
Imóveis onde ocorreram suicídios, homicídios ou mortes solitárias perdem valor e podem ficar anos desocupados no país. Empresas apostam em “investigações de maus espíritos” e purificações para atrair inquilinos.
A casa de dois pisos num subúrbio a sul de Yokohama já conheceu dias melhores. As persianas metálicas cobrem permanentemente as janelas do rés do chão, os painéis deslizantes de papel das janelas do piso superior estão em farrapos e o jardim está tomado pelo mato. Com algum esforço e investimento, porém, o imóvel poderia ser remodelado e voltar a ser uma casa perfeitamente habitável.
Mas nenhum japonês quer viver ali. A casa é classificada como “jiko bukken“, um “imóvel estigmatizado”, e está desocupada há pelo menos cinco anos. O termo aplica-se a residências marcadas por algum acontecimento grave que gera rejeição social, como homicídio, suicídio, incêndio com vítimas ou uma morte solitária, quando um idoso morre e o corpo só é descoberto dias depois.
Kazutoshi Kodama, presidente da empresa imobiliária especializada Kachimode Co., acredita que os jiko bukken representam um peso financeiro para os seus proprietários e, para ele, uma oportunidade de negócio. Fundada em dezembro de 2022, a Kachimode “ajuda proprietários de imóveis com histórico de incidentes a gerir as suas propriedades para arrendamento”.
Parte desse serviço é uma abrangente “investigação de fantasmas”, disse. E, longe de ser algo descartado pelas pessoas, a procura pelo serviço está a crescer rapidamente, acrescentou.
“Os japoneses veem a morte como uma impureza”
“Os japoneses, por vezes, consideram a morte uma impureza”, disse Kodama à DW. “A morte está associada à impureza e ao azar. Consequentemente, acreditam que entrar em contacto próximo com a morte lhes trará má sorte”, afirmou. “E isso significa que muitos japoneses hesitam em aproximar-se dessas propriedades, quanto mais arrendá-las ou comprá-las.”
Arrendar ou vender um jiko bukken é mais difícil devido à exigência legal de que qualquer mediador imobiliário revele o histórico do imóvel aos interessados. Além disso, foi criado um site que mostra a localização de todas as propriedades estigmatizadas do país e o motivo de estarem nessa lista.
A maioria dos registos indica incêndios acidentais, mortes solitárias ou suicídios, mas alguns apresentam uma observação mais inquietante: “Obtenha detalhes com o mediador imobiliário”.
Numa grande cidade com elevada procura por arrendamento, o proprietário de um imóvel estigmatizado precisa de reduzir o valor da renda em 30%, disse Kodama. Noutras regiões, o desconto pode chegar a metade do valor.
“E há algumas propriedades que, embora anunciadas para arrendamento, permanecem desocupadas durante até 500 dias”, afirmou. “Conheço um imóvel que ficou vazio durante mais de 1000 dias. Em resumo, tornam-se simplesmente propriedades desocupadas, e o conceito de redução de preço deixa de fazer diferença.”
Alguns arrendatários, no entanto, ficam mais tranquilos depois de a Kachimode “purificar” uma propriedade, indo além da substituição de alcatifas, instalações e papel de parede.
“A minha empresa realiza o que chamamos de ‘investigação de fantasmas’”, contou.
“Passamos a noite em divisões onde ocorreram incidentes, das 22h às 6h, realizando gravações de vídeo e áudio, pesquisas de ondas eletromagnéticas, medições da temperatura ambiente, humidade e pressão atmosférica, termografia e medições de ruído.”
“O objetivo é atestar que as divisões onde pessoas morreram foram completamente remodeladas e estão agora limpas, além de comprovar que fenómenos poltergeist, presença de fantasmas e outras ocorrências misteriosas não acontecem”, afirmou.
Remover os “maus espíritos”
O serviço da Kachimode é único no Japão, e Kodama trabalha com um professor universitário especializado na monitorização do sobrenatural. Uma pernoita custa 88 mil ienes (cerca de 510 euros), após a qual é fornecido um relatório detalhado ao proprietário, que pode ser utilizado pela imobiliária para sustentar a afirmação de que não há “maus espíritos” remanescentes.
Kodama conta que os seus equipamentos, em algumas ocasiões, já registaram anomalias, com câmaras a interromper gravações e microfones a apresentarem falhas.
“Dito isto, na grande maioria dos casos, aquilo que era percecionado como uma ‘impureza’ não pôde ser reproduzido e foi considerado uma ocorrência isolada”, afirmou. “No entanto, também existem propriedades onde vários fenómenos misteriosos acontecem de forma consistente durante um período superior a um ano.”
Joey Stockerman é um dos fundadores da Akiya Mart, empresa que promove a venda de um número crescente de imóveis vazios no Japão, especialmente em zonas rurais que enfrentam um rápido declínio populacional.
“Há muitas propriedades vazias em todo o Japão e, surpreendentemente, até nos centros das cidades”, disse à DW. “Existem muitas razões para isso, como famílias que não chegam a acordo sobre o que fazer com um imóvel ou simplesmente não acham que valha a pena vendê-lo. Mas também há muitas propriedades estigmatizadas.”
Segundo um inquérito do governo realizado no final de 2024, havia nove milhões de habitações desocupadas no Japão, representando 13,8% de todas as casas do país. Embora existam diversas razões para este elevado número de imóveis vazios, a superstição também contribui para o problema.
“Os japoneses costumam ser muito supersticiosos”, disse Stockerman. “Arrendar locais onde alguém morreu pode ser muito difícil, e também não querem propriedades próximas de cemitérios, pois existem sentimentos muito fortes em relação à morte.”
Um investimento desafiante
Um conhecido de Stockerman decidiu arriscar e comprar uma propriedade estigmatizada num subúrbio de Tóquio, contou, adquirindo o imóvel como oportunidade de investimento por menos de 5 mil dólares (cerca de 4300 euros), aproximadamente 5% do seu valor real.
O investimento, porém, não deu o resultado esperado, porque o mediador imobiliário recusou-se a minimizar o histórico do imóvel, o que fez com que permanecesse vazio durante dois anos até encontrar um inquilino.
Ciente das sensibilidades dos compradores de imóveis no Japão, a Akiya Mart passou recentemente a oferecer um pacote no qual um sacerdote xintoísta de um templo próximo visita a propriedade para realizar uma cerimónia destinada a “purificá-la” de maus espíritos.
“É um pouco excêntrico, mas houve interesse”, disse Stockerman.
Com mais de 15 anos de experiência no mercado imobiliário, Kodama também acredita que livrar uma casa do seu passado desagradável será um setor em crescimento.
“As propriedades onde encontramos fenómenos misteriosos são precisamente aquelas que costumam ser evitadas”, afirmou. “São difíceis de arrendar ou vender. Mas ainda existem formas de gerir até mesmo esses imóveis, e nós trabalhamos com os proprietários para o fazer.”
“Acho que este setor tem potencial”, acrescentou. “Porque há pessoas que precisam disso.”