João dos Santos Carvalho, o empreiteiro de Barcelos, no centro da polémica que envolve Luís Neves, falou pela primeira vez em televisão. Em declarações ao Exclusivo da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) assume ter-se oferecido para transportar o atrelado e os bidões com produtos químicos apreendidos pela PJ, admitindo que tudo foi combinado “de boca” e sem qualquer documentação
À chegada às instalações da Construbarcelos, pelas cinco da manhã, o empresário recusou inicialmente prestar declarações. Minutos depois, regressou e decidiu responder às perguntas da equipa da nossa equipa de investigação.
João Santos Carvalho explica que foi ele quem sugeriu à Polícia Judiciária guardar o material apreendido, depois de se aperceber da dificuldade do diretor financeiro em encontrar um local para o armazenar: “Ofereci-me. Foi em Évora, na obra que estava a fazer para a PJ. Vi o diretor financeiro um bocado preocupado e disse-lhe: ‘Tenho lá um espaço grande, quase dois mil metros quadrados, posso guardar isso’.”
O empreiteiro diz que nunca recebeu qualquer compensação por guardar o atrelado e os bidões, admitindo até ter tido prejuízo: “Ainda havia de cobrar ao Estado por os ter aí não sei quantos meses. Se calhar ainda tive prejuízo a ir buscá-los e a guardá-los.”
Questionado sobre se estava apenas a ajudar um amigo, responde que o objetivo foi outro: “Ajudei a PJ a resolver um problema que eles tinham para resolver.
A parte mais relevante da entrevista surge quando é questionado sobre a documentação relativa ao transporte do atrelado entre o parque de apreendidos da Autoridade Marítima, no Seixal, e as instalações da empresa, em Barcelos.
João Santos Carvalho garante que não se recorda da existência de qualquer guia de transporte ou documento que formalizasse a entrega do material: “Nada, nada, nada. Quando confrontado com a ausência de documentos, responde: “Se vem uma autoridade à frente, é um documento.Uma autoridade escusa de escrever. Basta respeitar.” Perguntado novamente se saiu do Seixal sem qualquer guia, insiste:”Não, que eu me lembre não.”
As declarações contrastam com a versão inicialmente transmitida por Luís Neves. Segundo revelou o Diário de Notícias a 17 de julho, o atual ministro da Administração Interna sustentava que todo o processo de transferência da galera estava devidamente documentado.
Na conferência de imprensa realizada esta semana, porém, Luís Neves afirmou não saber se existia ou não documentação relativa ao transporte.
A investigação da TVI/CNN Portugal e do Nascer do SOL apurou que não consta no processo qualquer documento que identifique João Santos Carvalho como fiel depositário do material apreendido, nem qualquer guia de transporte.
O Código de Processo Penal determina que, quando os objetos apreendidos não possam ser juntos ao processo, devem ser confiados “à guarda (…) de um depositário, de tudo se fazendo menção no auto”.
Durante a entrevista, João Santos Carvalho abriu as portas do armazém onde os produtos químicos permaneceram armazenados durante vários meses.
Segundo explica, os bidões foram retirados do atrelado e colocados num canto do pavilhão, ficando esta apenas a servir de espaço para guardar material de construção: “Os bidões estavam aqui neste cantinho. A galera nunca andou. Foi aberta para tirar os bidões e meter lá material meu.”
Garante ainda que dois inspetores da Polícia Judiciária estiveram no local e verificaram as condições em que os produtos estavam armazenados: “Estavam bem acondicionados, selados. Tudo”.
A entrevista abordou também as obras realizadas na propriedade de Luís Neves, no Alentejo.
Enquanto o ministro afirmou que escolheu João Santos Carvalho por considerar que este atravessava dificuldades, o empreiteiro apresenta uma versão diferente: “Fui eu que me ofereci para fazer aquilo para o homem. Ele nem queria.”
Questionado sobre se as obras terminaram, apesar de Luís Neves ter dito que já não iriam prosseguir, responde que acredita que ainda serão concluídas: “Penso que aquilo é tudo para acabar”.
Sobre os pagamentos das obras, João Santos Carvalho garante que recebeu cerca de cinco mil euros em várias prestações e que o restante será acertado no final da empreitada.
Questionado sobre quem efetuava os pagamentos, é perentório.”Foi sempre a dra. Ana.”, a mulher do ministro.
Uma resposta que contraria a versão inicialmente apresentada por Luís Neves, que havia afirmado ter sido ele próprio a efetuar os pagamentos.
O empreiteiro explica ainda que a relação comercial assentava essencialmente na confiança.”Para mim a palavra é tudo. Basta eu dizer que sim.”
A lei, no entanto, proíbe pagamentos em numerário entre particulares acima de três mil euros relativos ao mesmo negócio, ainda que o montante seja fracionado.
A polémica em torno da piscina construída na propriedade de Luís Neves também foi abordada.
Depois do ministro ter começado por dizer que se tratava de um tanque e mais tarde admitir que atualmente funciona como piscina, assegurando que voltará a ser tanque, João Santos Carvalho mantém essa versão.”Aquilo é um tanque. Durante um fim de semana em que ele não estava, peguei na máquina e aterrei aquilo. Achei que ficava mais engraçado.”
As declarações do empreiteiro reforçam alguns aspetos já assumidos por Luís Neves, mas contradizem outros pontos relevantes, nomeadamente quanto à existência de documentação relativa ao transporte e guarda de material apreendido pela Polícia Judiciária, deixando por esclarecer uma questão central: porque aceitou um empresário privado assumir, sem remuneração e durante vários meses, a guarda de produtos químicos apreendidos numa das maiores operações antidroga realizadas em Portugal?