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O ator e vocalista dos Thirty Seconds to mars, Jared Leto.
Após mais de 20 anos de polémicas, quatro de 10 mulheres ouvidas pela BBC acusam o artista de conduta sexual criminosa ocorridas quando o ator e músico tinha entre 30 e 40. Leto criou “culto” nos últimos anos, praticado numa ilha croata.
Dallas Buyers Club, Suicide Squad, Fight Club, Requiem for a Dream… o novo “filme” de Jared Leto é bem mais sombrio: é, sem eufemismos, o mais recente escândalo sexual de Hollywood e tem o ator e vocalista dos Thirty Seconds to Mars como protagonista.
Quatro mulheres acusam o norte-americano de 54 anos de comportamentos que poderão configurar crimes sexuais. Na maior parte dos casos, os eventuais crimes aconteceram quando estas mulheres eram ainda adolescentes.
Os testemunhos fazem parte de um documentário da BBC que estreia esta quinta-feira à noite, no qual dez mulheres descrevem múltiplos encontros ocorridos entre 2002 e 2016, quando o artista tinha entre 30 e 40 anos.
Uma das mulheres diz à BBC ter sido agredida sexualmente numa casa de banho de um motel quando tinha 17 anos; outra afirma que Leto a ameaçou com uma agressão sexual quando tinha 19 anos e se encontrou com ele num quarto de hotel; uma terceira eventual vítima conta que manteve relações sexuais com o músico aos 17 anos, na Califórnia, onde a idade de consentimento é de 18, e uma quarta pessoa acusa o artista de a ter aliciado através de telefonemas sexualmente explícitos, que terão começado quando tinha apenas 16 anos.
“O segredo mais sombrio de Hollywood”
Atualmente com 54 anos, o vencedor de um Óscar, em 2014, pelo papel como ator secundário no drama Dallas Buyers Club é o grande alvo do novo documentário da BBC, Jared Leto: Hollywood’s Dark Secret, onde um total de dez mulheres — nove das quais falam publicamente pela primeira vez — acusam o ator de vários crimes.
Além das quatro mulheres que descrevem condutas potencialmente criminosas, outras quatro dizem ter recebido telefonemas estranhos e frequentemente sexualizados quando eram mais novas e uma outra mulher relata um episódio traumático ocorrido num festival de música, quando tinha apenas 14 anos.
A BBC avançou esta quarta-feira que confirmou vários elementos dos testemunhos junto de amigos e familiares a quem as mulheres relataram, na altura dos factos, os encontros com Leto. A estação britânica teve também acesso a fotografias, mensagens, emails e documentos que considera compatíveis com os relatos.
Os testemunhos das quatro mulheres
Agressão em quarto de hotel
Uma das mulheres, identificada pela BBC com o nome fictício Isabel, disse que foi agredida sexualmente em Las Vegas, em 2002, quando tinha 17 anos. Trabalhava numa loja e conheceu o ator ao mostrar a cidade a Jared Leto e a alguns amigos.
Mais tarde, Isabel terá aceitado encontrar-se com o vocalista no hotel onde este estaria hospedado. A morada indicada levou-a a um motel que descreve como degradado. Isabel diz que achou que o grupo acabaria por sair para outro local. Estava sentada na cama à espera de que Leto se preparasse quando este a chamou à casa de banho, sugerindo que poderiam conversar enquanto tomava banho. O ator terá então aberto a cortina, começado a beijá-la e agarrado na mão da adolescente, usando-a para se masturbar. Isabel diz que se afastou e que manifestou que queria sair. Leto terá colocado uma toalha, espreitado para fora do quarto para verificar se havia alguém por perto e só depois a deixou partir.
A mulher conta ainda que só mais tarde, depois de pesquisar o ator na Internet, percebeu que este tinha mais de 30 anos. Durante grande parte da vida, diz que se culpou pelo que tinha acontecido, convencida de que o episódio resultara da sua própria ingenuidade.
“Idade é só um número”
Outra mulher, identificada como Alex, conheceu o artista em 2013, depois de um concerto dos Thirty Seconds to Mars na O2 Arena, em Londres. Tinha 19 anos e trabalhava como modelo.
Alex conta ainda que, depois do concerto, uma assistente de Leto a convidou para uma festa em Shoreditch House, no leste de Londres. Por precaução, disse a Leto que tinha 17 anos. O músico, então com 41 anos, terá respondido que “a idade é apenas um número”.
Alex diz à BBC que tinha bebido nessa noite, que estava com pouca bateria no telemóvel e que foi incentivada por uma assistente a seguir, mais tarde, para outra festa num hotel nas proximidades. Ao entrar no quarto, percebeu que só estava lá Leto, apesar de lhe terem dado a entender que estariam lá outras pessoas.
Quando Alex perguntou se havia um carregador de telemóvel ou dinheiro para regressar a casa, o ator terá respondido que não. Alex revela que não teve alternativa a não ser dormir numa chaise longue, mas conta que Jared Leto lhe disse várias vezes que, se aí dormisse, acordaria a ser penetrada.
A jovem interpretou as palavras como uma ameaça de agressão sexual, percebeu que não estava segura e saiu do quarto. Pouco depois, enviou uma mensagem a uma amiga a contar o que acontecera. A amiga respondeu que Leto a tinha ameaçado sexualmente e aconselhou-a a apresentar queixa. Durante anos, Alex revela que tentou desvalorizar o episódio. Agora, acredita que a ida ao hotel poderá ter sido planeada e que a assistente sabia o que dizer para a conduzir ao quarto do músico.
Pediu que lhe chamasse “papá”
Uma terceira mulher, a quem foi atribuído o nome fictício Clara, acusa Leto de ter mantido relações sexuais com ela em 2006, quando tinha 17 anos e o músico 34.
Clara conta que um homem ligado ao artista, então na casa dos 40 anos, se aproximou dela nos bastidores de um concerto dos Thirty Seconds to Mars e lhe pediu o número de telefone, em nome de Leto.
Segundo o seu testemunho, o ator pediu-lhe durante as relações sexuais que lhe chamasse “papá” e que fingisse ser uma menina. Clara afirma que era ingénua e vulnerável e que, naquela idade, não compreendia até que ponto aquele comportamento era inadequado numa relação com um adulto.
A mulher recorda ter falado diretamente com Leto sobre a idade de consentimento na Califórnia, uma questão que conhecia pelo facto de o pai trabalhar na área da aplicação da lei. O músico terá desvalorizado o assunto.
Clara diz que os dois foram para casa do vocalista da banda, onde mantiveram relações sexuais enquanto uma amiga esperava noutra divisão. A jovem terá regressado à residência em mais três ou quatro ocasiões.
Na Califórnia, um adulto que mantenha relações sexuais com uma pessoa com menos de 18 anos pode incorrer num crime de relações sexuais com menor, mesmo que a adolescente tenha consentido no encontro.
Clara afirma que só mais tarde percebeu a gravidade do que acontecera.
Autógrafo no peito e forçada para os bastidores aos 14 anos
Outro dos relatos incluídos no documentário é o de Taylor, que tinha 14 anos quando conheceu Leto num festival de música, em 2005. Diz que o episódio a levou a deixar de frequentar concertos em geral.
A adolescente assistiu à atuação dos Thirty Seconds to Mars acompanhada pela mãe e aproximou-se do músico durante uma sessão de autógrafos. Esperava que Leto assinasse a camisola num braço ou junto ao estômago, mas afirma que este escreveu diretamente sobre o peito e fez um comentário sexual sobre o seu corpo.
O músico terá depois pedido a um segurança que a levasse para os bastidores, sem sequer lhe perguntar se queria ir. Taylor diz que era muito evidente que era menor: era baixa e usava aparelho nos dentes. A mãe, que terá presenciado a situação, confrontou o artista. De acordo com Taylor, Leto repetiu o comentário sobre o peito da adolescente e mostrou-se indiferente à reação.
Taylor diz que o episódio alterou profundamente a sua vida e lhe deixou uma sensação de impotência, por considerar que não tinha meios para reagir ao comportamento de uma celebridade adulta e poderosa.
Perguntas sexuais ao telefone
A quarta mulher que acusa Leto de conduta potencialmente criminosa é identificada como Etta. Tinha 16 anos quando conheceu o ator, em 2014, numa agência de modelos de Los Angeles, onde entrou acompanhada pela mãe.
Leto terá demonstrado interesse pela ambição da adolescente de seguir uma carreira de modelo e pediu-lhe o endereço de email, alegadamente para a convidar e à mãe para uma festa relacionada com os Óscares.
Etta disse que o músico lhe enviou efetivamente um email, mas que as conversas passaram rapidamente a ter teor sexual. Durante telefonemas, Leto terá perguntado se a rapariga era virgem, quais eram as suas preferências sexuais, entre outras questões explícitas. Pelo menos uma vez, terá sugerido que os dois poderiam vir a ter relações sexuais.
Leto terá ainda pedido autorização para entregar o seu número de telefone a um amigo: um possível contacto útil para a carreira. Etta aceitou e começou depois a receber chamadas frequentes de um homem que se identificava como Christian, que lhe propunha participar em filmes pornográficos, sustentando que o facto de ser menor não era um problema.
Etta garante que Christian e Leto faziam perguntas sexuais semelhantes e suspeita de que poderiam ser na verdade a mesma pessoa.
Duas outras mulheres ouvidas pela BBC dizem ter recebido chamadas de outros homens no mesmo período e levantam uma suspeita semelhante, embora a investigação não apresente provas de que Leto estivesse por trás desses telefonemas.
Em 2016, Etta recebeu novo contacto do ator. Leto terá dito que o advogado pretendia enviar-lhe um acordo de confidencialidade, por estar preocupado com as relações do artista com mulheres. A BBC diz ter tido acesso ao documento, assim como a mensagens e emails relacionados. Etta recusou-se a assinar o acordo, que a impediria de falar publicamente sobre a relação com Leto.
As modelos, as jovens, os meets, os VIPs
Dois homens, que trabalharam durante vários anos com os Thirty Seconds to Mars, confessaram que membros da equipa se sentiam desconfortáveis com a forma como Jared Leto interagia com raparigas adolescentes. Algumas das quais eram convidadas a ir aos bastidores, ao camarim ou a uma casa onde a banda gravava.
Um antigo funcionário da banda — a quem a BBC atribui o nome fictício Brad — afirma que, durante a década de 2010, a equipa contactava agências de modelos nas cidades onde o grupo atuava, oferecendo bilhetes VIP a mulheres. O pedido para que fossem convidadas apenas modelos femininas partia diretamente de Jared Leto, diz a fonte, que considerava o trabalho desconfortável.
O antigo funcionário Brad recorda ainda que raparigas jovens eram, por vezes, convidadas a subir ao palco durante as últimas músicas dos concertos. No final, membros da equipa recebiam instruções para as levar para os bastidores, onde Leto conversava com elas no camarim.
Outro homem que trabalhou com o grupo, identificado como Simon, diz que era habitual cerca de duas raparigas por dia visitarem Leto numa casa onde a banda trabalhava. Nenhum dos dois antigos colaboradores diz ter presenciado crimes, mas ambos descrevem desconforto perante a acentuada diferença de idades.
O ZAP sabe que, nos vários concertos dos Thirty Seconds to Mars que aconteceram em Portugal, era comum os membros da banda escolherem as jovens que consideravam mais atraentes, muitas vezes menores de idade, a conviver com eles num espaço mais privado. A banda ainda está no ativo: tem data marcada para atuar em Portugal, no Meo Arena, em Lisboa, a 6 de abril de 2027, como parte da digressão “A Beautiful Lie vs This Is War”.
Nada de novo? Leto rejeita as acusações
As suspeitas em torno do comportamento do ator e músico não são propriamente novas. A BBC contabilizou mais de 120 alegações distintas publicadas online ao longo de vários anos sobre a sua forma de interagir com mulheres, incluindo relatos antigos e acusações de natureza sexual.
Em 2025, as denúncias ganharam outra dimensão quando a DJ de Los Angeles Allie Teilz disse nas redes sociais ter sido agredida por Leto aos 17 anos.
A publicação levou outras mulheres a apresentar relatos semelhantes. No mesmo ano, nove mulheres acusaram o ator de comportamentos sexuais impróprios num artigo do meio norte-americano Air Mail. Leto negou todas essas alegações e fez o mesmo agora, um ano mais tarde.
“Nunca agredi sexualmente ninguém em toda a minha vida. Estas alegações são absoluta e categoricamente falsas”, declarou Jared Leto, através dos seus representantes, depois de a investigação da BBC ter sido publicada.
Quem é Jared Leto e que “culto” é este que criou?
Jared Leto tornou-se conhecido como ator na década de 1990 e venceu, em 2014, o Óscar de melhor ator secundário pela participação em Dallas Buyers Club. Entrou também em filmes como Fight Club, Blade Runner 2049 e Suicide Squad. Em 1998 fundou, com o irmão Shannon Leto, os Thirty Seconds to Mars, banda de que é vocalista ainda hoje.
Recentemente, Jared Leto começou a organizar retiros de fãs com uma espécie de temática de culto, numa ilha privada, alugada na Croácia. A imagem da banda, que já era sectária, ficou ainda mais “estranha” para muitos atentos.
Os Camp Mars e Mars Island pareciam posicionar Leto como líder rodeado de seguidores, vestidos de branco. “Sim, isto é um culto”, escreveu a banda no Twitter, em 2019, com imagens em que Jared Leto foi comparado a Jesus Cristo a caminhar entre seguidores. Jared Leto já se tinha antes referido aos seus fãs, a comunidade Echelon, como precisamente um culto.
Yes, this is a cult 🔺 #MarsIsland pic.twitter.com/4I7JROg90w
— THIRTY SECONDS TO MARS (@30SECONDSTOMARS) August 15, 2019
Anos e mais anos de suspeitas
Já em 2005, o New York Post citava uma fonte que acusava Leto de abordar modelos adolescentes e enviar repetidamente mensagens a raparigas de 16 e 17 anos.
E se as denúncias ao Air Mail remetem a 2006, houve outros casos pelo caminho. Em 2008, Laura La Rue acusou Leto de entrar numa sala completamente nu quando ela tinha 17 anos.
Em 2013, algo ainda mais estranho: “Uma vez, alguém cortou a própria orelha e enviou-ma. Foi muito estranho. Uma orelha inteira. Uma cena digna de Van Gogh. O bilhete dizia apenas: ‘Estás a ouvir?’. Nunca soube quem era, quem estava por aí sem uma orelha”, revelou Jared Leto, que disse ainda: “Fiz-lhe um furo e usei-a como colar”.
No mesmo ano, a banda promove um concurso em que os vencedores ganham uma estadia na casa de Leto, conhecida como The Lab. Um fã teve a “oportunidade” de dormir na cama de Leto.
Um ano depois, em 2014: a atriz porno Vicki Marie Taylor afirma ter sido estrangulada por Leto enquanto fazia uma lap dance para o seu irmão e baterista dos 30 STM, Shannon. “O Jared de repente agarrou-me pelo pescoço por trás e disse: ‘Consigo atingir o puro prazer sexual em 30 segundos apenas olhando nos seus olhos”, revelou, na altura, citada pelo Tabloid Star.
Em 2018, o ator Dylan Sprouse questionou publicamente Leto sobre alegadas mensagens enviadas a modelos entre os 18 e os 25 anos.