Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, a Austrália expulsou um embaixador estrangeiro. Por outro lado: “Se é australiano e está no Irão, saia agora”

Austrália expulsa embaixador iraniano após agência de espionagem descobrir que o Irão dirigiu ataques antissemitas

por Hilary Whiteman, CNN

 

A Austrália vai expulsar o embaixador iraniano em Camberra depois de os serviços de informações do país terem concluído que o Irão esteve por trás de pelo menos dois ataques antissemitas em território australiano.

A Organização Australiana de Informações de Segurança (ASIO) ligou os Guardas da Revolução Islâmica do Irão (IRGC) a dois ataques incendiários ocorridos no ano passado, que tiveram como alvo um restaurante de propriedade judaica em Sydney e a Sinagoga Adass Israel em Melbourne, afirmou o primeiro-ministro, Anthony Albanese, numa conferência de imprensa.

“Tratou-se de atos extraordinários e perigosos de agressão, orquestrados por uma nação estrangeira em solo australiano”, disse Albanese.

O embaixador iraniano, Ahmad Sadeghi, e três outros membros do pessoal diplomático receberam sete dias para deixar o país, acrescentou Albanese. É a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que a Austrália expulsa um embaixador estrangeiro. A Austrália suspendeu igualmente as operações da sua embaixada no Irão por razões de segurança dos seus funcionários consulares, tendo apelado aos australianos no Irão para que abandonem o país.

Albanese disse ainda que os IRGC – uma força de elite das forças armadas iranianas, considerada fundamental para reprimir a dissidência interna e projetar o poder do Irão no estrangeiro através do financiamento de milícias em todo o Médio Oriente – seriam também inscritos na lista de organizações terroristas. Os Estados Unidos tomaram a mesma decisão em 2019.


A embaixada iraniana em Camberra, aqui fotografada esta terça-feira foto Hilary Wardhaugh/AFP/Getty Images

“Já disse muitas vezes que os australianos querem duas coisas: querem que as mortes no Médio Oriente acabem e não querem que o conflito no Médio Oriente seja trazido para aqui. O Irão procurou fazer precisamente isso”, acrescentou Albanese. “Procuraram prejudicar e aterrorizar os judeus australianos e semear o ódio e a divisão na nossa comunidade.”

O diretor-geral da ASIO, Mike Burgess, disse que os ataques antissemitas na Austrália foram dirigidos pelos IRGC e executados através de “um emaranhado em camadas” de intermediários.

“Estes atos foram dirigidos pelos IRGC através de uma série de facilitadores no estrangeiro que passaram a coordenadores e acabaram por entregar tarefas a australianos”, afirmou.

Os dois ataques ligados ao Irão pela ASIO incluem um ataque incendiário em outubro de 2024 contra o restaurante Lewis’ Continental Kitchen, perto da Praia de Bondi, em Sydney, que servia há mais de 50 anos comida kosher aos habitantes da cidade.

O segundo ataque foi contra a Sinagoga Adass Israel, em Melbourne, em dezembro passado, quando dois agressores mascarados foram vistos a lançar líquido no interior do edifício antes de lhe pegar fogo.

Investigadores antiterrorismo no estado de Vitória acusaram dois homens pelo ataque à sinagoga Adass. A detenção mais recente ocorreu na semana passada. A polícia alega que três indivíduos arrombaram o local de culto e incendiaram-no deliberadamente.

Os ataques antissemitas na Austrália aumentaram desde o início da retaliação israelita ao ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023.


Um visitante lê mensagens afixadas numa cerca onde foram deixadas flores na Sinagoga Adass Israel, no subúrbio de Ripponlea, em Melbourne foto Martin Keep/AFP/Getty Images

“A ASIO continua a investigar um possível envolvimento iraniano em vários outros ataques. Mas quero sublinhar que não acreditamos que o regime seja responsável por todos os atos de antissemitismo na Austrália”, disse Burgess.

O ministro da Administração Interna, Tony Burke, classificou as ações do Irão como um “ataque extraordinário” que atingiu “um novo e totalmente inaceitável patamar”.

“A Austrália foi atacada e a Austrália foi prejudicada”, reiterou Burke.

A ministra dos Negócios Estrangeiros, Penny Wong, apelou aos australianos para abandonarem o Irão, uma vez que a capacidade do governo para os proteger seria “extremamente limitada”.

“Peço a todos os australianos que possam estar a considerar viajar para o Irão que não o façam. A nossa mensagem é: se é australiano e está no Irão, saia agora, se for seguro fazê-lo”, afirmou.

Embora o governo iraniano ainda não tenha feito qualquer comentário oficial, os meios de comunicação iranianos apressaram-se a rejeitar as alegações de Camberra sobre o envolvimento do país nos ataques. A agência noticiosa Fars, próxima do Estado, afirmou que a Austrália tinha feito “alegações infundadas”, enquanto a agência semioficial Tasnim disse que o embaixador iraniano estava a ser expulso sob “falsos pretextos”.

A embaixada do Irão em Camberra não respondeu de imediato ao pedido de comentário da CNN.