Jogadores da seleção argentina reacenderam a polémica em relação à soberania do arquipélago
O tema das Ilhas Malvinas é muito popular na Argentina e volta sempre à atenção mediática durante os Mundiais de futebol, em que a Argentina tem tido bastante sucesso recentemente, alcançando três das últimas quatro finais.
Após a meia-final com Inglaterra, um ator relevante nesta disputa, vários jogadores da seleção albiceleste foram vistos a segurar uma tarja com a frase “Las Malvinas son Argentinas”, “As Malvinas são argentinas” em português. A brincadeira pode valer uma multa e o governo britânico levou-a muito a sério, com Keir Starmer a instar a FIFA a investigar os jogadores que seguraram na tarja.
“O Mundial pode não ser nosso, mas as Ilhas Malvinas são, sem dúvida, nossas. A nossa posição mantém-se inalterada. A autodeterminação cabe aos habitantes das ilhas e o nosso compromisso com as Malvinas nunca vacilará. De um modo mais geral, quaisquer medidas que venham a ser tomadas são da competência da FIFA, mas tem sido um Mundial fantástico e sempre afirmámos que a política deve ficar fora do futebol”, disse o porta-voz do primeiro-ministro britânico, citado pelo The Guardian.
A disputa pela soberania do arquipélago, chamado de Falklands pelos anglófonos, dura desde o século XVII e envolveu Espanha, França, Reino Unido, Estados Unidos e os Estados antecessores da Argentina. Franceses e britânicos estabeleceram as primeiras colónias nas ilhas em 1764 e 1765, respetivamente. No entanto, foram os espanhóis que governaram o arquipélago desde essa altura, baseando-se no Tratado de Tordesilhas, até 1811, altura em que se retiraram, deixando as ilhas sem governo.
Em 1829, a Argentina, então ainda sob o nome Províncias Unidas do Rio da Prata, estabeleceu um posto nas ilhas, que durou muito pouco. Quatro anos depois, os britânicos atracaram no arquipélago e expulsaram a administração argentina. Foi o início da ocupação ininterrupta das ilhas por parte de Londres.
Nas décadas seguintes, a Argentina protestou junto do governo britânico quase todos os anos. Em 1982, a junta militar que governava a Argentina com mão de ferro, liderada por Leopoldo Galtieri, enfrentava um cenário doméstico difícil, marcado pela instabilidade social e estagnação económica. Para tentar ganhar mais apoio junto dos argentinos, Galtieri ordenou a invasão e ocupação das Malvinas. Com o nome de código “Operación Rosario”, as tropas argentinas desembarcaram nas ilhas no dia 2 de abril de 1982 e estabeleceram controlo sobre as mesmas quase sem oposição. A resposta britânica surgiu três dias, quando o governo de Margaret Thatcher decidiu enviar uma força naval para o Atlântico Sul, antes de realizar uma invasão terrestre ao arquipélago.
A guerra não-declarada durou 10 semanas. 649 soldados argentinos e 255 militares britânicos perderam a vida. Três civis conheceram o mesmo destino. Em junho, o Reino Unido expulsou definitivamente todas as tropas argentinas.
O conflito teve consequências políticas nos dois países. A junta militar argentina enfrentou fortes protestos e caiu em 1983. Também nesse ano, no Reino Unido, o Partido Conservador obteve uma das maiores vitórias eleitorais do século XX, muito ajudado pelo sucesso da guerra.
Apesar da tareia que levaram em 1982, os argentinos não desistiram de tentar reestabelecer a soberania sobre o território. A constituição do país considera as Malvinas “parte integral” da Argentina. Os defensores das reivindicações dos sul-americanos argumentam, entre outros pontos, que o estabelecimento da soberania britânica das ilhas em 1833 foi ilegal à luz do direito internacional, que a soberania das ilhas foi transmitida por Espanha à Argentina aquando da independência e que o arquipélago está na mesma plataforma continental que o país.
No entanto, os habitantes das Malvinas parecem contentes com o estatuto de Território Britânico Ultramarino. Em 2013, 99,8% da dos eleitores participantes votaram em referendo para permanecerem britânicos. Apenas três pessoas votaram contra. Este referendo é um dos maiores argumentos britânicos para a manutenção da soberania sobre as ilhas, que também alegam que se estabeleceram na ilha ainda antes de existir um Estado argentino.
O jogo desta quarta-feira foi o quarto entre ingleses e argentinos em Mundiais após o conflito. Três anos após a guerra, defrontaram-se no segundo Mundial do México, num encontro que ficou célebre pela “Mão de Deus” de Diego Maradona. Em 1998, em França, as seleções empataram a dois golos. Quatro anos volvidos, num jogo disputado em Sapporo, a Inglaterra venceu com uma grande penalidade de David Beckham.