Cientistas encontraram a prova definitiva que liga a introdução da varíola no continente americano aos colonizadores europeus. Uma pesquisa conduzida pelo Trinity College Dublin identificou o DNA viral de varíola mais antigo já registrado nas Américas em um par de múmias chilenas com idade entre 500 e 600 anos. 

O estudo, publicado na revista Science e divulgado pelo veículo Popular Science, preenche uma lacuna histórica sobre como a doença dizimou populações indígenas logo após o contato com os europeus no final do século 15.

Elo perdido encontrado

Embora o cronograma histórico da devastação sugerisse a origem europeia, faltavam evidências genéticas sólidas para sustentar essa trajetória. 

A análise molecular detalhada revelou que as cepas encontradas pertenciam a uma linhagem agora extinta do vírus variola, que serve como uma ponte entre as versões do Velho Mundo e as variantes que surgiram posteriormente. Segundo o geneticista de patógenos e coautor do trabalho, Shigeki Nakagome:

Esta descoberta fornece a primeira confirmação molecular de que a varíola foi levada para as Américas durante o período colonial”.

Evolução do patógeno

Ao comparar os vestígios virais das múmias com outros exemplos históricos, os pesquisadores observaram que o vírus passou por um longo período de alterações genéticas até o século 16. 

A partir dos séculos 17 e 18, coincidindo com o auge da expansão colonial, a estrutura do vírus começou a se estabilizar. A microbiologista Lara Cassidy explicou que: 

Isso sugere que o vírus pode ter alcançado um nível evolutivo ideal, permitindo que ele se espalhasse com sucesso com pouca adaptação adicional, possivelmente auxiliado pela falta de imunidade das populações recém-expostas”.

Legado para saúde

A varíola é a única doença infecciosa humana erradicada globalmente, um marco alcançado em 1980 pela Organização Mundial da Saúde. No entanto, entender sua evolução histórica é vital para a medicina moderna. Conforme o pesquisador Bruno Romero González

Os resultados mostram como grandes eventos históricos, incluindo colonização, mudanças populacionais e vacinação, provavelmente moldaram a evolução de uma das doenças infecciosas mais devastadoras da humanidade”. 

O estudo reforça como patógenos se comportam ao entrar em populações vulneráveis, auxiliando epidemiologistas no preparo contra futuros surtos de doenças.

*Sob supervisão de Éric Moreira


Luiza Kellmann

Meu propósito é dar voz a narrativas.