O espetador que se prepare para uma viagem com sangue, suor e saliva. Cátia Tomé, Ivo Saraiva e Silva e Ricardo Teixeira, do coletivo teatral SillySeason, partiram do clássico Macbeth de William Shakespeare e escreveram um texto a três mãos que aborda a ambição desmedida pelo poder, a decadência moral, a intimidade como espetáculo e a banalização da violência, no mundo atual em que a fronteira entre o real e o artificial é cada vez mais ténue.

Os seis atores em cena (que incluem, além dos autores, Ana Moreira, Patrícia Brüheim e Rafael Carvalho) interpretam um texto que não tem as palavras escritas por Shakespeare, mas que remete para os dramas intemporais que atravessam os séculos. “Macbeth, na peça original, é um soldado do reino, em que numa noite aparecem as bruxas e lhe incutem o desejo de ser rei. E ele começa a ficar obcecado por essa ideia de ser rei, que é uma obsessão pelo poder desenfreado, em que vale tudo. E nesse caminho começa a matar pessoas, a passar por cima de todos os valores e de toda a ética”, descreve Ivo Saraiva e Silva. “Parece-nos que isto tem uma relação com os dias de hoje, com o populismo e com estas figuras que começam a aparecer e que se vão servindo de todo e qualquer modus operandi para chegar onde querem e terem poder e visibilidade”, acrescenta o autor e ator no final de um ensaio da peça que se intitula também Macbeth.

São desejos íntimos de poder e fama que não se restringem à política e que “começam nas nossas casas e em contextos muito mais circunscritos e pequenos”, sublinha.

Os personagens deste Macbeth dos SillySeason são figuras das plataformas digitais que vivem para a câmara. Constroem-se narrativas substituindo-se a realidade pela ficção, manipulam-se emoções, cometem-se crimes e a ignorância é assumida como o caminho para a felicidade.