenkian em comunicado.

Nas salas europeias, mantêm-se a organização cronológica que vai desde os objetos de marfim e manuscritos medievais até às pinturas de Carpaccio, Bugiardini, Rembrandt e Rubens. A coleção de mobiliário e a sala das pratas (provenientes sobretudo da Rússia, mas também de Portugal) traçam o percurso onde não faltam trabalhos de escultura. Entre estes, destaca-se o original em mármore da célebre Diana, de Houdon, que pertenceu a Catarina da Rússia e que Gulbenkian adquiriu ao Museu Hermitage em 1930. Nomes como Turner, Degas, Monet, Renoir, Manet e Sargent, entre muitos outros, continuam a evidenciar o legado e importância da pintura na coleção de Calouste Gulbenkian — alguns dos quais pintados já durante o seu período de vida —, sem grandes alterações de disposição face ao que existia anteriormente.

Por fim, como cartão de visita incontornável do museu, a Sala Lalique foi objeto de uma leitura contemporânea. Esta é a quinta vez que o espaço é transformado desde a abertura do museu, segundo o diretor. Desta feita, a sala integra pinturas de Edward Burne-Jones e John Singer Sargent, estabelecendo um diálogo direto entre as jóias e os vidros de René Lalique e o contexto artístico mais amplo da Belle Époque. “Foi alguém que, de resto, foi próximo de Calouste e um artista que este apoiou ao longo de décadas”, sintetiza Xavier F. Salomon.

Chegados ao fim deste percurso, o novo diretor Xavier F. Salomon destaca que o Museu Calouste Gulbenkian alberga uma coleção extensa e heterogénea que dificilmente pode ser apreciada apenas com uma passagem pelo museu. “Merece ser visto em diversos momentos, sendo por isso um museu a que devemos regressar”. O trabalho realizado por equipas portuguesas, mas também internacionais, comportou o grande desafio deste período de renovação, sobretudo em termos logísticos, acrescenta ainda.

A realidade das grandes obras não é, de resto, alheia ao historiador de arte. Antes de assumir estas funções, Salomon foi diretor-adjunto e curador-chefe da The Frick Collection, em Nova Iorque, onde dirigiu a renovação das galerias — um processo que implicou a mudança provisória da coleção, em 2021, para a Frick Madison, e o posterior retorno ao edifício histórico do museu, que reabriu em abril deste ano. “Pegando nesse exemplo, mudámos o museu para um edifício de características brutalistas por um período de tempo e uma das grandes inspirações para esse projeto foi, justamente, o Museu Calouste Gulbenkian. Por isso, posso admitir que fui antes bastante inspirado pela história deste edifício que agora reabre as suas portas também tendo sido objeto de intervenção”, explicou ao Observador.