Tiago Petinga / Lusa

O ministro da Administração Interna, Luís Neves
Os pagamentos, cuja contrapartida está por esclarecer, ocorreram enquanto as duas empresas mantinham contratos com a Judiciária e João Santos Carvalho alegadamente participava em reuniões com Luís Neves e o presidente da DST.
O grupo DST está a construir a nova sede da PJ naquela cidade e concluiu as instalações da Diretoria do Sul, em Faro. Ambas as empreitadas foram contratadas durante a direção de Luís Neves.
No mesmo período, a construtora pagou 445 mil euros à Construbarcelos, a empresa de João Santos Carvalho, o empreiteiro amigo do atual ministro da Administração Interna.
Os valores foram revelados por uma investigação conjunta do SOL, da TVI e da CNN Portugal, publicada na quinta-feira, e constam dos relatórios e contas da própria Construbarcelos, que registam a DST como a sua segunda maior cliente entre 2022 e 2025: 115 mil euros em 2022, 135 mil em 2023, 110 mil em 2024 e 85 mil em 2025.
O motivo dos pagamentos está por esclarecer, escreve o SOL, que assinala não saber se corresponderam a prestações de serviços.
A DST é um grupo sediado em Braga, com quatro mil trabalhadores e uma faturação anual superior a 700 milhões de euros.
A empresa bracarense concluiu em abril de 2025 as novas instalações da PJ em Faro, contratadas por 5,9 milhões, e está a construir, desde dezembro de 2024, a sede de Braga, cujo contrato ascende a 7,2 milhões após uma adenda para trabalhos complementares assinada em dezembro passado.
O contrato inicial de Braga foi assinado, em representação da PJ, por Luís Neves.
Segundo fontes contactadas pela investigação, João Santos Carvalho terá participado em reuniões entre Luís Neves, então diretor nacional da PJ, e o presidente da DST, José Teixeira, embora, segundo a investigação, a Construbarcelos não tenha participado nas duas empreitadas.
O empreiteiro esteve ainda entre os convidados da inauguração do edifício de Faro, a 30 de abril de 2025, e terá fornecido mão de obra para uma obra numa casa particular do administrador financeiro da DST, Avelino Teixeira, entre setembro de 2023 e fevereiro de 2024.
Contactado, José Teixeira desvalorizou a proximidade: “Vi-o fisicamente, em toda a minha vida, uma única vez“. O presidente da DST afirma que a empresa de Carvalho é sua cliente desde 2019 e que, da parte da DST, “não se colocaram problemas de idoneidade”.
Quanto ao facto de o grupo só ter começado a trabalhar para a Judiciária depois de o empreiteiro já ser fornecedor da polícia, disse tratar-se de “uma coincidência”.
Não há, até ao momento, prova pública de que os 445 mil euros pagos à Construbarcelos estejam relacionados com as obras da PJ ou com as respetivas adjudicações.
A DST nunca tinha realizado qualquer empreitada para a PJ antes de 2023. A Construbarcelos era fornecedora desde 2019 e somou 17 contratos, no valor aproximado de 2,3 milhões de euros, até 2025. O contrato de Faro não consta do Portal Base dos contratos públicos; o de Braga está registado.
A PJ não respondeu às perguntas da investigação.
A Procuradoria-Geral da República abriu entretanto um inquérito por suspeita dos crimes de abuso de poder e descaminho, relacionado com o caso do atrelado e dos produtos químicos retirados das instalações da Construbarcelos. Não foi divulgado qualquer inquérito especificamente relacionado com os pagamentos da DST.
Na sexta-feira, o Presidente da República, António José Seguro, pediu que a investigação tenha rapidamente “conclusões e apuramento de responsabilidades”. No mesmo dia, PSD e CDS opuseram-se pela segunda vez consecutiva à audição do ministro na Comissão Permanente do Parlamento.