Pogacar na Vuelta? É a pergunta que mais ecoa no mundo do ciclismo nos últimos dias. Ao longo das últimas semanas, o melhor ciclista da atualidade esteve em destaque em França, vencendo cinco etapas e a geral da Volta a França, registo que lhe permitiu entrar para o lote dos magníficos que venceram a principal prova do planeta em cinco ocasiões. Nesse lote figuram Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault, Miguel Induráin e, desde domingo, Tadej Pogacar. Contudo, como se o feito que não se via há 31 anos (descontando, naturalmente, os resultados anulados a Lance Armstrong por doping) não bastasse, o foco do esloveno já está no próximo objetivo, que pode ser a presença na Volta a Espanha, dentro de 25 dias. De recordar que foi na Vuelta que Pogacar se deu a conhecer ao mundo, em 2019, ano em que ganhou três etapas, a classificação da juventude e terminou em terceiro na geral, atrás de Primoz Roglic e Alejandro Valverde.
A possível notícia ganhou eco ainda durante o Tour, quando o Príncipe do Mónaco, Alberto II, falou publicamente sobre a presença de Pogacar na prova espanhola, que vai partir de território monegasco, onde o esloveno vive com a namorada Urska Zigart. “Tadej Pogacar disse que estará na partida. Veremos”. Questionado sobre as declarações do Príncipe Alberto II, Pogacar respondeu com um sorriso: “Se o Príncipe disse, há uma grande possibilidade”. Como não podia deixar de ser, a questão voltou a ser colocada ao campeão do mundo no domingo, já depois da sua quinta conquista.
“Se a Vuelta começasse amanhã, não iria. Daqui a umas semanas ainda não decidi. Esta semana vou estar em casa, tenho alguns compromissos e virão alguns ciclistas [ao Pogi Challenge, realizado na Komenda, a sua terra]. Também vou ver a Urska na Volta a França feminina”, referiu em conferência de imprensa. Assim, na pior das hipóteses, a decisão será tomada dentro de duas semanas, dado que o Tour acaba no dia 9 de agosto.
Contudo, há quem dê como garantida a presença de Tadej Pogacar na Vuelta, que arranca a 22 de agosto no Mónaco. Segundo o Eurosport Espanha, “o esloveno está muito perto de confirmar o seu regresso”, dado que “já tomou a decisão de alinhar à partida, faltando apenas a confirmação oficial”. A mesma fonte acrescenta que a Vuelta consta no calendário de Pogacar “há meses”. Na mesma toada apresenta-se a edição desta terça-feira do L’Équipe, que coloca o esloveno na sua capa, mesmo depois de Zinédine Zidane ter sido apresentado como novo selecionador francês. O jornal desportivo ressalva que os próximos dias vão ser fundamentais e podem fazer com que Pogacar mude de ideias, “dependendo do seu estado de recuperação e da sua motivação”, embora o esloveno acredite que estará pronto para a Vuelta.
????️ La une du journal L’Équipe du mardi 28 juillet 2026
Pour lire votre édition➡️ https://t.co/CstFKEw15h pic.twitter.com/ChhfKAugvY— L’Équipe (@lequipe) July 28, 2026
Nesse sentido, a UAE Team Emirates-XRG terá tentado demovê-lo da ideia nos últimos dias, mas a decisão pertence na totalidade ao ciclista, diz a mesma fonte. Ao início da tarde desta terça-feira, a organização da Vuelta decidiu adensar ainda mais o mistério, publicando um vídeo com uma fotografia de Pogacar em 2019 e um momento icónico de Luis Enrique, treinador do PSG, em que este diz: “Pode ser sim, pode ser que não. Bravo”. Na legenda lê-se ainda: “O verão está interessante…”.
Summer is getting interesting… ????????
El verano está interesante… ????????#lavuelta26 pic.twitter.com/eMB0kW8LDr
— La Vuelta (@lavuelta) July 28, 2026
O L’Équipe dá ainda conta dos objetivos de Tadej Pogacar para a parte final da temporada, com a Vuelta a servir de rampa de lançamento para o que se segue: Campeonatos do Mundo em Montreal, em que vai defender o título de fundo que é seu desde 2024 (27 de setembro); e a Volta à Lombardia, onde procura a sexta vitória seguida (10 de outubro). Com o fim da Vuelta agendado para 13 de setembro, em Granada – a prova volta-se para a região sul depois dos incidentes no ano passado –, o esloveno terá duas semanas para preparar a prova de fundo dos Mundiais, que está marcada para 27 de setembro, prevendo-se que não repita a presença no contrarrelógio. Já o último Monumento do ano acontece, de novo, duas semanas depois. Pelo meio, a 4 de outubro, realiza-se a prova de fundo dos Campeonatos da Europa, título que também pertence a Pogacar e que, em 2026, tem um ingrediente especial: realizam-se na Eslovénia. No entanto, ainda não é certo que esteja presente.
A presença de Tadej Pogacar está mergulhada num enorme simbolismo, já que o esloveno é, naturalmente, o grande favorito à vitória. Caso se concretize essa expetativa, o esloveno vencerá pela primeira vez a corrida espanhola e fechará com sucesso a trilogia de vitórias no Giro, no Tour e na Vuelta, algo que só oito nomes conseguiram: Jacques Anquetil, Felice Gimondi, Eddy Merckx, Bernard Hinault, Alberto Contador, Vincenzo Nibali, Chris Froome e, mais recentemente, Jonas Vingegaard, que venceu a última corsa rosa e completou o feito primeiro que o grande rival. No feminino, Annemiek van Vleuten e Demi Vollering, igualmente com a vitória no Giro deste ano, repetiram a proeza. No capítulo dos “ses”, esta pode ser a sétima Grande Volta de Pogacar aos 27 anos – o final em Granada é oito dias antes do seu aniversário —, o que fará com que alcance Miguel Induráin, Fausto Coppi, Chris Froome e Alberto Contador (perdeu duas das suas nove devido ao doping). Só Anquetil (oito), Hinault (dez) e Merckx (11) permanecem acima.
Quem parece perder mais com a presença de Tadej Pogacar na Vuelta é João Almeida. Mas será bem assim? Recuando no tempo, o português partiu para 2026 a viver o melhor momento da sua carreira, que culminou no segundo lugar na última corrida espanhola, atrás de Jonas Vingegaard. Com uma ligeira afinação no calendário de início de temporada, o português voltou a arrancar, terminando a Volta à Comunidade Valenciana em segundo, atrás de Remco Evenepoel, e a Volta ao Algarve no terceiro posto, tendo sido batido apenas por Juan Ayuso e Paul Seixas. Nessas duas provas de cinco dias terminou no pódio em três etapas e ficou, respetivamente, a 31 e a 59 segundos do vencedor. Contudo, tudo mudou a partir daí. O Bota Lume contraiu um vírus durante a sua presença no sul do país e nunca mais se encontrou até então, tendo sido obrigado a falhar o Paris-Nice e a Volta a Itália, voltando apenas em junho, já depois de ter “desiludido” na Volta à Catalunha, prova a que chegou praticamente sem treinar.
“Vimos coisas estranhas nas análises ao sangue. Não era algo normal e, por isso, tivemos de perceber exatamente o que se estava a passar. Durante alguns dias senti-me bastante abaixo do normal. Não conseguia produzir os números habituais e percebia que algo não estava bem. Felizmente conseguimos identificar o problema e seguir o tratamento adequado. O mais importante era voltar a sentir-me bem. Agora sinto que estou no caminho certo e espero regressar ao meu melhor nível o mais rapidamente possível”, explicou o ciclista de A dos Francos no início de junho, durante o Tour Auvergne-Rhône-Alpes, o antigo Critérium do Dauphiné. Foi na prova de preparação para a Volta a França que Almeida voltou a ganhar ritmo, abandonando a competição antes da sétima etapa. A prestação estava longe de ser positiva, já que o português terminara o sexto dia no 126.º e antepenúltimo lugar, destacando-se o contrarrelógio por equipas, onde trabalhou até aos quilómetros finais e contribuiu para o novo lugar de Isaac del Toro.
O regresso à competição do Bota Lume está marcado para a próxima semana, sabendo-se que vai estar na Volta à Polónia, prova em que se estreou a vencer no World Tour em 2021, tendo ganhado duas etapas e a geral. Em 2026 a corrida polaca decorre entre 3 e 9 de agosto. Antes, a mítica clássica de San Sebastián também surge no seu calendário, mas não é garantido que alinhe à partida, dado que a prova acontece no sábado, dois dias antes do início da Volta à Polónia. A partir daí restam duas semanas para preparar a Vuelta, prova na qual deverá ser acompanhado por Marc Soler, Ivo Oliveira, Domen Novak e… Tadej Pogacar.
É certo que, com a presença do esloveno, o português passa de líder a principal escudeiro, papel que já teve na Volta a França, mas essa mudança pode ser positiva para Almeida lidar com a pressão numa altura em que continua com um grande ponto de interrogação em torno do seu rendimento. Apesar das dúvidas, a mudança também pode ser positiva para a Emirates, que já esteve no Giro sem um candidato aos lugares cimeiros da geral. De fora destas contas estão Del Toro, Adam Yates e Jan Christen, embora Igor Arrieta possa estrear-se em casa depois do 19.º lugar no Giro.