O Mediterrâneo continua a ser o grande território do fogo na Europa. Portugal, Espanha, Itália, Grécia e o sul de França concentram há décadas uma parte importante da área ardida do continente e é para estes países que olhamos quando chega o calor e a floresta começa, aparentemente de forma inevitável, a arder. Só que esse mapa já não conta a história toda. Nos últimos anos, os registos começaram a mostrar grandes incêndios em regiões europeias onde eram raros; e há até mudanças na altitude a que o fogo chega, na altura do ano em que aparece e nas condições meteorológicas que deixam a vegetação pronta para arder. Não significa que a Escócia esteja a transformar-se na Andaluzia, nem que exista uma linha de fogo a avançar imparável do Mediterrâneo para o norte da Europa. Significa que começam a aparecer novas geografias do fogo — e algumas delas já eram visíveis antes deste verão.
Uma das pistas vem de 2025, o pior ano de incêndios alguma vez registado na União Europeia pelo EFFIS, o sistema europeu de informação sobre incêndios florestais. O Joint Research Centre da Comissão Europeia contabilizou 1.079.538 hectares ardidos na UE, quase o dobro da média anual entre 2006 e 2024, e a época começou cedo: no final de março já tinham ardido mais de 100 mil hectares. Mas há outra forma de perceber como 2025 saiu do normal. Um grupo internacional de investigadores que estudou o que aconteceu começa o trabalho assim: “A época de incêndios europeia de 2025 foi historicamente extrema”. Os autores contabilizam mais de 1,4 milhões de hectares no universo europeu que analisam e vários incêndios sem precedentes à escala regional.
O trabalho, Attribution of the Record-Breaking 2025 European Fire Season to Climate Change, tem entre os autores Ricardo Trigo, do Instituto Dom Luiz, e Andreia Ribeiro, além de investigadores como Friederike Otto. A primeira versão foi submetida em março ao EGUsphere: os investigadores escolheram cinco regiões onde 2025 tinha sido particularmente fora do normal: o noroeste da Península Ibérica; o norte e oeste da Grã-Bretanha; a Occitânia, no sul de França, entre os Pirenéus e o Mediterrâneo; a zona do Adriático oriental e do Jónico, uma faixa dos Balcãs que desce em direção à Grécia; e o norte e oeste da Turquia. Três destas geografias voltaram a aparecer no mapa dos incêndios deste verão: Península Ibérica, França e Reino Unido. Os autores usam a expressão emerging fire regimes para falar de mudanças no padrão dos incêndios. Não significa que o fogo tenha surgido onde nunca existira. Pode mudar a frequência com que aparece, a dimensão que atinge, a época do ano em que arde ou os territórios onde encontra condições para crescer. E há uma frase no resumo do estudo que ajuda a perceber por que razão isto deixou de ser apenas um problema do sul da Europa: estes novos padrões e o comportamento extremo do fogo estão a criar “desafios crescentes de adaptação”. Há países e regiões que se prepararam durante décadas para conviver com incêndios; outros estão agora a descobrir que também têm de o fazer.
Uma das respostas encontradas pelos investigadores está na seca, mas não apenas a que vem da falta de chuva. Analisaram também o défice de pressão de vapor, ou VPD, uma medida que ajuda a perceber a capacidade que a atmosfera tem para retirar água à vegetação. Quanto mais quente e seco está o ar, maior pode ser esse défice e mais depressa plantas, matos e árvores perdem água. Ou seja, não basta olhar para a chuva, o estado da vegetação depende também do calor e da humidade do ar que a rodeia.
Os investigadores encontraram uma tendência para verões mais secos e para valores extremos deste défice de pressão de vapor. Concluem que a alteração do VPD é “a principal razão” para as combinações de calor, seca e vento se terem tornado mais frequentes do que seria de esperar apenas pela variação natural do clima. A síntese do trabalho deixa ainda uma ideia inquietante: “As condições de 2025 não foram raras em algumas regiões, apesar dos incêndios devastadores”. Ou seja, a meteorologia já não é extraordinária, as consequências que consegue produzir é que podem ser ainda mais graves.
Mas o estudo também impede uma conclusão demasiado limpinha. Na Península Ibérica, no Adriático/Jónico e na Turquia, os modelos climáticos reproduzem melhor as tendências encontradas nas observações. Na Occitânia e na Grã-Bretanha, isso não acontece da mesma maneira. Seria por isso precipitado olhar para Espanha, França e Escócia neste verão e concluir simplesmente que o fogo mediterrânico está a subir para norte por causa das alterações climáticas. O que arde e quanto arde depende do tempo, mas também da vegetação que existe, da quantidade e continuidade do combustível, da forma como o território é usado e gerido e, claro, das ignições.
Há outra mudança que não se mede de sul para norte. Mede-se em metros. Um estudo publicado a 30 de abril na Nature Communications, liderado por Mirela Beloiu, analisou 6.225 incêndios que queimaram quase 2,85 milhões de hectares em oito regiões montanhosas europeias entre 2000 e 2025. Logo na primeira frase, os autores escrevem que os incêndios florestais são “uma ameaça emergente para as regiões montanhosas”. E os números mostram porquê: em 25 anos, os grandes incêndios subiram, em média, cerca de 72 metros por década e tornaram-se mais frequentes depois de 2015.
A mudança também não foi igual em todo o lado. As montanhas ibéricas, os Balcãs e os Apeninos continuam a concentrar a grande maioria dos incêndios analisados. Mas nos Alpes, Cárpatos e montanhas franco-suíças, onde a atividade era baixa, o fogo começou a aparecer com maior consistência. É a estes territórios que os investigadores aplicam a classificação low and emerging fire regime: podemos falar de novos padrões de incêndio em regiões onde o fogo era historicamente pouco frequente. Nos Pirenéus e nas montanhas da Turquia, onde já havia incêndios com alguma regularidade, a frequência também aumentou depois de 2015.
Há ainda um resultado que vale a pena reter: um quarto dos incêndios estudados ocorreu acima dos 1.400 metros e, nessa altitude, os autores encontraram uma ligação à aridez extrema da atmosfera. A conclusão é particularmente relevante para ecossistemas de montanha que durante muito tempo estiveram protegidos do fogo pelo frio, pela neve e pela maior humidade. O aquecimento está a retirar parte dessa proteção e a permitir que o fogo chegue a lugares onde antes tinha mais dificuldade em chegar.
Os dois trabalhos não estudam a mesma coisa: um tenta perceber o que esteve por trás da época extraordinária de 2025; o outro acompanha 25 anos de incêndios nas montanhas. Mas chegam a um ponto comum: o mapa europeu do fogo já não tem fronteiras tão nítidas como tinha. O Mediterrâneo continua a arder e continua a concentrar os grandes incêndios, mas há sinais de mudança para norte, para altitudes maiores e para épocas do ano diferentes.
É a partir daqui que vale a pena olhar melhor para o que está a acontecer neste final de julho de 2026.
Se os estudos mostram que as condições favoráveis aos incêndios estão a chegar a novos territórios, 2026 está a dar-nos uma demonstração bastante rápida. Até 22 de julho, o EFFIS tinha detetado 1.254 incêndios com mais de 30 hectares na União Europeia desde o início do ano. Na média de longo prazo, deveriam ser 569 nesta altura. Ou seja, estamos com mais do dobro. A área ardida chegava aos 254.388 hectares, acima da média histórica, embora ainda ligeiramente abaixo dos 270.449 hectares que já tinham ardido à mesma data em 2025, o pior ano da série. Há ainda 8,31 milhões de toneladas de CO₂ emitidas pelos incêndios desde janeiro. E estes números têm uma limitação importante: o EFFIS atualiza este balanço semanalmente, pelo que a fotografia de 22 de julho ainda não apanha tudo o que aconteceu no fim de semana em Espanha e França.