Para Sam Lair, investigador do Foreign Policy Research Institute, estes trabalhos de reforço demonstram que Teerão continua preocupado com a possibilidade de um ataque. “Podemos concluir que existem atividades em curso na Pickaxe Mountain que os iranianos pretendem manter, mas estão suficientemente preocupados com um eventual ataque para reforçarem as suas defesas”, afirmou à Reuters. O especialista considera que o reforço das entradas dos túneis “complicará ataques com munições penetrantes, como as bombas antibunker“.
Em abril de 2025, o ISIS relatou que foi detetado um novo perímetro de segurança em torno de Kolang Gaz La, algo que trouxe novas preocupações para os especialistas. Em declarações à Reuters, David Albright, presidente do instituto, reconheceu que se trata de um sinal de que os complexos de túneis poderão tornar-se operacionais em breve.
As imagens de satélite, por si só, não permitem determinar quando o complexo poderá entrar em funcionamento nem esclarecer se o plano original de instalar uma grande unidade de montagem de centrifugadoras continua de pé. O instituto admite, no entanto, que o Irão possa optar por construir uma unidade de menor dimensão capaz de apoiar um eventual programa de armas nucleares, caso decida reconstruir a sua capacidade de produção de centrifugadoras após os sucessivos ataques contra outras instalações nucleares.
Nos últimos meses, informações recolhidas pelos serviços secretos israelitas e divulgadas inicialmente pelo Wall Street Journal indicaram que o Irão terá transferido milhares de centrifugadoras para a Pickaxe Mountain no outono passado, numa tentativa de preservar o equipamento mais sensível do seu programa nuclear. A avaliação foi posteriormente partilhada com Washington, mas continua sem confirmação independente e nem Israel nem os Estados Unidos divulgaram provas que sustentem essa conclusão. Questionado sobre estas informações, Donald Trump respondeu apenas: “Acho que podem tê-lo feito. Não temos isso registado“.
Caso as suspeitas se confirmem, a Pickaxe Mountain poderá tornar-se na instalação mais importante do programa nuclear iraniano. Depois dos ataques lançados por Israel e Estados Unidos contra Natanz, Fordow e Isfahan (as três principais), que destruíram parte significativa da infraestrutura nuclear conhecida, a montanha poderá representar a principal oportunidade de Teerão reconstruir a sua capacidade de enriquecimento de urânio.
Durante a guerra de 12 dias, travada em junho de 2025, Israel atingiu os três principais centros nucleares iranianos e matou vários cientistas ligados ao programa atómico. Os Estados Unidos juntaram-se posteriormente à ofensiva, utilizando bombas antibunker contra as mesmas instalações. Donald Trump afirmou, na altura, que as capacidades nucleares iranianas tinham sido “obliteradas“, mas avaliações posteriores dos serviços de informações norte-americanos e de organismos internacionais concluíram que parte do programa permaneceu intacta, embora significativamente degradada. A Pickaxe Mountain ficou de fora destes ataques.
Segundo David Albright, a dimensão do complexo subterrâneo levanta dúvidas sobre a versão oficial apresentada pelo Irão. O especialista considera que a instalação parece ser “significativamente maior” do que seria necessário apenas para montar centrifugadoras, o que leva o instituto a admitir que o complexo possa vir a acolher também uma instalação de enriquecimento de urânio. “Quando se montam centrifugadoras, o passo seguinte é instalá-las numa central de enriquecimento”, afirmou, citado pela CNBC. Se essas máquinas estiverem efetivamente armazenadas no interior da montanha, acrescenta Albright, o Irão poderá dispor de um caminho para restaurar rapidamente a produção de urânio enriquecido, apesar dos ataques sofridos nos últimos meses.
Esta profundidade ajuda a explicar a razão pela qual a Pickaxe Mountain é vista como um alvo particularmente difícil. Em vez de tentarem destruir diretamente as galerias subterrâneas, vários analistas defendem que uma eventual operação militar norte-americana teria como objetivo inutilizar a instalação, atacando as entradas dos túneis, os sistemas de ventilação, o fornecimento de eletricidade e outras infraestruturas essenciais ao funcionamento do complexo.
“Não se procura fazer uma bomba antibunker que atravesse a montanha. Isso simplesmente não é possível”, afirmou David Albright, acrescentando, contudo, que isso não significa que o complexo seja invulnerável. “Não está imune à destruição ou ao encerramento. Se [os iranianos] tiverem centrifugadoras lá dentro e não as conseguirem utilizar, isso já representa um avanço para impedir o Irão de construir armas nucleares”, explicou.
O próprio Institute for Science and International Security considera que a instalação apresenta vulnerabilidades. Embora reconheça que uma operação terrestre dos EUA seria o cenário mais eficaz para neutralizar o complexo, o instituto refere que a necessidade constante de ventilação, fornecimento de energia, refrigeração e acesso de pessoal cria pontos fracos suscetíveis de serem atingidos por ataques aéreos ou operações de sabotagem. Um relatório do Pentágono, divulgado após os ataques de 2025, concluiu que o programa nuclear iraniano terá sofrido um atraso de um a dois anos, mas sublinhou igualmente que essa avaliação continha um elevado grau de incerteza.
Outros especialistas admitem que, caso Washington conclua que os bombardeamentos não chegam para impedir o Irão de recuperar a sua capacidade nuclear, uma futura intervenção poderá assumir um formato diferente. Rebeccah Heinrichs, investigadora do Hudson Institute, considera que uma eventual operação terrestre teria maior probabilidade de envolver forças especiais encarregadas de entrar no complexo para apreender ou destruir material nuclear sensível, eventualmente em coordenação com Israel, do que uma invasão convencional.
Apesar desta hipótese, não existe qualquer indicação de que os Estados Unidos estejam a preparar uma operação deste tipo. A própria analista admite, ainda, que o facto de Washington não ter atacado a Pickaxe Mountain nas operações anteriores poderá significar que pretende preservar essa possibilidade.
As declarações de Donald Trump sobre o complexo motivaram uma resposta imediata de Teerão. O quartel-general central Khatam al-Anbiya (principal base de comando militar e de engenharia das Forças Armadas do Irão) advertiu que qualquer ataque norte-americano contra instalações nucleares iranianas ou outros alvos estratégicos provocará uma escalada do conflito na região e prometeu um “ataque poderoso” contra as bases militares dos Estados Unidos nos países do Golfo.
Um órgão de comunicação próximo da ala mais conservadora do regime foi ainda mais longe, defendendo que o Irão deveria divulgar uma lista de infraestruturas estratégicas na região, nomeadamente nos Emirados Árabes Unidos, para atacar caso a Pickaxe Mountain seja bombardeada.
Apesar das suspeitas levantadas por Israel e por vários especialistas, Teerão continua a rejeitar todas as acusações de que está a construir armamento nuclear. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, garante que o Irão não possui instalações secretas de enriquecimento de urânio e insiste que todas as atividades nucleares têm fins exclusivamente pacíficos.