A explosão da bomba atômica lançada sobre Hiroshima, em 1945, pode ter dado origem a um material nunca antes observado na Terra. Pesquisadores identificaram uma liga metálica inédita ao analisar minúsculas partículas presentes nos detritos da precipitação radioativa, indicando que ela provavelmente foi formada no interior da bola de fogo produzida pela detonação nuclear.

Os resultados foram publicados na revista científica Science Advances. A equipe, da Universidade de Florença, analisou 34 pequenas partículas vítreas coletadas nas areias da Baía de Hiroshima. Entre elas, os cientistas encontraram um grão metálico microscópico cuja composição química e estrutura cristalina não correspondiam a nenhuma liga conhecida.

Segundo os pesquisadores, a liga foi encontrada dentro de uma partícula vítrea conhecida como hiroshimaite e teria se formado quando temperaturas superiores a 7.000°C vaporizaram edifícios, solo, vidro e outros materiais durante a explosão.

Estrutura nunca havia sido registrada A liga microscópica foi encontrada dentro de uma partícula vítrea conhecida como ‘hiroshimaite’ (foto) que foi recuperada das areias da praia na Baía de Hiroshima. – Bindi et alt/Science Advances

De acordo com o Daily Mail, para investigar a composição do material, a equipe utilizou microscópios eletrônicos de alta potência, análises químicas e difração de raios X de cristal único. Em seguida, comparou o arranjo atômico da liga com milhares de materiais já catalogados para verificar se ela correspondia a alguma estrutura conhecida.

Embora sua composição lembre a do aço inoxidável, contendo ferro, cromo, níquel, manganês, molibdênio, silício e alumínio, a disposição desses elementos forma uma estrutura cristalina que nunca havia sido documentada.

Os pesquisadores acreditam que o metal surgiu quando uma nuvem de vapor metálico se condensou rapidamente e, em seguida, passou por um resfriamento extremamente acelerado durante a expansão da bola de fogo nuclear. Esse processo teria “congelado” os átomos em uma configuração considerada improvável para um metal com essa combinação de elementos.

No artigo, os autores escreveram: “Relatamos a descoberta de uma liga multicomponente anteriormente desconhecida… recuperada das areias da praia da Baía de Hiroshima, formada durante a explosão de ar atômica de 6 de agosto de 1945″.

Eles acrescentam que a liga provavelmente foi produzida pela condensação de um vapor metálico misturado, seguida de um resfriamento ultrarrápido dentro da bola de fogo.

Condições extremas criaram um material inesperado A liga recém-identificada contém ferro, cromo, níquel, manganês, molibdênio, silício e alumínio em proporções semelhantes ao aço inoxidável, mas dispostas em uma estrutura nunca antes documentada. – Bindi et alt/Science Advances

Segundo a equipe, o novo material parece ocupar um “ponto ideal” até então desconhecido na ciência dos materiais, resultado da combinação entre calor extremo e resfriamento muito rápido provocados pela explosão nuclear.

Os pesquisadores afirmam que a descoberta foi completamente inesperada e sugerem que outras partículas semelhantes ainda podem estar escondidas entre os detritos de Hiroshima. Além disso, compreender como essa liga foi formada poderá ajudar cientistas a reproduzir estruturas parecidas em laboratório, possibilitando o desenvolvimento de materiais mais resistentes, leves ou capazes de suportar altas temperaturas.

Hiroshima segue revelando novas descobertas científicas Imagem ilustrativa da Bomba de Hiroshima. – Getty Images

O estudo também reforça observações feitas em outra pesquisa publicada neste ano, que identificou um raro quase-cristal nos resíduos do teste nuclear Trinity, realizado no Novo México, nos Estados Unidos. Segundo os autores, os dois trabalhos fortalecem a hipótese de que explosões nucleares podem gerar materiais exóticos impossíveis de serem produzidos em condições naturais.

Os pesquisadores concluem que o novo achado demonstra como condições extremas provocadas por atividades humanas podem levar à formação de materiais até então desconhecidos pela ciência, ampliando o conhecimento sobre a forma como estruturas metálicas podem surgir em ambientes de temperatura e pressão excepcionais.

*Sob supervisão de Éric Moreira