Realbotix

Representação do robô humanoide Sally, da Realbotix, num ambiente de sala de aula.

O projeto previa usar Sally, um robô humanoide com inteligência artificial, como assistente de ensino. Mas o preço, as dúvidas sobre privacidade e as ligações da empresa ao negócio das bonecas sexuais rapidamente suscitaram críticas.

A empresa de robótica Realbotix há muito tempo que procura afastar as acusações de que os seus voluptuosos robôs humanoides foram concebidos sobretudo com fins sexuais.

A sua companheira robótica Aria, que custa 175.000 dólares, é loira platinada, tem formas generosas e costuma surgir em convenções tecnológicas com roupa desportiva justa.

A empresa insiste, porém, que não se trata de uma boneca sexual — uma afirmação que foi recebida com bastante incredulidade nas redes sociais.

Recentemente, conta o New York Focus, o Distrito Escolar da cidade de Salamanca, no estado de Nova Iorque, decidiu investir uma parte do seu orçamento na colocação de um dos humanoides da empresa, chamado Sally, numa sala de aula.

O robô equipado com inteligência artificial deveria funcionar como assistente de ensino para alunos do secundário inscritos em disciplinas de ciência, tecnologia, engenharia, matemática e artes.

É difícil não reconhecer no rosto de Sally as origens da empresa no negócio dos robôs sexuais. O androide, que custa 57.000 dólares, tem pele lisa de silicone, uma expressão ausente e uma peruca pouco convincente de longos cabelos castanhos.

O diretor-geral do distrito escolar, Mark Beehler, disse ao New York Focus que estava disposto a desistir de proibir a inteligência artificial nas salas de aula, uma vez que “os alunos encontrarão forma de contornar a maioria das regras impostas pelas escolas”.

“Acredito também que é fundamental que as escolas ensinem a utilizar corretamente a tecnologia, em vez de se limitarem a excluí-la”, acrescentou.

Segundo o New York Focus, a inteligência artificial integrada em Sally consegue preparar aulas, fazer traduções em tempo real em mais de 100 línguas e orientar os professores “caso um docente perca o fio à aula ou precise de uma indicação sobre o que vem a seguir”.

Esta parece ser uma visão bastante cínica do futuro da educação, diz o Futurism. Os professores já enfrentam enormes dificuldades devido à chegada desta tecnologia, ao mesmo tempo que os alunos apresentam um declínio das capacidades cognitivas.

Naturalmente, a Realbotix garante que fez o trabalho de casa.

Em vez de inventar factos, uma das limitações conhecidas da inteligência artificial, que torna discutível a sua adequação à maioria das salas de aula, Sally deverá responder “não sei“.

A empresa afirmou também que o robô não está diretamente ligado à Internet, para impedir o acesso indevido a informações altamente sensíveis sobre os alunos.

Num comunicado, o Distrito Escolar de Salamanca sublinhou que “o robô educativo da Realbotix nunca irá substituir professores, funcionários ou a interação humana significativa”.

E pelo menos para já, é mesmo assim: depois de o Departamento de Educação do Estado de Nova Iorque ter manifestado preocupações sobre privacidade, segurança e o impacto de um robô humanoide numa sala de aula, o projeto foi suspenso.

O projeto, que se destinava inicialmente a um pequeno grupo de alunos do secundário inscritos nos cursos de inteligência artificial e robótica, será retomado assim que sejam “reforçados os acordos de proteção dos dados dos alunos”.

Os docentes norte-americanos recebem salários manifestamente baixos, e há uma enorme falta de profissionais de educação nos EUA, com dezenas de milhares de vagas por preencher, nota o Futurism.

Resta saber se Sally será mesmo “mais uma ferramenta pedagógica que os educadores podem utilizar para envolver os alunos, reforçar as aprendizagens em sala de aula e despertar a curiosidade pelas tecnologias emergentes” — sobretudo tendo em conta o seu preço elevado e as origens lascivas do projeto.