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Um estudo norte-americano, apresentado na Obesity Week este ano, mostrou que mais da metade dos pacientes recupera parte do peso perdido em até um ano após interromper o uso de “canetas emagrecedoras” como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.

O dado ilustra, assim, um dos maiores desafios no tratamento da obesidade: preservar a perda de peso após a suspensão dos medicamentos e evitar o chamado efeito rebote.

Grande preocupação entre quem faz uso das canetas, esse desfecho é, de fato, frequente, mas pode ser minimizado com uma pausa planejada e mudanças sustentáveis no estilo de vida.

Antes de tudo, porém, é preciso entender por que o peso costuma voltar. Afinal, apesar de a expressão efeito rebote ter se popularizado, endocrinologistas consideram que ela não descreve corretamente o que acontece com o organismo após parar o tratamento. Entenda a seguir.

Por que o peso volta?

A obesidade é uma doença crônica, com alto índice de recidiva, que depende de fatores genéticos, biológicos, hormonais, comportamentais e sociais.

E é justamente sobre parte desses mecanismos que agem medicamentos como a tirzepatida e a semaglutida: eles aumentam saciedade, reduzem a fome e regulam hormônios.

Quando o tratamento é interrompido, esses efeitos se vão e os fatores que sustentam a obesidade voltam a atuar. Aliás, há uma espécie de esforço do corpo para retornar ao seu status quo.

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“O efeito farmacológico desaparece progressivamente e o corpo passa a apresentar respostas compensatórias à perda de peso”, explica Marcela Chambarelli, endocrinologista do Hospital Samaritano Barra, da Rede Américas.

É que, quando passamos por uma grande perda de volume, o corpo entende a situação como uma possível ameaça à sobrevivência. 

Então, para tentar “proteger” nossas reservas, o organismo faz, justamente, o oposto da ação dos remédios: aumenta a fome e reduz a sensação de saciedade, na tentativa de repor o que foi perdido. Além disso, ele diminui o gasto calórico (ou seja, você queima menos calorias).

É, assim, então, que o peso volta: toda vez que uma pessoa é submetida a um tratamento para o controle da obesidade ou do sobrepeso, depois há uma ação do corpo para retomar ao seu estado anterior.

Então, existe efeito rebote?

Para especialistas, falar em “efeito rebote” pode transmitir a ideia de que o medicamento provocou uma piora anormal. “Assim, o termo que geralmente uso no consultório é recorrência da obesidade após a interrupção do tratamento”, diz Chambarelli. E não é bem assim. “Esses eventos querem dizer apenas que o corpo estava tratando mecanismos biológicos que voltam a se manifestar quando a terapia é retirada”, completa. 

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Todo esse processo complexo envolvendo a obesidade explica, exatamente, o porquê do termo “efeito rebote” não ser correto.

“A partir do momento em que entendemos que se trata de uma doença crônica, compreendemos que não existe efeito rebote. Existe a interrupção de um tratamento que, em teoria, deveria ser crônico“, explica Chambarelli.

Ora, quando alguém suspende um anti-hipertensivo e a pressão volta a subir, ninguém fala em “efeito rebote da hipertensão”, mas em uma doença que deixou de ser tratada.

Dá para parar o remédio sem engordar? Como?

“Sem dúvidas, é possível, mas não é o que se observa com frequência”, afirma Chambarelli.

Por isso, muitos médicos defendem que a medicação nunca deve ser interrompida.

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É o caso de Fábio Moura, consultor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia (Sbem). “Quando você para esse remédio, há um reganho de peso. Então, hoje se discute se deve-se tentar diminuir as doses ou aumentar o intervalo entre elas, mas há uma certeza: parar o remédio é igual à reganhar peso“, diz o médico.

Ainda assim, para quem decide deixar os medicamentos, alguns fatores pesam a favor da estabilização da balança. Segundo Chambarelli, o principal é a existência de um período de transição antes de parar a medicação.

Nesse espaço de tempo, deve-se ir ajustando a dose, mudando a alimentação de modo sustentável a longo prazo e criando uma rotina de atividade física regular, com realização de exercícios de força e aeróbicos.

Cuidar do sono e do estresse, tratar transtornos alimentares, se houver, pesar-se sem obsessão e manter consultas marcadas também são indispensáveis após interromper a medicação.

Vale dizer que aspectos como histórico de obesidade de longa data, muitas tentativas anteriores de emagrecer, genética e menopausa são fatores de risco para reganho de peso.

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Outro ponto que pode favorecer o aumento de alguns quilos é a perda de massa muscular durante o uso dos medicamentos, causada pela baixa ingestão de proteínas e outros nutrientes.

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Apesar dessas vantagens, Chambarelli pondera: “há muita variabilidade individual. Hoje não conseguimos prever quem vai conseguir manter o peso sem o remédio”.

Fato é que o tratamento para a obesidade deve ser para toda a vida, ainda que as canetas emagrecedoras deixem de ser usadas.

“Não significa que todos precisarão utilizar a mesma medicação, na mesma dose, para sempre, mas é necessária vigilância a vida inteira”, diz a médica.

Agora, confira outras dúvidas sobre a interrupção das canetas emagrecedoras:

A fome “volta mais forte”?

Ainda faltam estudos que confirmem, de forma objetiva, se o apetite chega a ultrapassar de forma sustentada o nível de antes do tratamento.

No entanto, se sabe é que, nessa história de ativar mecanismos de sobrevivência após a perda de gorduras, o corpo reduz os níveis de leptina, um hormônio relacionado à saciedade.

Com isso, alguns pacientes relatam a sensação de que o apetite parece mais intenso do que era antes.

“Isso não significa, necessariamente, que a medicação tenha provocado uma hiperfagia permanente. É, provavelmente, o resultado fisiológico da perda de peso associada à interrupção do tratamento”, explica Chambarelli.

Reganho é mais rápido do que após dietas?

Dados publicados na revista científica britânica British Medical Journal sugerem que o retorno dos quilos após a suspensão das canetas pode vir mais rápido do que após o abandono de dietas e programas de exercício.

Na pesquisa, eles calcularam que pessoas com sobrepeso podem perder cerca de um quinto do peso corporal com os medicamentos e, ao parar, recuperar, em média 0,8 kg por mês. 

Já quem opta apenas por dieta, segundo a análise, tende a perder menos peso, mas recuperar cerca de 0,1 kg por mês.

A comparação, porém, exige cautela.

Primeiro, porque as medicações produzem perdas bem maiores do que a maioria dos programas de dieta e exercício, e parte do reganho mais acelerado pode estar ligada justamente a essa magnitude.

E, como vimos, quanto maior a perda, maior tende a ser a resposta biológica de defesa do organismo (para repor o que perdeu). Já nos programas comportamentais, a perda é menor e mais gradual.

Vale, ainda, dizer que hábitos como planejamento alimentar e rotina de atividade física costumam persistir depois do fim desse tipo de estratégia, o que deixa a recuperação do peso mais lenta.

Os dados, portanto, só reforçam o ponto defendido pelos endocrinologistas: o tratamento deve ser contínuo e multifatorial.

“Os medicamentos para obesidade devem ser encarados como tratamento de uma doença crônica e não como uma intervenção estética com data obrigatória para terminar”, crava Chambarelli.

A crise do Mounjaro falsificado