A Start Campus, empresa promotora do centro de dados de Sines, fez um pedido de alocação temporária de 12,5 MVA (megavolt ampere) de capacidade na rede de distribuição de eletricidade, por troca com a potência que já tinha garantido na rede de transporte.

O pedido foi justificado com a “intenção urgente” de expansão do primeiro edifício do complexo do centro de dados, que começou a funcionar em 2024. A Start Campus solicitou capacidade adicional na rede de alta tensão, que pretendia usar até 1 de novembro de 2026, para alimentar os consumos resultantes dessa expansão.

A solicitação chegou à Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) no início de 2025, que não se opôs, mas viria a esbarrar num parecer negativo da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE). A posição da ERSE que só agora foi divulgada conta a história de como a Start Campus procurou obter potência na rede de distribuição por contrapartida da que lhe tinha sido atribuída na rede de transporte.

A Start Campus lançou o primeiro centro de dados no final de 2024 e rapidamente anunciou planos de expansão, tendo assinado no ano passado um contrato para acolher 12.600 chips da última geração da Nvidia instalados pela Nscale, num projeto de inteligência artificial que envolve também a Microsoft.

O pedido urgente para se ligar à rede de distribuição, gerida pela E-Redes, é feito neste contexto de crescimento rápido e numa altura em que o projeto estava a consolidar a sua reputação como um investimento estratégico para a economia portuguesa e consensual para os políticos.

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Um ano antes, em 2023, as diligências feitas pelo promotor do centro de dados de Sines, direta ou indiretamente, junto do Governo liderado por António Costa para garantir acesso à eletricidade e às redes elétricas foram um dos temas apanhados na Operação Influencer. As escutas associadas a esta investigação, que foram tornadas públicas, faziam a referência ao “diploma bar aberto”, como ficou conhecida a legislação que aprovou o primeiro procedimento excecional de atribuição de capacidade na rede a grandes investimentos em Sines, classificada como zona de grande procura.

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O caso deu visibilidade à importância crucial do acesso a enormes quantidades de energia elétrica por parte de grandes projetos como os centros de dados. A Operação Influencer não teve grandes desenvolvimentos na justiça e o projeto da Start Campus acabou por garantir uma grande capacidade de ligação à rede de transporte — praticamente 1 Gigawatt — numa potência total obtida que ascende a 1.437 MVA.

O investimento de 500 milhões de euros no reforço da rede elétrica de transporte para responder à grande procura de Sines viria a ter luz verde no verão de 2024 já durante o primeiro Governo de Luís Montenegro.

Antes do primeiro procedimento excecional lançado para Sines, a Start Campus tinha assegurado uma potência de 500 MVA para se ligar à rede de transporte de eletricidade gerida pela REN. Mas no contexto do procedimento extraordinário já referido, a empresa cedeu a título definitivo uma parte dessa capacidade na rede de distribuição — 12,5 MVA. A Start Campus manteve uma potência de 25 MVA que foi usada para alimentar o primeiro edifício do complexo do data center, em exploração desde outubro de 2024.

Daí o pedido entregue à Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) para a “desalocação temporária de 12,5 MVA dessa capacidade de 500 MVA e a sua transferência da subestação da REN de Sines para a subestação de Monte Freio na RND (rede nacional de distribuição), resultando numa alocação temporária desses 12,5 MVA, até que seja possível atribuir definitivamente essa capacidade de 12,5 MVA na rede de distribuição”.

Na formulação do pedido apresentado em fevereiro de 2025, a Start Campus deixou claro que não estava a pedir nova capacidade, mas sim a transferência temporária de parte da capacidade para a rede de distribuição. Sustentava ainda que lhe tinha sido atribuído um total de 1.436 MVA de capacidade de ligação às redes de transporte e eletricidade.

A argumentação da Start Campus pareceu convencer a Direção-Geral de Energia. Mesmo reconhecendo que esta troca não tinha cabimento legal no diploma que criou o procedimento excecional de grande capacidade, a DGEG considerou “não existir prejuízo nem alteração de competição relativamente aos outros promotores que viram a capacidade alocada no procedimento extraordinário”. E desde que não houvesse oposição por parte da gestora da rede de transporte, a REN. Mas foi pedido um parecer ao regulador em março do ano passado.

A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) teve uma posição contrária. Num parecer de maio de 2025, a ERSE assinala que apesar de a Start Campus ter uma capacidade de 1.436 MVA atribuída nas redes elétricas, apenas assegurou 25 MVA na de distribuição. A restante potência é referente à rede de transporte que será disponibilizada no futuro de acordo com o calendário definido no procedimento excecional.

A ERSE assinala ter conhecimento da existência de outros pedidos de promotores dirigidos ao operador da rede de distribuição — a E-Redes — que foram recusados por falta de capacidade, não obstante solicitarem valores mais reduzidos. Por isso, defende que a atribuição de potência na rede de distribuição, nos termos propostos pela Start Campus, “colocaria em causa a equidade de tratamento com esses promotores que, independentemente de não terem participado na zona de grande procura, manifestaram, entretanto, o desejo de aceder à capacidade de ligação à rede de distribuição, formalizando os respetivos pedidos ao operador”.

Concluindo não estarem reunidas as condições para dar um parecer favorável, a ERSE sugere uma via alternativa que passaria pelo novo procedimento excecional previsto para atribuir mais capacidade de ligação às redes de transporte e distribuição a grandes consumidores. Esse procedimento veio a ser concretizado já este ano, com a entrega de mais 4 GW (gigawatts), mas os resultados atribuídos a cada operador não são ainda públicos porque, explica o Ministério do Ambiente e Energia ao Observador, falta concluir a emissão dos títulos de ligação à rede, o que deverá acontecer em breve.

Não foi contudo esse o caminho adotado pela Start Campus. A empresa conseguiu entretanto a capacidade adicional na rede de distribuição que tinha pedido nesta troca sem recorrer ao segundo procedimento excecional para zonas de grande procura.

Segundo fonte oficial, a Start Campus teve conhecimento do parecer negativo da ERSE, através do procedimento PIN. O data center de Sines está classificado como PIN (projeto de interesse nacional), um instrumento que procura agilizar o licenciamento de investimentos de grande dimensão. A empresa adianta “que entretanto formalizou um pedido de aumento de potência nos termos gerais à E-Redes, segundo as regras do regulamento das relações comerciais” que gere as redes de distribuição. Logo em julho de 2025, foi comunicado à Start Campus que lhe tinha sido atribuído o aumento de potência solicitado para 37,5 MVA, somando os 25 MVA já garantidos mais os 12,5 MVA pedidos.

Em resposta adicional ao Observador sobre o calendário do pedido inicial, a empresa clarifica que o primeiro pedido para atribuição definitiva dos 12,5 MVA tinha sido apresentado à E-Redes a 5 de dezembro de 2024. A solicitação foi feita depois de a Start Campus ter sido informada de que tinha perdido a favor da rede pública os 12,5 MVA que tinha abdicado em fevereiro de 2024.

Ou seja, dois meses antes de a Start Campus ter tentado junto da DGEG a troca entre as duas redes. O pedido original à E-Redes viria a ser reforçado depois do centro de dados ter tido conhecimento do parecer desfavorável do regulador.