
Trabalho é trabalho e nada mais: empregados aparecem, mas estão cada vez mais desligados das empresas. E a IA têm culpa nisso.
Os trabalhadores continuam a dizer “presente” no trabalho: nas reuniões, nas tarefas, nas mensagens. Mas estão, ao mesmo tempo, cada vez mais desligados emocionalmente do emprego.
Esta é a conclusão de um relatório recente da DHR Global, que associa a quebra do envolvimento profissional não só ao cansaço ou aos esgotamentos laborais (burnout), mas também à perda de identidade e sentido em relação ao emprego.
O relatório intitulado 2026 Workforce Trends Report inquiriu 1500 trabalhadores da América do Norte, Europa e Ásia. Concluiu que a percentagem de trabalhadores do conhecimento que se consideram muito ou extremamente envolvidos caiu de 88% em 2025 para 64% em 2026. Um total de 83% sentem algum grau de esgotamento.
Segundo o relatório, também não se trata do fenómeno quiet quitting (ou demissão silenciosa), que descreve a atitude dos trabalhadores que se limitam a cumprir as funções previstas, sem mais nenhum esforço. É mais profundo do que isso. Esta possível nova crise laboral envolve um crescente afastamento ligado à criatividade, iniciativa e ao envolvimento pessoal no trabalho.
O relatório avisa as empresas de que esta distinção é mais importante do que parece. Muitas empresas notam esta atitude nos empregados, mas respondem mal, por tratarem o problema como uma quebra de produtividade ou motivação. Normalmente, as empresas tentam motivar os funcionários com prémios, benefícios, programas de reconhecimento ou regras de regresso ao escritório. Todos estes tiros podem sair pela culatra quando o trabalhador assume que já perdeu a ligação entre aquilo que faz e aquilo que é.
“O que faço aqui?” O efeito desanimador da IA
A inteligência artificial (IA) terá tido um papel nesta transformação. Os ânimos em volta do teletrabalho e ferramentas de IA estão menos exaltados, segundo o relatório da DHR.
A IA não altera só a produtividade: pode afetar a identidade dos profissionais, especialmente quando as funções mudam sem uma discussão clara dentro das organizações. Muitos trabalhadores construíram a sua identidade profissional em torno de capacidades como analisar rapidamente informação, escrever bem, encontrar respostas inovadoras. Quando uma ferramenta passa a executar a parte mais visível dessas tarefas em poucos segundos, a dúvida vai além do receio de perder o emprego. ‘Entranha-se’ na mente do trabalhador e fá-lo questionar: “Se a máquina consegue fazer aquilo que definia o meu valor, qual passa a ser o seu papel? O que faço aqui?”
O relatório aponta que o impacto não é igual em toda a hierarquia do trabalho. Entre trabalhadores em início de carreira e profissionais de níveis intermédios, 61% e 62%, respetivamente, dizem ter reduzido o envolvimento devido ao esgotamento. Essa percentagem desce para 38% entre os membros de administrações. As pessoas com maior poder dentro das empresas são as que menos sentem o problema e por isso, à partida, têm mais dificuldade em detetá-lo.
As empresas que continuarem a reduzir os trabalhadores a funções cada vez mais estreitas poderão ver os níveis de envolvimento continuar a cair, avisam os investigadores. O sinal mais difícil de interpretar é que muitos dos que já desistiram emocionalmente continuam sentados à secretária, nas videochamadas, a cumprir tudo o que lhes é pedido. Até que…