Ralf Manteufel/Wikipedia

Um Douglas DC-4 igual ao que desapareceu em 1952 em Porto Rico.

Mistério finalmente resolvido: destroços do Pan Am Clipper Endeavor foram encontrados no Atlântico. Não há qualquer intenção de recuperar os restos mortais das 39 pessoas cujos corpos nunca foram resgatados.

Mais de sete décadas depois, uma das tragédias mais marcantes da aviação comercial parece ter conseguido o seu ponto final: os destroços do Pan American Clipper Endeavor foram finalmente localizados, no fundo do Oceano Atlântico.

O avião, um Douglas DC-4 que se despenhou em 1952 ao largo de Porto Rico, foi encontrado a cerca de 600 metros de profundidade por uma equipa de exploração internacional.

A catástrofe, que vitimou 52 das 69 pessoas a bordo, alterou para sempre as normas globais de segurança aérea.

O voo Pan Am 526A, apelidado de Easter Special, partiu de San Juan com destino ao Aeroporto Idlewild (atual Kennedy International), em Nova Iorque, em pleno dia de Sexta-Feira Santa, a 11 de abril de 1952. Infelizmente, a viagem durou menos de nove minutos.

O desastre

Durante a subida inicial, dois dos quatro motores do lado direito perderam potência em rápida sucessão, recordou o New York Times esta semana. Sem altitude suficiente para regressar em segurança à pista, o comandante John C. Burn viu-se forçado a realizar uma acostagem de emergência no mar.

Embora todos os passageiros e tripulantes tenham sobrevivido ao impacto inicial contra a água, o pânico e a confusão instalarem-se nos minutos decisivos que se seguiram. A secção da cauda separou-se e a fuselagem começou a afundar rapidamente.

Segundo relatos da época — e de acordo com o testemunho do próprio piloto perante as autoridades de aviação — muitos passageiros recusaram-se a abandonar a aeronave, e ficaram parados nos seus assentos. O comandante chegou a projetar manualmente algumas pessoas para fora do aparelho na tentativa de as salvar.

A evacuação foi profundamente dificultada por barreiras linguísticas e pelas condições adversas do mar, marcado por ondulação forte e pela presença ameaçadora de tubarões, o que levou vários passageiros a preferirem a falsa segurança da cabina. A maioria das 52 vítimas mortais acabou por morrer por afogamento.

Na altura, as demonstrações e instruções de segurança antes da descolagem não eram obrigatórias. O acidente serviu de catalisador para os procedimentos de emergência que hoje são padrão em todos os voos comerciais.

“Intacto”. A descoberta, 70 anos depois

Durante quase três quartos de século, a localização exata da aeronave com dimensões comparáveis às de um moderno Boeing 737 foi um mistério guardado pelas profundezas do oceano.

A busca decisiva ganhou força nos últimos anos por iniciativa de Russ Matthews, presidente e cofundador da organização sem fins lucrativos Air/Sea Heritage Foundation, que dedicou os últimos sete anos a este projeto.

Após adiamentos provocados pela pandemia e pelas severas condições meteorológicas da região, a oportunidade surgiu no final da primavera, quando o navio de pesquisa Fugro Brasilis cruzou a zona de busca definida. A bordo seguia o Miss Millie, um veículo subaquático autónomo em forma de torpedo, avaliado em mais de 10 milhões de euros e capaz de atingir profundidades de 6.000 metros.

Equipado com sistemas avançados de sonar e câmaras de alta resolução, o submersível realizou cerca de 30 passagens sobre a área delimitada de 25 quilómetros quadrados. Na 13.ª passagem, os sensores detetaram uma estrutura invulgar no leito marinho. As imagens revelaram o trem de aterragem, as janelas da cabina principal e a fuselagem notavelmente intacta, onde ainda era visível o logótipo azul e branco da Pan American e parte do nome “Endeavor”.

“Quando as primeiras fotos chegaram, foi um choque absoluto,” confessou Josh Gates, apresentador do Discovery Channel que participou na expedição. “Ver aquele alumínio, que não corroí, a brilhar no fundo do mar a 600 metros de profundidade foi algo verdadeiramente impressionante.”

39 corpos ficam onde estão

A expedição captou mais de 350.000 fotografias de alta definição do local. A equipa de exploração confirmou que os destroços não foram nem serão perturbados, descartando qualquer intenção de recuperar os restos mortais das 39 pessoas cujos corpos nunca foram resgatados.

Para os familiares dos passageiros, a descoberta traz um misto de alívio e dor. Diana Lachatanere, de 80 anos, tinha apenas cinco anos quando o seu pai, Romulo Lachatanere, faleceu no acidente. Para a arquivista reformada, a notícia evocou memórias profundas: “Continua a ser emocionante. Não há um corpo, e isso deixa-me triste ao pensar nele, mas é uma forma de fechar um capítulo.”