Wegovy, Mounjaro, Ozempic. As injeções para a perda de peso têm visto a sua popularidade disparar e, com elas, aumentam os relatos de uma infinidade de efeitos secundários. Mas quais foram já comprovados pela ciência?
Esta semana, uma nova investigação científica sugeriu que os medicamentos da classe GLP-1 usados para perder peso podem causar queda de cabelo. Quais são os outros efeitos colaterais comprovados deste tipo de medicamentos?
Eis o que se diz, quais já foram estudados e aqueles que continuam por comprovar.
Queda de cabelo
A queda de cabelo foi notícia esta semana após uma investigação ter sugerido que pode estar diretamente associada ao uso de medicamentos GLP-1 em adultos com diabetes tipo 2.
Não é a primeira vez que uma possível ligação entre as duas coisas é abordada, com as bulas dos medicamentos Mounjaro e Wegovy a listarem o enfraquecimento capilar como um efeito secundário comum. Os especialistas já tinham pedido que o assunto fosse aprofundado em investigações.
Ainda sem estar comprovado pela ciência, o efeito poderá explicar-se pelo facto de a perda rápida de peso, em si mesma, gerar alterações metabólicas e deficiências nutricionais que levam, entre outras, à perda de cabelo, o que significa que é um efeito da perda de peso e não do uso destes medicamentos.
Vários estudos apontam que esta é uma complicação comum após cirurgias metabólicas e bariátricas, sendo a queda de cabelo um fenómeno documentado também em pessoas que adotam dietas com elevada restrição calórica ou cirurgias com impacto no metabolismo.
Apesar de o estudo desta semana não ter analisado se a perda de cabelo associada a estas injeções é reversível, os investigadores dizem que poderá ser, dado que as formas de alopecia não cicatriciais observadas são frequentemente reversíveis.
“Cara de Ozempic”
Este será talvez o alegado efeito secundário mais badalado nas redes sociais: a mudança drástica na aparência facial após o uso de medicamentos da classe GLP-1. Olhos encovados, rugas, flacidez da pele e envelhecimento do rosto são os efeitos apontados – alterações que, apesar de constarem das bulas, são reconhecidas pelos cirurgiões como outra consequência rápida da perda de peso, tal como a queda de cabelo.
Este é um efeito que não se restringe apenas ao uso destes medicamentos, podendo também ocorrer na sequência de outras intervenções médicas que levem a uma perda de peso significativa e relativamente rápida.
Problemas digestivos
Da mesma forma, não faltam relatos sobre problemas gastrointestinais em pessoas que recorrem à classe medicamentosa GLP-1 para perder peso, tais como náuseas, vómitos, diarreia e obstipação – efeitos reconhecidos e documentados em ensaios clínicos deste tipo de injeções.
Os especialistas dizem que estes efeitos secundários podem estar associados à forma como os medicamentos atuam no organismo, retardando o trânsito intestinal, desacelerando o esvaziamento gástrico e afetando os sinais que o intestino envia para o cérebro.
Perante as fortes evidências científicas destes efeitos secundários, surgem descritos nas bulas dos medicamentos como sendo muito comuns, apesar de os fabricantes garantirem que, normalmente, desaparecem com o passar do tempo.
Problemas oculares e perda de visão
No ano passado, um estudo revelou que pessoas com diabetes que utilizam medicamentos da classe GLP-1 podem enfrentar o dobro do risco de desenvolver problemas oculares, nomeadamente degeneração macular relacionada com a idade.
Além disso, há relatos nos sistemas de notificação de efeitos adversos e em estudos de coorte que sugerem que alguns destes medicamentos têm o potencial de causar um distúrbio oftalmológico conhecido como neuropatia ótica isquémica anterior não arterítica – uma condição que pode provocar a perda de visão súbita e permanente.
As farmacêuticas que produzem estas injeções reconhecem que este é um potencial efeito secundário de alguns medicamentos da classe GLP-1, estando mencionado nas bulas do Wegovy, por exemplo; no entanto, os especialistas ressaltam que se trata de uma ocorrência muito rara.
Gravidez inesperada
Há inúmeros relatos de gravidezes inesperadas entre utilizadoras de GLP-1, pelo que se recomenda às mulheres que recorrem a estes medicamentos que associem o seu uso a métodos contraceptivos eficazes.
Os especialistas apontam como explicações plausíveis, mas ainda não confirmadas cientificamente, o facto de estes medicamentos usados para perder peso interferirem na eficácia da pílula oral ou de aumentarem a fertilidade feminina.
Os estudos sobre este alegado efeito secundário são escassos e inconclusivos, em parte porque a gravidez, ou a intenção de engravidar, é um critério de exclusão nos ensaios clínicos iniciais destes medicamentos. As investigações à possível interferência dos GLP-1 na fertilidade masculina também ainda estão numa fase inicial.
O MHRA, regulador de medicamentos do Reino Unido, recomenda que estes medicamentos não sejam utilizados durante a gravidez nem se está a tentar engravidar – “isto porque não há dados de segurança suficientes para determinar se o uso de um medicamento GLP-1 pode causar danos ao bebé”, indica a entidade reguladora.
As bulas e folhetos informativos destinados aos consumidores destes medicamentos contêm todos o mesmo alerta.
“Pé Ozempic”
Tal como acontece com a “cara de Ozempic”, também há inúmeras referências a uma aparência óssea nos pés de quem utiliza estes medicamentos, com alguns dos seus utilizadores a relatarem também que sentem dor na região. Este é apontado como outro efeito colateral dos GLP-1, apesar de esta informação não constar nas bulas dos medicamentos.
Até agora foram feitos poucos estudos sobre este efeito em particular, mas há quem aponte que poderá ser mais uma consequência da perda rápida de peso, independentemente do método utilizado, por redundar na perda de tecidos moles. A redução da camada de gordura nos pés, indicam podólogos a título de exemplo, pode comprometer o amortecimento dos calcanhares e da planta dos pés, causando dor.
Um estudo de 2017 constatou que a realização de uma cirurgia bariátrica conhecida como gastrectomia vertical está associada à redução do número do calçado um ano após o procedimento.