A Almina, empresa portuguesa que explora as minas de Aljustrel, quer investir 250 milhões de euros na exploração de um novo jazigo. O Gavião vai permitir a extração de cobre e prolongar a vida desta mina por 20 anos, de acordo com a informação que consta do estudo de impacte ambiental que foi colocado em consulta pública.

Este não é um investimento isolado e está enquadrado num projeto de 400 milhões de euros — Feeding the Global Energy Transition [“Alimentar a Transição Energética Global” em português] — apresentado em junho pela empresa numa cerimónia que contou com a presença do primeiro-ministro. Este projeto combina desenvolvimento industrial com sustentabilidade energética e foi apoiado por fundos do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) destinados à descarbonização.

Não obstante a Almina destacar o papel da extração mineira na transição energética e na revolução digital, o transporte de minério a partir da mina de Aljustrel vai continuar a ser feito por camião. Isto apesar de existir um ramal ferroviário que em tese permitiria o escoamento da produção de minério através de comboio até aos portos de exportação. É o que acontece na exploração da maior mina portuguesa, Neves Corvo, que fica no concelho vizinho de Castro Verde e cuja produção segue por comboio para o porto de Setúbal.

Ao contrário do ramal que serve a Somincor, o de Aljustrel está desativado há mais de três décadas. Parou em 1993 devido às dificuldades da empresa pública que então explorava a mina — a Pirites Alentejanas. A exploração mineira foi retomada em 2007/8 e desde então os partidos à esquerda — PCP e Bloco — têm reclamado a reativação do ramal. Mas não há planos para reabilitar a ligação ferroviária, apesar do investimento avultado que está anunciado para a mina.

Em resposta ao Observador, a Almina justifica que o “antigo ramal ferroviário sofreu, ao longo dos anos, diversas alterações ao nível do seu corredor, verificando-se atualmente a existência de ocupações e infraestruturas que condicionam significativamente uma eventual reativação.”

A empresa esclarece ainda que está a implementar um conjunto de medidas para descarbonizar a atividade. Uma dessas ações é a “introdução progressiva a partir de 2027 de camiões elétricos em substituição da atual frota a diesel, prevendo-se que esta transição esteja concluída até 2028″. A iniciativa “permitirá uma redução estimada de cerca de 4.200 toneladas de CO2 por ano, contribuindo para a diminuição da pegada carbónica associada a esta atividade.”

Os documentos de dezembro de 2025 submetidos ao estudo de impacte ambiental do projeto Gavião, que entrou em consulta pública, não referem a intenção de recorrer a uma frota elétrica. A quantificação das emissões de CO2 geradas pelo volume de tráfego associado à realização do projeto — que é um dos indicadores exigidos em avaliações de impacte ambiental — é calculada a partir do consumo de gasóleo usado nos equipamentos de exploração da mina consumido no transporte do minério para os portos de Huelva e Setúbal.

Nestas contas são assumidos dois trajetos para as cerca de 85.000 toneladas de concentrado a transportar. No cenário de extração máxima, verifica-se que as emissões anuais totalizam 530 toneladas de CO2e (dióxido de carbono equivalente). No final do período de exploração do complexo mineiro, as emissões totalizarão 7.954 toneladas de CO2e. Os cálculos foram realizados assumindo um fator de emissão de camiões pesados movidos a gasóleo de 566,94 gCO2e/km.

Estima-se que sejam realizadas 623 viagens de camião por ano a partir de Aljustrel, no distrito de Beja, para Setúbal num trajeto de 130 quilómetros, o que perfaz quase 162 mil quilómetros por ano. O número mais do que triplica para Huelva. São cerca de duas mil viagens por ano durante 186 quilómetros, o que totaliza 773.388 quilómetros por ano.

Estado vendeu a investidores internacionais que venderam a empresários portugueses

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As minas de Ajustrel eram exploradas por uma empresa belga quando foram nacionalizadas em 1975, dando origem à empresa pública Pirites Alentejanas. No início dos anos de 1990 foram feitos investimentos numa lavaria industrial e no ramal ferroviário, mas a produção foi suspensa em 1993 devido à queda dos preços do cobre e do zinco.

Em 2008, a empresa canadiana Lundin Mining, então dona da Somincor, comprou por um euro a Pirites Alentejanas. O negócio envolveu um perdão da dívida da Pirites à Somincor. Apesar de já ser conhecida a existência de um jazigo de cobre por explorar — o Gavião — a Lundin desistiu da operação mineira poucos meses depois e vendeu a Pirites Alentejanas aos irmãos Martins, da Martifer. Atualmente, a Almina tem também como acionistas a família Costa Leite da empresa Vicaima, sendo o seu presidente Humberto Costa Leite.

É um contraste com a exploração de Neves Corvo onde quase 100% da produção é escoada através da ferrovia, graças a um ramal de cerca de 30 quilómetros que se liga à linha do Alentejo e que permite chegar ao Porto de Setúbal. As duas empresas mineiras assinaram uma concessão de 10 anos para usarem em exclusivo o terminal portuário de Praias do Sado.

Num projeto de resolução apresentado em março de 2025 a recomendar a reabertura do ramal de transporte de minério de Aljustrel, o Bloco de Esquerda situa em 1993 o início do processo de degradação desta infraestrutura. Alerta ainda para as consequências do recurso exclusivo ao transporte rodoviário pesado nas estradas da região — nomeadamente EN2, de Aljustrel a Castro Verde, N123 de Castro Verde a Mértola, N122/IC 27 de Mértola ao nó da A22 em Castro Marim, A22 e ponte internacional de VRSA/Castro Marim e Ayamonte.

“Estima-se que saiam diariamente da mina de Aljustrel cerca de 30 camiões carregados de concentrado de cobre, zinco e chumbo, com um peso de 45 toneladas cada um. Esta escolha tem levado à sucessiva degradação das estradas e pontes neste percurso, não dimensionadas inicialmente para suportar este tipo de peso e tráfego”.