Foto: Agência Brasil.
Avatar photo

William Bittar

No próximo dia 31 de agosto de 2025, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ completará 80 anos.

Ex-aluno e professor desta Casa, tenho ouvido alguns depoimentos equivocados sobre tal efeméride, manifestados por indivíduos alheios à própria história da Instituição, que preferem repetir informações sem a devida conferência.

Em agosto de 2005, quando a Faculdade completou 60 anos, recebi a honrosa responsabilidade de proferir uma palestra sobre sua História, abrindo a solenidade que ocorreu nas dependências do Museu Nacional de Belas Artes, casa do Curso antes de tornar-se uma faculdade independente. Posteriormente, um texto foi produzido e publicado em revista, além de citado no jornal da UFRJ naquela ocasião.

Em comemoração ao seu octogésimo aniversário, promovi algumas adaptações e atualizações para esta coluna, como homenagem de quem passou mais de quatro décadas no edifício projetado para abrigar a Faculdade Nacional de Arquitetura.

Devido a sucessivas reformas administrativas, a edificação foi fatiada pela Universidade, distribuída entre diversos outros usos e usurpada de sua denominação original. Por alguns anos foi batizado, equivocadamente, de “Prédio da Reitoria”, depois Edifício Jorge Machado Moreira, em homenagem ao arquiteto responsável pelo seu projeto.

Nos primeiros séculos da colonização lusa, o aprendizado de Arquitetura era realizado junto às corporações de ofício, no próprio canteiro de obras, como ocorreu com o mineiro Antônio Francisco Lisboa, depois conhecido como “Aleijadinho”, filho e aprendiz do mestre de obras português Manoel Francisco Lisboa. No Rio de Janeiro, destacou-se o também mineiro Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim, em seus trabalhos de escultura, talha e alguns monumentos, como o chafariz da Praça XV.

 Excepcionalmente alguns profissionais habilitados, muitas vezes em Academias Militares europeias, desenvolveram projetos arquitetônicos ou urbanísticos, como os engenheiros Frias de Mesquita ou Pinto Alpoim.

Somente após a chegada da Família Real ao Brasil, em 1808, foi criada a Academia de Artes e Ofícios, que só começou a funcionar em edifício próprio em 1826, já como Academia Imperial, iniciando-se assim o ensino regular de Arquitetura, integrando a Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios. O responsável pelo curso foi o arquiteto Grandjean de Montigny que veio com a denominada “Missão Francesa”, grupo contratado pelo rei D. João VI, em 1816, autor do novo edifício especialmente projetado e construído para este fim junto à Av. Passos no Centro do Rio, demolido na década de 1930.

Academia Imperial de Belas Artes – Bilhete postal

A partir de 1890, já na República, as diretrizes do curso foram alteradas apartando o ensino de Arquitetura das demais Belas-Artes. No início do século XX, junto às propostas de melhoramentos da nova Capital Federal, o Professor-arquiteto Morales de Los Rios projetou um novo e imponente edifício, inspirado no Louvre, para abrigar a Escola de Belas Artes, construído em posição de destaque na Avenida Central, depois Rio Branco. Na vizinhança imediata foram erguidos o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Supremo Tribunal Federal, extraordinário cenário do Ecletismo, repleto de referências acadêmicas e historicistas.

Antiga Escola Nacional de Belas Artes – Bilhete Postal

Em 1931, após a “Revolução de 1930”, o curso de Arquitetura recebeu algumas modificações em seu currículo através do novo diretor nomeado, o jovem arquiteto Lucio Costa. Após seu contato com a obra de Le Corbusier, Costa decidiu implantar uma definida orientação modernista, contrariando parte do corpo docente, ainda vinculado à modelos conservadores, o que provocou seu afastamento da direção do curso no mesmo ano.

A Reforma de 31, ainda que contestada, provocou alguns conflitos, incluindo uma greve dos estudantes. A força do Diretório Acadêmico promoveu a criação da Escola Nacional de Arquitetura pela Lei 452, de 05 de julho de 1937, também responsável pela organização da Universidade do Brasil. Mesmo agregada à Escola de Belas Artes, o curso conseguiu uma congregação independente, origem da futura faculdade.

Em 1945, após sucessivos movimentos dos alunos de Arquitetura, houve a separação definitiva com a criação da Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA) pelo Decreto nº7918, de 31 de agosto, que acabou sendo transferida para outro edifício, o antigo Hospício Pedro II, então recuperado, localizado na Praia Vermelha durante a gestão do Reitor Professor Pedro Calmon.

Antigo Hospício Pedro II – Acervo BN

Segundo depoimento do Professor Arquiteto Severiano Porto, o primeiro vestibular para ocupar as novas instalações ocorreu em 1952, mas algumas turmas foram transferidas no anos anterior, sob protestos de muitos alunos. Os veteranos permaneceram no edifício da Escola de Belas Artes, na Cinelândia, até a formatura.

Naquela edificação neoclássica da Praia Vermelha, a Faculdade permaneceu entre 1951 e 1961, quando foi transferida para sua sede própria, na nova Cidade Universitária da Ilha do Fundão, projetada exclusivamente para abrigá-la, pelo arquiteto Jorge Machado Moreira, conjunto premiado na Bienal de 1957, jamais totalmente concluído.

Construção da Faculdade Nacional de Arquitetura – Acervo ETU

Com as mudanças impostas pela ditadura militar, a Universidade do Brasil tornou-se Universidade Federal do Rio de Janeiro e a famosa Faculdade Nacional de Arquitetura passou a ser denominada como Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ.

Tais mudanças não ocorreram apenas nos nomes, mas principalmente na nova estrutura da Reforma Universitária, introduzida pela Lei de Diretrizes e Bases de 28 de novembro de 1968, promulgada às portas do Ato Institucional nº 5, responsável por cercear ainda mais as liberdades democráticas.

Encerrava-se um ciclo do curso seriado, em cinco anos, com turmas coesas e definidas, prática reprimida pelo estado de exceção em vigor. Surgia o “sistema de créditos ou inscrição em disciplinas”, copiado de modelos americanos, fortalecendo um ensino mais tecnicista e menos humanista, evitando a prática do livre pensamento e a continuidade das antigas turmas.

Aquele edifício exemplar, projetado com a colaboração dos corpos docente e discente, não mais atendia às novas proposições “didáticas e pedagógicas” e iniciou um processo gradativo de deterioração de suas instalações e fatiamento do conjunto original, abrigando diversas outras repartições, escolas e cursos da Universidade.

Soluções notáveis da concepção original como a ventilação cruzada e uma correta orientação solar, considerando as atividades ali realizadas, foram sucessivamente esquecidas pelos seus novos ocupantes, após seus quase 65 anos de utilização, necessitando de obras urgentes de preservação.

FAU – UFRJ – Acervo Particular

A comemoração de seu octogésimo aniversário no dia 31 de agosto de 2025 celebra a construção de um notável edifício para abrigar seu curso e a presença de profissionais extraordinários que ocuparam suas cadeiras com alunos ou docentes, desde sua filiação à Escola de Belas Artes, como Afonso Eduardo Reidy, Archimedes Memoria, Henrique Mindlin, Lucio Costa, Jorge Moreira, Oscar Niemeyer, Sergio Bernardes, os irmãos Roberto, Wladimir Alves de Souza e, em tempos mais recentes, Adolpho Polillo, Ernani Vasconcelos, Luiz Paulo Conde, Mauro Viegas, Olinio Coelho, Ricardo Menescal, Severiano Porto, Thales Memoria, Ubi Bava, Ulisses Burlamaqui, mestres que já partiram, alguns nomes entre tantos destaques que representam a Instituição. Independentemente de suas convicções ideológicas, tiveram participação ativa e decisiva na consolidação da importância da FAU-UFRJ.

Meus cumprimentos pelo aniversário da Instituição que integrei por 42 anos e por tanto que já representou para Arquitetura do país.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail