Os sete funcionários do centro de acolhimento para crianças e jovens da Akto revezam-se para garantir um acompanhamento 24 horas por dia. “É um laço que se cria e também fazemos questão de que esse laço se crie, porque não queremos que volte a acontecer uma revitimização a esta criança.”
Em média, o acolhimento dura cerca de três anos e meio. “Pedimos sempre ao Tribunal de Família e Menores que deixe o processo-crime terminar e iniciamos aqui o processo de vida da criança: se fica em Portugal, se vai para o país de origem ou se vai para um reagrupamento familiar. Sob acolhimento, garantimos tudo o que está associado à proteção”, como assistência médica e idas à escola, explica Ana Rita Brito. “Se houver familiares noutros países da União Europeia, temos que ativar o Serviço Social Europeu para perceber se há possibilidade de reagrupamento familiar.” Mas a investigação ao caso de Marie* ainda agora arrancou.
PJ e Guardia Civil desmantelam rede familiar de tráfico humano para exploração laboral
A menina de quatro anos que vive no centro de acolhimento da Akto foi salva a tempo. Quando foi recebida, com três anos, ria muito e estava “super ativa”, recorda Ana Rita Brito. Depois, deram-lhe banho — e foi aí que notaram algo estranho. “Percebemos que tinha uma cicatriz e tinha feito uma cirurgia ao coração”, conta a socióloga. Sem documentos, era impossível saber se tomava ou não medicação e por isso, as técnicas correram para um hospital pediátrico. Um ano depois, está bem e vive no centro onde Marie agora foi recebida.
Por envolver suspeitas de tráfico humano, o caso da menina de 12 anos está a ser investigado pela Polícia Judiciária (PJ). No centro de acolhimento, Marie ainda não falou com ninguém sobre o que lhe aconteceu. “Chegou a casa, foi tomar banho, foi jantar e depois para a cama dormir”, diz a coordenadora de projetos da Akto. “O que interessa aqui é que ela neste momento está em segurança. É isso que ela sente porque, por exemplo, de sábado para domingo dormiu muito mais horas do que as estipuladas para acordar. Não a acordámos; queremos que eles descansem.”
Marie fala francês, mas não lhe foi difícil falar com as outras crianças, assegura Ana Rita Brito. “Há crianças que falam dialeto. Muitas vezes, não conseguimos, mas eles interagem entre eles. A primeira coisa que eles dizem é, ‘eu também estive nessa situação no aeroporto, aqui é normal’. E ‘olha, vais ficar sem telemóvel!’”.
*O nome da criança envolvida neste caso é fictício para proteção da identidade
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