Esta história poderia inspirar um filme de terror. Troque peixe por ser humano, o lago por uma comunidade e deixe a imaginação voar.
O lago Memphremagog é longo, tem 50 quilômetros, e cruza verticalmente a fronteira entre o Estado de Vermont, nos Estados Unidos, e a província de Quebec, no Canadá. Ele é bem preservado, riquíssimo em peixes de água doce, e atrai centenas de pescadores amadores desde o século XIX.
O lago Memphremagog, na fronteira entre Estados Unidos e Canadá Foto: S. Lemyre/Adobe Stock
Em 1858, o escritor Henry David Thoreau relatou que havia capturado um bagre marrom (Ameiurus nebulosus) com a cabeça “covered with an inky-black kind of leprosy, like a crustaceous lichen” (coberta por uma lesão leprosa, preta-nanquim, semelhante a um líquen crustáceo). Ou seja, horrível.
Desde 1912 pescadores e biólogos descrevem a presença dessa lesão em muitos bagres dessa espécie no lago Memphremagog. Nas décadas seguintes, foi demonstrado que a lesão é um tipo de melanoma que aparece nos espécimes jovens, cresce e pode invadir outros órgãos, mas raramente é fatal para esses peixes, que são lindos, podem chegar a meio metro de comprimento e são deliciosos na brasa.
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Apesar de ser relativamente frequente, esse tumor só aparece nessa espécie e nesse único lago. Esse fato e a descoberta, na primeira metade do século XX, de que compostos químicos podem causar câncer levaram muitos biólogos e ambientalistas a propor que a culpa deveria ser da contaminação da água por algum composto químico, hipótese fortalecida pela instalação de uma indústria química na beira do lago.
Já os geneticistas argumentavam que os tumores eram muito semelhantes e que talvez esse fosse um caso semelhante ao dos tumores que estão exterminando o diabo-da-tasmânia. Nesse mamífero, o tumor aparece no focinho e, quando eles brigam, algumas células do tumor passam de um animal para o outro, como descrevi em 2016, no artigo “Cancer infeccioso”.
Agora um novo estudo resolveu a polêmica. O DNA do genoma do peixe e do tumor foi sequenciado. Ficou claro que os tumores são compostos por células do peixe, exatamente como ocorre quando um melanoma humano e o genoma da pessoa afetada são sequenciados. E, como no caso dos humanos, o tumor do peixe possui diferenças em muitos genes, o que explica por que as células tumorais se dividem loucamente.
O Ameiurus nebulosus é encontrado apenas no lago Memphremagog Foto: Rostislav/Adobe Stock
Em seguida, os cientistas sequenciaram o DNA do tumor e do peixe afetado em 19 animais, e o DNA de 84 peixes saudáveis. Quando todas essas amostras foram analisadas, ficou claro que os tumores eram muito parecidos entre si, como se descendessem de um ancestral comum. Isso foi observado também para o DNA de todos os peixes. Ou seja, os tumores são semelhantes entre si, os peixes são semelhantes entre si, mas tumores e peixes, apesar de descenderam de um ancestral comum, vêm divergindo faz tempo. É como se fossem duas populações que evoluem separadamente, os tumores pulando de um peixe para o outro quando eles se tocam.
A conclusão é que, em algum momento no passado (a época exata ainda precisa ser determinada), um peixe apareceu com um tumor e esse tumor adquiriu a capacidade de pular de um peixe para o outro, como se fosse um parasita. Atualmente, 90% dos peixes dessa espécie no lago Memphremagog estão contaminados pelo tumor.
No caso do diabo-da-tasmânia, o tumor infeccioso ameaça extinguir a espécie. No caso dos peixes, talvez seja possível conter o tumor nesse único lago sacrificando sistematicamente os animais afetados.
Agora o roteiro do nosso filme de terror. Um melanoma letal aparece na face de uma pessoa e, ainda invisível, passa de pessoa a pessoa quando elas se beijam. A epidemia se espalha pela cidade enquanto bravos cientistas tentam descobrir a causa e convencer a comunidade a parar de se beijar. É quando um deles se contamina e se apaixona pelo outro. Se quiserem apimentar o roteiro, existe um tumor desse tipo em cachorros que ocorre no pênis e é transmitido por via sexual.
Mais informações: Brown bullhead catfish melanoma represents a novel transmissible cancer. Nature https://doi.org/10.1038/s41586-026-10828-6