
Huthis protestam contra operação multinacional destinada a proteger a navegação no Mar Vermelho.
Tensões com os houthis numa rota que vinha a servir de alternativa ao Estreito de Ormuz aumentam receios de bloqueio e efeitos negativos nos mercados da energia. Nos EUA e na Europa, os consumidores já sentem as consequências nos postos de abastecimento.
Cerca de duas semanas depois de os Estados Unidos e o Irão terem retomado os ataques na região do Golfo Pérsico, o preço do barril de petróleo Brent fechou nos 100 dólares esta quarta-feira. A cotação representa uma subida de quase um terço em relação ao preço registado no mês passado, embora continue abaixo do máximo de 126 dólares atingido em abril, no auge do conflito.
A mais recente subida do preço do combustível fóssil foi impulsionada por um grave aumento das tensões no Mar Vermelho, que poderá dificultar ainda mais as tentativas de exportar petróleo do Golfo através de rotas alternativas a sul, numa altura em que o Estreito de Ormuz permanece fechado.
Os rebeldes houthis, apoiados pelo Irão e sediados no Iémen, entraram no conflito esta quarta-feira, reivindicando a autoria de ataques contra dois petroleiros sauditas e ameaçando provocar novas perturbações no tráfego comercial no Mar Vermelho.
A rota do Mar Vermelho tinha-se tornado uma válvula de escape, permitindo à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos continuar a exportar parte do seu petróleo através de oleodutos ligados a portos situados fora do Golfo.
Na madrugada desta quinta-feira, os Estados Unidos levaram a cabo a 12.ª noite consecutiva de ataques contra o Irão, visando instalações de armazenamento de mísseis e drones, bem como sistemas de defesa aérea que, segundo Washington, Teerão utiliza para atacar navios e países vizinhos do Golfo Pérsico.
O Irão, por seu lado, não dá sinais de que esteja disposto a recuar.
Como podem as tensões no Mar Vermelho afetar os mercados petrolíferos
Os analistas do setor energético consideram que um bloqueio total do Mar Vermelho representaria um duplo golpe para o mercado mundial da energia, depois da crise no Estreito de Ormuz.
Bab el-Mandeb, um estreito situado no extremo sul do Mar Vermelho, é considerado particularmente vulnerável a um eventual encerramento imposto pelos houthis.
Antes dos ataques dos rebeldes, cerca de 2,5 milhões de barris de petróleo saudita passavam diariamente por Bab el-Mandeb, segundo Jorge Leon, vice-presidente sénior e responsável pela análise geopolítica da Rystad Energy.
A rota do Mar Vermelho permitia à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos exportar cerca de 6,8 milhões de barris de petróleo bruto por dia — aproximadamente metade da quantidade que atravessa o Estreito de Ormuz. A Arábia Saudita tem também utilizado oleodutos que atravessam o Egito para exportar a matéria-prima através de um dos portos mediterrânicos daquele país do Norte de África.
Segundo Leon, o mercado petrolífero está “cada vez mais dependente” da rota do Mar Vermelho. O especialista receia uma subida significativa dos preços caso ambas as vias fiquem inacessíveis.
Na terça-feira, ainda antes dos ataques dos houthis, o Goldman Sachs já tinha alertado que os preços do petróleo poderiam disparar e chegar aos 120 dólares por barril até ao quarto trimestre, caso o Estreito de Ormuz permanecesse fechado.
Quando será a subida refletida nos preços pagos pelos consumidores?
Esta quinta-feira, o preço médio da gasolina nos Estados Unidos chegou aos 4,09 dólares, face aos 3,92 dólares registados um mês antes, segundo dados da American Automobile Association.
Questionado sobre a recuperação do preço do petróleo durante um evento realizado na quarta-feira, o Presidente norte-americano, Donald Trump, mostrou-se otimista.
“O preço vai baixar, talvez até para um nível inferior ao que tínhamos no início — mas deem-me apenas algum tempo”, disse Trump.
Também na quarta-feira, o ADAC, maior clube automóvel da Alemanha, informou que o preço do litro de gasolina tinha subido para quase 2,15 euros, mais 33 cêntimos do que o mínimo recente, atingido pouco depois da assinatura do acordo de paz provisório. O preço do gasóleo subiu ainda mais, para perto de 2,18 euros por litro, face aos 1,73 euros registados um mês antes.
Um cenário semelhante começa a desenhar-se a nível mundial, com aumentos significativos no Paquistão e nas Filipinas. Na Índia, os preços mantêm-se, para já, praticamente inalterados, uma vez que as empresas petrolíferas estatais estão a absorver os custos adicionais.
Em Portugal, o preço médio da gasolina simples 95 deverá subir na próxima semana para 2,009 euros por litro, enquanto o gasóleo simples deverá atingir os 2,058 euros por litro.
O que poderá fazer subir ainda mais os preços
Um bloqueio prolongado de dois dos corredores marítimos mais estratégicos do mundo aumentaria a probabilidade de um novo choque no abastecimento mundial de petróleo.
As empresas de transporte marítimo ainda poderiam desviar os navios para sul de África, mas essa alternativa acrescentaria até quatro semanas à viagem e aumentaria os custos de combustível em mais de um milhão de dólares por trajeto. Esse agravamento acabaria por ser repercutido nos preços pagos pelos consumidores e pelas empresas.
Os prémios dos seguros contra riscos de guerra no Mar Vermelho também dispararam desde que surgiu a ameaça dos houthis.
Durante as primeiras semanas da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, Washington e vários outros países libertaram milhões de barris das suas reservas estratégicas para ajudar a travar a subida dos preços.
Com estas reservas de emergência agora significativamente reduzidas, alguns analistas do setor energético alertam que a sua reposição será mais cara aos preços atuais e poderá provocar uma nova valorização do petróleo.
June Goh, analista sénior de petróleo da Sparta Commodities, alertou, numa nota divulgada esta semana, que os Estados Unidos poderão impor restrições às exportações de petróleo bruto ou de produtos refinados, de forma a dar prioridade aos consumidores nacionais.
O país, o maior exportador de petróleo do mundo, aumentou as entregas internacionais durante a guerra, que atingiram os 5,6 milhões de barris por dia em abril, segundo a Administração de Informação Energética dos Estados Unidos.
Entretanto, a China, o maior importador mundial de petróleo, reduziu as compras para valores próximos dos mínimos da última década durante os primeiros meses do conflito, em parte devido à quebra da procura e ao elevado volume das suas reservas.
Com as grandes reservas comerciais a diminuírem gradualmente, os analistas esperam que Pequim aumente as importações durante o segundo semestre do ano, o que poderá exercer ainda mais pressão sobre os preços.