Durante muito tempo, pesquisadores de todo o mundo correram atrás de respostas para a origem das 22 Eras do Gelo durante o Holoceno. No entanto, um estudo recente mostrou como erupções vulcânicas do Círculo de Fogo podem ter gelado a atmosfera e os oceanos.
Publicado na revista Nature Communications, o estudo de uma equipe internacional liderada por Alice Paine, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Basileia, mostrou como vulcões serviram de gatilho para os períodos prolongados de frio.
Embora pareça contraditório uma explosão de lava esfriar o planeta, os especialistas chamam a atenção para os gases e partículas atmosféricas. Para Alice Paine:
Até agora, não havia uma explicação convincente para esse fenômeno. Sempre parecia que faltava algo”.
Os vulcões do Círculo de Fogo
De acordo com a revista Phys, foram estudadas 51 erupções do período Holoceno em torno do Círculo de Fogo do Pacífico. Pois nessa região há diversos vulcões ativos, mas que só entram em atividade quando as placas tectônicas se colidem, podendo desencadear erupções massivas e explosivas.
Inclusive, para conseguir datar essas 51 explosões magmáticas, os estudiosos utilizaram de resquícios de cinzas alojados em em depósitos de gelo. Nesse sentido, a associação ocorreu pois a datação dessas cinzas batia, em sua maioria, com os períodos glaciais. Paine explica:
Ao combinar os resultados da nossa análise estatística com as reconstruções paleoclimáticas existentes, temos muita confiança de que isso não é coincidência. Além disso, a análise também concilia todas as descobertas feitas até o momento sobre esses mecanismos”
Surpreendentemente, as erupções vulcânicas podem ser responsáveis por perturbar o equilíbrio energético da Terra ao ponto que provocam alterações globais. De acordo com o estudo, a erupção lança partículas de enxofre na atmosfera, que refletem a luz solar incidente. Isso causa o resfriamento da superfície da Terra no Hemisfério Norte.
Assim, o gelo marinho do Ártico se expande e reduz a quantidade de calor que o oceano libera para a atmosfera. Dessa forma, altera o curso das correntes oceânicas, que afetam a pressão de chuva que vai ao equador, expandindo a zona fria.
Não obstante, essas condições se reforçam mutuamente, em um efeito de “bola de neve”. Por isso, em regiões como os alpes da Suíça começam a crescer grandes geleiras.
A nuvem de enxofre
Mas não são todas as erupções que podem causar isso, na verdade, se a nuvem expelida for muito forte a poeira colapsa sobre o próprio peso e o enxofre cai. Se for muito fraca, o enxofre não alcança a alta atmosfera e nada acontece a nível global. Em suma, são condições muito específicas.
Entretanto, não se pode confundir como ocorrido em 1816. Naquele ano a erupção do Monte Tambora, no que hoje é a Indonésia, levou a uma queda de temperatura de vários graus, provocando quebras de safra e fome em todo o mundo. Mas o efeito durou apenas um ano, até que as partículas de poeira desaparecessem da atmosfera, causando apenas o “Ano sem Verão”.
Nesses casos destacados pelo estudo, o processo dura bem mais que um ano. Paine destaca:
Nos eventos que estudamos, o clima estava, por assim dizer, em seu estado natural.”
Ou seja, a grande diferença é que nesse caso, mesmo com as partículas de enxofre tendo saindo da atmosfera, seus efeitos ainda duram por décadas ou até séculos. Assim, surgem as Eras do Gelo.
*Sob supervisão de Giovanna Gomes
Historiador em formação que troca qualquer “sextou” por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: