Victor Freitas / Unsplash

Miopia poderá afetar metade da população mundial em 2050. Condição é provocada pelo alongamento contínuo do globo ocular e apresenta vários riscos para a saúde. Há esperança (e não são os óculos ou as lentes que usamos).

A miopia está a aumentar em todo o mundo e poderá afetar perto de metade da população mundial em 2050.

Mais do que obrigar ao uso de óculos ou lentes de contacto, o problema altera a forma do globo ocular e aumenta o risco de doenças graves da visão. mas novas estratégias de prevenção e tratamentos estão a conseguir travar a sua progressão.

Quase uma em cada três pessoas sofre atualmente com a condição que faz com que os objetos distantes pareçam desfocados. Algumas projeções apontam para que, até meados do século, cerca de 4,8 mil milhões de pessoas sejam míopes. Muitos especialistas alertam, por isso, para uma eventual epidemia global.

Outros riscos da miopia

O impacto não se limita à perda de nitidez visual nem aos custos de consultas, óculos e lentes. A miopia aumenta o risco de descolamento da retina, degenerescência macular e glaucoma.

O perigo é maior nos casos de miopia elevada, geralmente definida por uma graduação de -6 dioptrias ou superior.

Estima-se que cerca de 500 milhões de pessoas tenham atualmente miopia elevada. Esse número poderá duplicar nos próximos 25 anos, o que tornaria a condição uma das principais causas de cegueira a nível mundial, adianta a BBC Science Focus.

O problema: quando o olho continua a crescer

Na maioria dos casos, o problema não está na lente situada na parte anterior do olho, mas no próprio formato do globo ocular. Quando a luz entra num olho saudável, é focada diretamente na retina, a camada de células sensíveis à luz localizada no fundo do olho. Na miopia, a imagem forma-se antes de chegar à retina.

Muitos recém-nascidos apresentam uma ligeira hipermetropia: a luz é focada atrás da retina. À medida que a criança cresce, o olho aumenta de tamanho e tende a corrigir naturalmente esta diferença. Quando a imagem passa a ser focada na retina, o crescimento do olho abranda através de um processo conhecido como emetropização.

Em algumas pessoas, porém, o globo ocular continua a crescer e torna-se demasiado comprido. É este alongamento que provoca a visão desfocada ao longe e aumenta a vulnerabilidade do olho a várias doenças.

A miopia surge habitualmente durante a infância e tende a estabilizar depois da adolescência. Ainda assim, nos países ocidentais, pelo menos um terço dos casos pode aparecer já no início da idade adulta. Estudos recentes indicam também que o globo ocular pode continuar a alongar-se durante os 20 anos.

Numa investigação que acompanhou 147 estudantes universitários durante cerca de um ano e meio, aproximadamente um em cada cinco apresentou um aumento do comprimento do olho. A progressão pode ser pequena em cada ano, mas torna-se relevante quando se prolonga durante uma década.

Não é só genética

Durante muito tempo, a miopia foi explicada sobretudo pela genética. A condição ocorre com maior frequência em determinadas famílias e os investigadores identificaram centenas de variantes genéticas associadas a um risco acrescido.

Cada variante tem, isoladamente, um efeito pequeno. Algumas terão aumentado de frequência ao longo do tempo por estarem ligadas a outras características que favorecem a reprodução ou a sobrevivência. Um estudo publicado em 2021 estimou que a seleção natural poderia estar associada a mais 100 mil casos de miopia em cada geração.

Mas a genética é insuficiente para explicar a subida rápida registada nas últimas décadas. As alterações genéticas acontecem ao longo de períodos muito mais extensos, o que aponta para uma combinação entre predisposição hereditária e fatores ambientais.

Entre as várias hipóteses estudadas, duas ganharam força: a intensidade da educação escolar e a redução do tempo passado ao ar livre.

A relação entre escolaridade e miopia é particularmente visível no Leste e Sudeste Asiático. Em países e territórios como a China, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul, entre 80% e 90% dos jovens que terminam o ensino secundário são míopes.

Um estudo realizado na China aproveitou as datas rígidas de entrada na escola para comparar crianças da mesma idade, mas colocadas em anos de ensino diferentes. Os investigadores verificaram que crianças de seis anos já na escola apresentavam mais miopia do que outras, também com seis anos, que ainda frequentavam o pré-escolar.

A mesma diferença surgiu nos anos seguintes: alunos integrados num nível mais avançado tinham maior probabilidade de ser míopes do que crianças da mesma idade colocadas no ano anterior. Os resultados indicaram que a exposição ao ambiente escolar tinha mais influência do que a idade por si só.

A educação não prejudica diretamente a visão. O risco parece estar relacionado com a combinação entre longos períodos de leitura e trabalho ao perto, poucas pausas visuais e menos tempo passado no exterior.

O papel da luz natural começou a tornar-se evidente há cerca de duas décadas. Uma investigação que envolveu aproximadamente quatro mil crianças de 51 escolas de Sydney concluiu que a miopia era mais frequente entre as que passavam menos tempo ao ar livre.

Durante a pandemia de covid-19, quando as restrições obrigaram milhões de crianças a permanecer dentro de casa, vários estudos detetaram um agravamento da condição.

Uma das explicações está na dopamina. A luz exterior estimula a retina a libertar esta molécula de sinalização, que parece ajudar a travar o crescimento do globo ocular. Em experiências com animais, o mecanismo reduziu o desenvolvimento da miopia.

Os efeitos também foram observados em políticas públicas. Em 2010, Taiwan lançou o programa “Tien-Tien 120”, que incentivava as crianças do pré-escolar a passar pelo menos duas horas ao ar livre durante cada dia de aulas. Segundo os investigadores citados, a prevalência de miopia acabou por cair para cerca de metade.

A utilização crescente de telemóveis, computadores e outros dispositivos digitais levou também a suspeitas sobre o impacto dos ecrãs. Mas os resultados não são conclusivos.

Uma análise publicada em 2025, baseada em mais de 300 mil pessoas, associou cada hora adicional de exposição a ecrãs a um aumento de 21% no risco de miopia. Mas a relação só foi observada até às quatro horas diárias, perdendo força a partir daí. Este padrão não corresponde ao que seria esperado se o tempo de ecrã fosse, por si só, a causa direta.

O fator mais importante poderá ser a distância a que os dispositivos são usados. A leitura prolongada, a utilização de telemóveis e outras tarefas ao perto estão associadas a um risco superior de miopia, embora ainda não esteja demonstrado de forma definitiva que sejam a causa.

A chamada regra 20-20-20 pode ajudar a reduzir o esforço visual: a cada 20 minutos, olhar durante 20 segundos para algo situado a cerca de seis metros. Não há provas diretas de que esta prática impeça a miopia, mas pode aliviar o cansaço ocular.

A diferença entre o interior e o exterior vai além da distância de focagem. A iluminação típica de um escritório ou sala de aula ronda os 500 lux. No exterior, pode variar entre mil lux num dia nublado e mais de 10 mil lux num dia de sol intenso.

Estudos indicam que uma exposição diária de algumas horas a pelo menos cinco mil lux poderá reduzir o risco de miopia.

Os ambientes exteriores oferecem também maior diversidade visual, com formas, contrastes, profundidades e padrões mais variados. Para testar esta hipótese, investigadores da Central South University, na China, transformaram uma sala de aula num cenário inspirado numa floresta, pintando até o teto para se parecer com o céu.

Ao fim de um ano, os olhos das crianças que estudaram nesse espaço tinham alongado menos do que os das crianças de salas de aula tradicionais. A experiência sugere que ambientes visualmente mais ricos poderão contribuir para proteger a visão.

Há esperança

Para quem já é míope, a condição é permanente, mas a sua progressão pode ser travada. Os óculos e lentes de contacto convencionais corrigem a focagem e permitem ver ao longe, mas não impedem o alongamento do globo ocular.

As lentes especializadas procuram fazer as duas coisas. Um dos exemplos é a MiSight, uma lente de contacto descartável com anéis concêntricos. A zona central corrige a visão ao longe, enquanto as áreas exteriores desfocam deliberadamente parte da imagem na periferia da retina.

Esse “desfoco miópico” parece enviar ao olho um sinal que abranda o crescimento. Num ensaio clínico de três anos, as crianças que utilizaram estas lentes tiveram uma progressão menor do que as que usaram lentes convencionais.

Em 2019, a MiSight tornou-se a primeira lente de contacto autorizada pela Food and Drug Administration dos Estados Unidos para reduzir a progressão da miopia em crianças.

Outra possibilidade é a ortoqueratologia, que utiliza lentes de contacto rígidas durante a noite para alterar temporariamente a forma da córnea. Estas lentes corrigem a visão durante o dia e podem também abrandar a evolução da miopia.

Existem ainda colírios de atropina em baixas concentrações. A atropina é usada em exames oftalmológicos para dilatar a pupila, mas, em doses reduzidas, mostrou capacidade para diminuir o aparecimento e a progressão da miopia.

O mecanismo ainda não é totalmente conhecido. Os investigadores admitem que o medicamento desencadeie uma sequência de sinais na retina. Pode, contudo, provocar efeitos secundários, como visão desfocada e sensibilidade à luz, razão pela qual estão a ser testadas diferentes concentrações.

Uma terceira abordagem é a terapia de luz vermelha de baixa intensidade. O tratamento consiste em projetar sobre a retina luz com um comprimento de onda de 650 nanómetros durante cerca de três minutos, duas vezes por dia.

A técnica foi inicialmente desenvolvida para tratar a ambliopia, mas os investigadores verificaram que também podia abrandar a miopia e, em alguns casos, reduzir ligeiramente o comprimento do olho.

A maioria dos dados disponíveis diz respeito a crianças. Um pequeno ensaio realizado em 2022 com adultos concluiu que um mês de tratamento melhorou a circulação sanguínea no fundo do olho e reduziu ligeiramente o seu comprimento. O resultado não prova que a miopia possa ser revertida em adultos, mas abre uma nova linha de investigação.

As lentes especializadas, a atropina e a terapia de luz vermelha podem reduzir a velocidade de progressão em cerca de metade, segundo os especialistas citados. A eficácia varia entre pessoas e os tratamentos devem ser acompanhados por profissionais de saúde visual.

Apesar das previsões alarmantes, nem todos os investigadores acreditam que metade da população mundial será míope em 2050. Alguns consideram que a estimativa assenta em projeções frágeis e não tem suficientemente em conta as medidas preventivas já adotadas.