Em agosto de 2012, os dois debatiam abertamente a frequência e a forma como mantinham relações sexuais. “Eu entendo que precisas de novidade, então vou usar melhor as minhas fantasias para fazer algo de que tu/nós possamos gostar, se houver alguma coisa que gostasses de experimentar”, escreveu Karyna Shuliak. A jovem manifestava também dúvidas sobre as ligações que Jeffrey Epstein mantinha com outras mulheres, admitindo que gostava de “entender” o que levava o magnata a precisar de “tanta novidade”.
De qualquer forma, apesar de a incomodar e sentir alguns ciúmes, Shuliak nunca se opôs às práticas de Jeffrey Epstein para outras mulheres. A bielorrussa estaria consciente da dimensão dos segredos incómodos que o magnata escondia. Porém, preferia que ele lhos escondesse: “Se não é pedir muito, por favor desfruta, mas mantém isso longe de mim. Eu vou ficar contigo, não importa o que aconteça, desde que estejas feliz. Amo-te. Estou muito grata por tudo o que fizeste por mim. Desfruta da ilha.”
Esta conveniência deu os seus frutos. Em 2013, o visto de estudante da bielorrussa já tinha expirado e era necessário arranjar uma solução, correndo o risco de ser deportada para o seu país de origem — havendo uma data já estipulada para ser ouvida pelos serviços de imigração. O casamento com uma assistente do magnata foi o atalho que Jeffrey Epstein encontrou para facilitar o processo. E resultou: as autoridades deixaram cair a possível deportação de Karyna Shuliak, que obteve, meses mais tarde, o green card, passando a ser residente legal nos EUA.
Certificado do casamento entre a assistente de Epstein e Karyna Shuliak
Apesar disso, e de se manter muito próxima de Jeffrey Epstein, Karyna Shuliak simulava ter uma vida ao lado da assistente — cujo advogado, em declarações ao New York Times, não confirmou nem negou a história, limitando-se a dizer: “A ninguém era permitido negar ou desobedecer a Jeffrey Epstein.” As duas mulheres partilhavam um apartamento perto de Central Park, mantinham uma conta bancária conjunta no Deutsche Bank e viajavam frequentemente juntas para destinos como o Reino Unido ou o Japão.
O casamento durou o tempo estritamente necessário. Em 2018, a bielorrussa que chegara aos EUA aos 20 anos obteve a cidadania norte-americana. No ano seguinte, divorciou-se — afinal de contas, já não era preciso fingir. De qualquer forma, Karyna Shuliak destacou-se entre todas as mulheres com quem Jeffrey Epstein se relacionou: parece ter encontrado o seu lugar ao lado do magnata, que passou a confiar nela quase de olhos fechados.
Foto do casamento entre Karyna Shuliak e a assistente de Jeffrey Epstein
Nos últimos anos da vida de Jeffrey Epstein, Karyna Shuliak deixara de ser apenas mais uma jovem no círculo do magnata e da sua cúmplice, Ghislaine Maxwell. A bielorrussa assumiu o papel de namorada do empresário, mantendo com ele uma relação aparentemente estável: vivia na sua mansão em Nova Iorque e acompanhava-o nas suas viagens. Os dois até tinham um gato — chamado Blueberry.
Enquanto isso, a bielorrussa não desistiu do seu sonho de se tornar dentista. Não terá exercido a profissão até à morte de Jeffrey Epstein. Em vez disso, Karyna Shuliak organizava a vida e os negócios do magnata. Dava ordens aos motoristas, era responsável por gerir a mansão — incluindo as equipas de limpeza — e planeava as viagens. Embora o seu nome surja em vários documentos e trocas de e-mails do caso, a mulher nunca foi acusada de qualquer crime nem indiciada por envolvimento nas atividades ilícitas da rede sexual do caso Epstein.
Em meados de junho de 2019, os dois viajaram até Paris, cidade onde o magnata possuía um apartamento — cujo mordomo era um brasileiro casado com uma mulher de nacionalidade portuguesa. A 6 de julho desse ano, Jeffrey Epstein aterrou nos Estados Unidos, acabando por ser detido no aeroporto em Nova Jérsia, após ter sido aberto um inquérito em redor da sua rede de tráfico sexual. Karyna Shuliak ficou na Europa, mas viajou pouco depois para Nova Iorque para o apoiar — sem saber que seriam as últimas semanas de vida do parceiro.
Foi a sua derradeira chamada. Na noite de 9 de agosto de 2019, Jeffrey Epstein falou ao telefone com a jovem bielorrussa a partir da prisão. Disse-lhe que o processo judicial iria ser longo, aconselhou-a a procurar outro local para ficar e pediu-lhe que fosse “forte”. No dia seguinte, a 10 de agosto, o empresário foi encontrado morto na sua cela. Ter-se-á suicidado.
Antes de morrer, Jeffrey Epstein alterou o seu testamento. Grande parte da sua fortuna de 600 milhões de dólares (aproximadamente 526 milhões de euros) deveria ficar para Karyna Shuliak, o que prova a intensidade da relação. A mulher bielorrussa devia ficar com aproximadamente 10 milhões de dólares (cerca de 8,8 milhões de euros) depois dos pagamentos às vítimas e a outros herdeiros. Além disso, devia herdar um grande e caro anel de diamantes que lhe foi oferecido pelo magnata — que provaria que, supostamente, iam casar num futuro próximo.
Tendo em conta os problemas judiciais, não é claro que a mulher bielorrussa receba alguma verba. Neste sentido, Karyna Shuliak foi capaz de refazer a sua vida, na sequência da morte do empresário. O velho sonho de ser dentista voltou e, através das suas redes de contactos, a mulher tirou uma pós-graduação na Universidade Columbia, que lhe permitiu obter uma licença para exercer a profissão no estado de Nova Iorque.