Os medicamentos baseados em GLP-1, usados para perda de peso, estão a provocar uma mudança silenciosa, mas crescente, no consumo alimentar em Portugal que representa já cerca de 462 milhões de euros em gasto em Alimentação e Bebidas, no período analisado do ano móvel a terminar em junho de 2025 (de junho de 2024 a junho de 2025).
De acordo com a Worldpanel by Numerator, 7% dos portugueses afirmam já utilizar medicação injetável para emagrecimento, num fenómeno que começa a ter impacto direto no retalho, enquanto 3% admitem vir a iniciar este tipo de tratamento.
“Embora ainda seja um fenómeno minoritário, o impacto já é real e mensurável. Não estamos apenas a falar de consumidores que comem menos, estamos a assistir a uma redefinição do conceito de valor no consumo alimentar, com escolhas mais racionais, maior foco nutricional e menor volume por ocasião”, afirmou Marta Santos, Country Manager da Worldpanel by Numerator Portugal.
Consumidores compram menos — e de forma diferente
Os dados apontam para uma alteração concreta no comportamento de compra dos utilizadores destes medicamentos. O volume adquirido por ocasião diminui 5% e o gasto por visita à loja recua 1%, em contraste com o crescimento do mercado total.
Na prática, isto traduz-se em cestos mais pequenos e compras mais contidas, sinalizando um consumidor mais consciente e seletivo.
Categorias sob pressão: indulgência recua
O impacto já é particularmente visível em várias categorias tradicionais do grande consumo.
Entre os utilizadores de GLP-1, observa-se uma quebra relevante de penetração em produtos considerados indulgentes, como pizzas refrigeradas (-10 pp), pastelaria (-6 pp), cerveja (-5 pp), refrigerantes com gás (-4 pp) e tabletes de chocolate (-4 pp).
Em paralelo, registam-se ganhos em categorias associadas a escolhas mais funcionais ou práticas como doces para barrar (+9pp), ovos (+5pp), conservas de peixe (+5pp), e água Mineral (+4pp).
Há ainda uma maior afinidade com produtos como bebidas vegetais, sopas refrigeradas, bebidas isotónicas e sobremesas proteicas, reforçando a tendência para maior hidratação e densidade nutricional com menor ingestão
Perfil urbano, adulto e ainda em expansão
A utilização destes medicamentos concentra-se sobretudo nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, entre consumidores dos 35 aos 49 anos, maioritariamente pertencentes à classe média e frequentemente casais sem filhos.
Apesar de a maioria da população ainda não utilizar estes medicamentos, o nível de awareness já é elevado: cerca de 70% dos portugueses conhecem este tipo de terapêutica.
Retalho e indústria enfrentam mudança estrutural
Embora o fenómeno ainda não seja massificado, os sinais apontam para um potencial de transformação mais amplo.
Em mercados onde a adoção dos GLP-1 é mais elevada, observa-se uma menor frequência de compra, redução dos volumes adquiridos e uma reconfiguração do cabaz alimentar.
Para a indústria, isto poderá significar uma redistribuição relevante de valor entre categorias, com pressão crescente sobre segmentos mais indulgentes e oportunidades claras em soluções nutricionais.
Menos quantidade, mais valor: o novo paradigma
A resposta do mercado começa a desenhar-se, com produtos com maior teor proteico e funcional, porções mais pequenas e foco em saciedade, conveniência e digestibilidade.
Mais do que uma quebra de consumo, o que está em causa é uma mudança estrutural na forma como os consumidores definem valor: menos volume, mais qualidade nutricional e maior adequação às suas necessidades físicas.
Com 88% da população ainda fora desta tendência, o impacto global é, para já, limitado, mas o potencial de crescimento levanta novas questões para todo o setor de grande consumo. Se a penetração destes medicamentos continuar a aumentar, os GLP-1 poderão evoluir de tendência emergente para verdadeiro ponto de viragem no consumo alimentar em Portugal.
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