Outro ponto de atenção do relatório é a redução do financiamento internacional e os cortes em programas de prevenção.André Ávila / Agencia RBS
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Embora as novas infecções por HIV e as mortes relacionadas à AIDS tenham atingido os menores níveis dos últimos 30 anos no mundo, a resposta global à epidemia está fragilizada e corre o risco de retroceder. O alerta está no relatório anual divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids) durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS, realizada no Rio de Janeiro.
O relatório aponta que, apesar da tendência global de queda nos casos e nas mortes, o cenário não é homogêneo entre as diferentes regiões do mundo. Segundo o oficial de Igualdade e Direitos do Unaids Brasil, Gustavo Passos, outro ponto de atenção está relacionado à desaceleração do progresso rumo às metas globais de enfrentamento ao HIV. A estratégia do Unaids tem como objetivo acabar com a epidemia de AIDS como ameaça à saúde pública até 2030, com foco na ampliação do diagnóstico, do tratamento, da supressão viral e na redução das desigualdades.
— Se você olhar os gráficos, você percebe que, de fato, está caindo, mas a queda não está chegando próxima à meta que gostaríamos. Então, pode ser que, eventualmente, alcancemos essa meta, mas ela vai demorar mais para chegar. E, nesse meio tempo, novas infecções por HIV serão registradas e casos de mortalidade relacionados à AIDS também.
Outro ponto de atenção do relatório é a redução do financiamento internacional e os cortes em programas de prevenção e serviços comunitários, que podem comprometer os avanços conquistados nas últimas décadas. Embora alguns países consigam sustentar seus programas com recursos próprios, como é o caso do Brasil, outros dependem de organismos externos.
— Quando vamos para outros contextos, em outras regiões onde essa resposta não é financiada 100% pelo Estado, temos casos de dependência maior dessa ajuda externa. Quando pensamos nesse retorno da epidemia, temos que considerar que, ao sofrer um choque no financiamento global, afeta-se majoritariamente esses países que não conseguem ter uma sustentabilidade financeira própria.
Brasil combina avanços e desafios
Apesar de estar entre os países que registraram crescimento de novas infecções, o Brasil é apontado como uma referência em diversos aspectos da resposta ao HIV. O Sistema Único de Saúde (SUS) financia integralmente ações de prevenção, diagnóstico e tratamento.
— O Brasil alcançou duas das metas: a de diagnóstico e a de supressão viral. A meta de tratamento ainda é um desafio, porque fala muito sobre a vinculação dessas pessoas ao serviço. Essa parte do tratamento é fortemente atravessada por questões de estigma e discriminação.
Segundo Passos, mais da metade das pessoas vivendo com HIV no Brasil relatam ter sofrido algum tipo de discriminação em razão do diagnóstico. Cerca de três em cada dez afirmam ter enfrentado esse tipo de situação dentro da própria família. Entre pessoas trans, mais de 50% disseram ter deixado de procurar atendimento relacionado ao HIV devido à transfobia nos serviços de saúde.
Acesso à PrEP
O relatório também mostra avanços na prevenção. O Brasil registrou um aumento de 41% no número de pessoas que utilizaram a profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV pelo menos uma vez no último ano. O medicamento é gratuito e distribuído pelo SUS, atuando fortemente na prevenção. Passos destaca que o país já ultrapassou um dos indicadores considerados favoráveis para reduzir a transmissão do vírus.
— Hoje, o Brasil já tem mais de cinco pessoas em PrEP para cada nova infecção registrada. Estudos mostram que, quando se alcança uma proporção de três para um, já há uma redução significativa de novos casos.
Onde buscar a PrEP em Porto Alegre?
Para ter acesso à PrEP em Porto Alegre, por exemplo, o atendimento é feito por meio dos Serviços de Atenção Especializada (SAE) ou no Centro Regionalizado de Atenção Integral e Prevenção às ISTs (Craip):
- SAE IAPI: Rua Três de Abril, 90 – Passo d’Areia
- SAE Murialdo: Avenida Bento Gonçalves, 3722 – Partenon
- SAE Santa Marta: Rua Capitão Montanha, 27 – Centro Histórico
- SAE Vila dos Comerciários: Av. Moab Caldas, 400 – Santa Tereza
- Craip: Avenida João Pessoa, 1327 – Farroupilha
A Capital também disponibiliza o Teleprep, que entrega o medicamento em casa. É possível ainda solicitar testagem rápida para HIV, sífilis e hepatites B e C.