António Bumba, de 66 anos, passou metade da vida a construir o seu negócio em Luanda. No complexo comercial que ergueu ao longo de 30 anos funcionavam bares, um restaurante, uma hospedaria, um salão de festas e uma pequena loja.

Tudo mudou no final de julho de 2025, quando os tumultos que eclodiram na capital angolana após uma greve de taxistas contra o aumento dos combustíveis provocaram três dias de violência, pilhagens e destruição.

Um ano depois, o espaço continua em ruínas.

Conforme vê, a estrutura está desde o primeiro dia até hoje. As coisas permanecem na mesma“, afirmou à Lusa.

“Saí de empresário a mendigo”

Sem conseguir reconstruir o empreendimento e sem receber os apoios que esperava, António Bumba diz que a sua vida mudou radicalmente.

Saí de empresário a mendigo. É um projeto que estava a fazer há 30 anos e, no ano da sua destruição, estava a completar o projeto e começava já a funcionar em pleno“, lamentou.

O empresário conta que entregou toda a documentação exigida às autoridades, contactou instituições bancárias e a Procuradoria-Geral da República, mas garante que continua sem qualquer resposta.

Completamos a documentação, em tempo recorde como estava previsto num período de 30 dias e de lá para cá, um ano depois, não temos nenhuma resposta“, disse.

Também o pedido de audiência com o governador provincial ficou sem resposta.

Sentimo-nos abandonados (…) não temos ninguém nem para trocar uma impressão sobre este problema“, acrescentou.

Doze trabalhadores ficaram sem emprego

A destruição do empreendimento deixou igualmente 12 funcionários desempregados, situação que se mantém um ano depois.

António Bumba afirma ainda que o impacto financeiro e emocional lhe provocou problemas de saúde, incluindo hipertensão, numa altura em que esperava que o negócio garantisse a sua estabilidade na reforma.

Perante a falta de apoios, lançou um apelo ao Presidente angolano, João Lourenço, para que sejam cumpridas as promessas de ajuda aos empresários afetados pelos distúrbios.

Um bairro que ainda recorda os dias de violência

A zona do Calemba 2 foi uma das mais atingidas pelos tumultos. Apesar de alguns estabelecimentos já terem reaberto, muitos moradores continuam a recordar os dias de violência.

Maria Paulo, proprietária de uma pequena mercearia, contou que também perdeu mercadoria durante os saques.

Fechamos as portas e tivemos de fugir porque alguns estavam a vir com catanas“, recordou.

José Laurindo Cazengue, mototaxista, descreveu aqueles dias como um cenário de guerra.

Cheguei à minha paragem para exercer o meu serviço e começou logo a confusão. Tivemos de nos meter em fuga. Aqui foi uma guerra“, afirmou.

Governo anunciou apoios após os tumultos

Na sequência dos distúrbios, o Governo angolano anunciou uma linha de financiamento de 50 mil milhões de kwanzas destinada às empresas afetadas pelos atos de vandalismo.

Os confrontos, ocorridos entre 28 e 30 de julho de 2025, provocaram 30 mortos, 277 feridos, mais de 1.500 detenções e a destruição de 118 estabelecimentos comerciais em várias províncias do país.