Assim que o caso lhe é apresentado, a Procuradora-Geral da República pega no telefone e liga para o então diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP). Uma investigação tão sensível tem de ser entregue a uma equipa onde são trabalhados os processos mais complexos da justiça portuguesa. E assim, em poucos minutos, Amadeu Guerra junta-se ao grupo.

Em conjunto, definem a forma como aquele processo vai ser iniciado: com as informações que recebeu, e que compilou num documento que levou consigo para a reunião com Marques Vidal, Júlio Pereira vai escrever uma carta formal à PGR a solicitar a instauração de um inquérito. A denúncia segue logo a 10 de novembro para o diretor do DCIAP e aponta diretamente a Carvalhão Gil: “Serviço congénere informou o SIS de que, segundo fonte segura, em data não apurada, mas anterior a 2010, Carvalhão Gil terá sido recrutado por agentes do SVR (serviço externo da Federação Russa)”, refere a carta. Pelo menos desde 2010 que o espião do SIS estará em contacto com oficiais do SVR, e desde essa altura — cinco anos antes do encontro na Eslovénia — que os contactos ter-se-ão repetido um número de vezes não exatamente apurado. O então secretário-geral do SIRP diz que os serviços desconfiavam da existência de pelo menos cinco encontros e que o espião português “terá passado informação secreta a troco de dinheiro”.

A denúncia continua: entre as informações secretas que entregou aos russos, Carvalhão Gil também terá feito chegar imagens de outros espiões dos serviços portugueses que o próprio foi recolhendo, discretamente, com o seu telemóvel dentro do Forte da Ameixoeira, a sede do SIS.

Na prática, há duas suspeitas que pendem sobre Frederico Carvalhão Gil: a primeira é a de que possa ter exposto, nos contactos com o espião russo, outros espiões com quem se cruza todos os dias porque, ao enviar vídeos ou fotografias de outros funcionários dos serviços, poderá ter identificado — e colocado em risco — não só os próprios espiões como as suas fontes, os seus informadores e um sem-número de operações; a outra suspeita é de que Carvalhão Gil se tenha aproveitado das informações a que foi tendo acesso como membro destacado do SIS em reuniões NATO para alimentar o interesse da Rússia nas operações da aliança atlântica.

O grande dilema que os serviços têm de gerir, a partir do momento em que essas suspeitas se consolidam, é como vão conseguir manter a “toupeira” distante de informações sensíveis sem que o próprio suspeite de que é alvo de uma das investigações mais complexas e sensíveis da justiça portuguesa nas últimas décadas. Essa é uma preocupação permanente, não só para a cúpula dos serviços secretos como para a própria PJ: o espião não pode ter a mínima suspeita de que está a ser vigiado. Não pode haver passos em falso.

O caso é entregue a uma equipa da Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ. Manuela Santos, uma experiente inspetora daquela unidade, é a coordenadora da secção e Pedro Prata é inspetor chefe. Juntos, decidem passar o caso ao inspetor Pedro Camarinha. “Pelo seu longo percurso também tinha já dado provas mais que suficientes, que era a pessoa com o perfil adequado, que era um indivíduo muito meticuloso, muito rigoroso, discreto na sua atuação. E, portanto, achámos por bem que teria que ser ele a ficar com o processo”, explica Manuela Santos ao Observador.

Camarinha passa boa parte dos dias a trabalhar no caso, fechado numa sala da brigada de contraterrorismo da PJ. Os outros elementos da unidade percebem que aquela não é uma investigação qualquer e que o alvo só pode ser alguém de relevo. As medidas de segurança são claramente acima da média — a começar pela forma como o próprio processo é manuseado, sempre da mão de Pedro Prata para a dos dois procuradores do DCIAP, João Melo e Vítor Magalhães, e dali para a mão do juiz de instrução, Ivo Rosa. Mesmo as informações inseridas no sistema informático são bastante reduzidas e, ao longo de vários meses, o nome de Frederico Carvalhão Gil é gerido com cautela, não é passado para suporte informático. Todas as medidas de segurança são tomadas para garantir o segredo da operação.