Pedro Sarmento Costa / LUSA

Energia libertada pelas chamas é cada vez maior; há dois eventuais travões. Portugal continental está em perigo máximo ou muito elevado de incêndio, com temperaturas a atingirem os 40ºC. Relatório aponta três grandes causas dos incêndios no país.

O investigador Domingos Xavier Viegas alertou este domingo que os incêndios de sexta geração, como os que estão a afetar Espanha e França e têm obrigado a evacuar várias cidades, serão cada vez mais frequentes, devido às alterações climáticas.

Em declarações à agência Lusa, o especialista em incêndios florestais disse que a designação de sexta geração se deve “à energia que é libertada” pelas chamas, que é cada vez maior.

“Os incêndios cada vez estão a libertar mais energia. E quando os incêndios libertam mais do que 10 megawatt por metro já não há capacidade de os suprimir por meio de um ataque direto”, explicou.

Segundo o professor emérito da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, nos últimos anos têm-se registado “incêndios que, em alguma parte, na frente, chegaram a ter 20, 30, 40 e até 60 megawatt”.

Quando a energia libertada é de 60 ou mais megawatts por metro, o que “tem sido observado sobretudo nos últimos anos”, são chamados de incêndios de sexta geração.

“Há períodos do incêndio em que a energia libertada é muito grande. É o que certamente deve estar a acontecer nestes incêndios em França e no centro de Espanha, em que as autoridades dizem que não é possível controlá-los”, afirmou Xavier Viegas.

Incêndio gera o seu próprio vento: aconteceu em Portugal, em 2017

Na sua opinião, também os trágicos incêndios ocorridos em Portugal em 2017 (em junho e em outubro) podem ser classificados de sexta geração porque “tiveram energias na frente de fogo dessa ordem de grandeza”.

O investigador referiu que, neste tipo de incêndio, “são criadas condições que modificam o comportamento do fogo”, ou seja, “mesmo que não haja vento, o incêndio gera o seu próprio vento”, alterando o comportamento e tornando-o “bastante difícil de prever e de controlar”.

Estes incêndios só podem ser combatidos “eventualmente na cauda e nos flancos”, se houver condições para tal, “mas na frente principal não há condições, nem sequer com meios aéreos pesados se conseguem parar”, acrescentou.

Dois eventuais travões

Xavier Viegas disse que, “quanto muito, consegue-se criando zonas de descontinuidade, com máquinas de rasto, criando uma barreira, admitindo que o fogo não faz projeções e não ultrapassa essas faixas de contenção”.

Outra forma de parar estes incêndios poderá ser o contrafogo, mas se houver vento, como tem acontecido com frequência, “também é extremamente arriscado e não é recomendável”.

“Por isso é que ouvimos dizer que as autoridades estão a dar prioridade a proteger e retirar as pessoas, para salvaguardar a vida delas”, esclareceu.

Três grandes causas dos incêndios em Portugal

Investigadores da Universidade de Coimbra já alertaram para o ritmo das alterações climáticas poder ultrapassar os esforços para adaptar a paisagem florestal e preparar a população contra os fogos, pedindo mais investimento na gestão do risco de incêndios.

O alerta foi deixado no âmbito das conclusões do relatório “Incêndios florestais em Portugal: Mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar”, divulgado no final de junho pela organização ambientalista internacional Greenpeace e elaborado por uma equipa de especialistas, entre os quais Domingos Xavier Viegas.

O relatório aponta três grandes causas para Portugal ter sido nas últimas décadas um dos países europeus com mais área ardida: as condições climáticas, a organização da paisagem e a insuficiente gestão florestal.

Portugal continental em perigo máximo ou muito elevado

Todos os distritos do norte e centro de Portugal continental e Faro apresentam esta segunda-feira um risco máximo de incêndio, estando o resto do território com perigo muito elevado.

De acordo com o cálculo do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) dos 278 concelhos de Portugal continental, apenas cerca de 40 junto ao litoral enfrentam um risco elevado ou moderado, nomeadamente nos distritos de Braga, Porto, Aveiro, Leiria, Lisboa, Setúbal e Faro.

O perigo de incêndio deverá manter-se alto ao longo da semana, de acordo com a previsão do IPMA.

Todos os distritos, com exceção de Faro, estão hoje e até terça-feira com aviso amarelo devido ao calor, com as temperaturas máximas a chegarem aos 40 graus celsius em Santarém e Évora, enquanto em Lisboa vai chegar aos 37 graus e o Porto 31 graus.

O aviso amarelo, o menos grave, é emitido quando há uma situação de risco para determinadas atividades dependentes da situação meteorológica.

O IPMA prevê para esta segunda-feira pequena subida da temperatura mínima, em especial na região Norte e interior Centro e subida da temperatura máxima, que será acentuada no litoral Norte e Centro.