A sexualidade de adultos no Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda é cercada por mitos que oscilam entre a total falta de interesse e o desejo descontrolado. A realidade, no entanto, aponta para uma ampla diversidade de experiências moldadas pelo funcionamento neurológico de cada indivíduo.
Pesquisa da Universidade de Cambridge revelou que a maioria das pessoas com TEA possui vida sexual ativa: 70% dos homens e 76% das mulheres entrevistadas relataram praticar atividades sexuais. O mesmo estudo mostrou que adultos autistas têm 7,6 vezes mais chances de se identificarem como assexuais em comparação a pessoas neurotípicas.
De acordo com o neurologista Matheus Trilico, especialista no atendimento de adultos com TEA, o desejo depende diretamente de como o cérebro interpreta estímulos e regula emoções. Essa variação pode impactar os relacionamentos de formas distintas:
- Sensibilidade ao toque:
- Para alguns adultos no espectro, abraços e contatos físicos podem disparar uma disfunção sensorial, tornando o ato desconfortável ou doloroso. A recusa ao toque tem origem neurológica e não deve ser vista como falta de afeto.
- Busca por dopamina:
- Em outros casos, o alto interesse sexual pode estar atrelado a mecanismos atípicos de recompensa cerebral e autorregulação emocional.
Pesquisas publicadas em periódicos como BMC Psychiatry e Neuropsychiatric Disease and Treatment apontam que falhas na comunicação e a falta de educação sexual adequada são as principais barreiras para relacionamentos saudáveis nessa população.
Para o especialista, o diagnóstico na vida adulta serve como ferramenta de autoconhecimento, permitindo alinhar expectativas sociais com as reais necessidades neurológicas do indivíduo e de seus parceiros.