Uma espécie de mal necessário. A ascensão dos fabricantes chineses no mercado europeu está a alterar rapidamente o equilíbrio de forças no setor automóvel. No entanto, as marcas europeias, como a Volkswagen, dependem cada vez mais da tecnologia e das parcerias chinesas.
Depois de terem conquistado uma posição relevante nos elétricos, as marcas chinesas estão agora a crescer de forma expressiva nos híbridos plug-in (PHEV), um segmento que até há pouco tempo era dominado pelos construtores europeus.
Perante este cenário, o CEO do Grupo Volkswagen, Oliver Blume, defendeu que a União Europeia deve agir rapidamente e aplicar tarifas também aos híbridos plug-in produzidos na China.
No entanto, existe um paradoxo. A própria Volkswagen depende cada vez mais da tecnologia e das parcerias chinesas para acelerar o desenvolvimento da sua futura gama.
Chineses já dominam uma fatia importante do mercado PHEV
Segundo dados recentes do mercado europeu, as marcas chinesas já representam 28,3% das vendas de híbridos plug-in (PHEV) na Europa, uma quota que continua a crescer.
Até agora, estes modelos escaparam às tarifas adicionais impostas pela União Europeia aos automóveis 100% elétricos fabricados na China, tornando-se uma alternativa particularmente competitiva em preço.
Este crescimento preocupa especialmente os fabricantes tradicionais, que veem um dos seus segmentos mais rentáveis começar a ser ocupado por concorrentes chineses.
Volkswagen pede tarifas “sem perder tempo”
Oliver Blume considera que Bruxelas deve agir rapidamente. Na sua perspetiva, os híbridos plug-in chineses estão a ganhar quota de mercado graças à ausência de tarifas equivalentes às aplicadas aos veículos elétricos a bateria (BEV), criando uma situação de concorrência desequilibrada.
A posição do responsável da Volkswagen é clara: a União Europeia deverá estender as medidas comerciais também aos PHEV fabricados na China, evitando que estes substituam os elétricos como principal porta de entrada das marcas chinesas no mercado europeu.
O paradoxo: a Volkswagen também depende da China
Apesar desta posição, a realidade industrial da Volkswagen é bastante mais complexa.
O grupo alemão tem vindo a reforçar a cooperação com fabricantes chineses para recuperar competitividade, sobretudo na área dos veículos elétricos e do software.
Entre os exemplos mais relevantes encontram-se:
- A parceria com a XPENG para desenvolver novos modelos elétricos destinados ao mercado chinês.
- A colaboração com a SAIC para o desenvolvimento de novas plataformas.
- O investimento em tecnologias desenvolvidas na China para reduzir tempos de desenvolvimento e custos.
Além disso, vários dos futuros modelos da Volkswagen utilizarão tecnologia desenvolvida em colaboração com parceiros chineses, demonstrando que a marca reconhece que atualmente a China lidera em diversas áreas da mobilidade elétrica.
A pressão sobre os fabricantes europeus aumenta
A preocupação da Volkswagen não surge isoladamente.
Os fabricantes europeus enfrentam atualmente vários desafios em simultâneo:
- Forte quebra das vendas na China;
- Crescente concorrência de marcas como BYD, Geely, MG ou Chery na Europa;
- Custos de produção superiores aos dos fabricantes chineses;
- Necessidade de acelerar o desenvolvimento de novos veículos elétricos.
No caso da Volkswagen, esta pressão já levou o grupo a rever em baixa as previsões para 2026 e a anunciar um plano de redução de custos que poderá implicar até 100 mil postos de trabalho e uma reorganização significativa da produção na Alemanha.
O futuro pode passar por produzir carros chineses na Europa
Curiosamente, uma das soluções que está a ser estudada passa precisamente por aprofundar a cooperação com fabricantes chineses.
Tanto responsáveis políticos alemães como a própria administração da Volkswagen já admitiram que futuras parcerias poderão permitir fabricar veículos de tecnologia chinesa em fábricas europeias, reduzindo o impacto das tarifas e preservando emprego local.
A guerra comercial está longe do fim
O caso dos híbridos plug-in mostra que a disputa entre Europa e China entrou numa nova fase.
Depois dos elétricos, os PHEV tornaram-se o novo campo de batalha. Enquanto Bruxelas avalia novas medidas comerciais, os fabricantes europeus procuram proteger o mercado interno sem perder acesso à tecnologia chinesa, hoje considerada essencial para manter a competitividade.
Para grupos como a Volkswagen, este equilíbrio será particularmente difícil: por um lado defendem maior proteção do mercado europeu; por outro, reconhecem que parte da resposta à concorrência passa precisamente pela colaboração com empresas chinesas.




