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Os Campos Flégreos, na região de Nápoles, pintura de Michael Wutky, 1780
O que faz tremer os Campos Flégreos não é uma falha tectónica, mas o bradissismo: o chão da caldeira sobe e desce ao longo de anos ou décadas, à medida que varia a pressão dos fluidos no subsolo.
O supervulcão da Europa registou na sexta-feira o abalo mais forte alguma vez medido pelos seus instrumentos.
O sismo, de magnitude Md 4,7, ocorreu às 19h46 de 31 de julho nos Campos Flégreos, a caldeira vulcânica a oeste de Nápoles, e foi localizado pela Sala Operativa do Observatório Vesuviano a apenas três quilómetros de profundidade.
Causou 26 feridos, dois deles graves, provocando derrocadas em Pozzuoli, cortes de energia em vários bairros e a suspensão de comboios e metro em Nápoles.
O Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia italiano (INGV) contabilizou 169 sismos até às 11h28 de sábado, o segundo mais forte de magnitude 3,8.
O nível de alerta manteve-se em amarelo. “Não há nenhuma variação que justifique um aumento do nível de alerta”, declarou ao La Repubblica a diretora do Observatório Vesuviano, Lucia Pappalardo, que acrescentou não existirem sinais de subida de magma.
O que faz tremer os Campos Flégreos não é uma falha tectónica, mas o bradissismo: o chão da caldeira sobe e desce ao longo de anos ou décadas, à medida que muda a pressão dos fluidos no subsolo. A crosta deforma-se, fratura-se e liberta a tensão em sismos superficiais.
Desde novembro de 2005, o solo subiu cerca de 1,67 metros na estação GNSS de RITE, no centro histórico de Pozzuoli — quase 30 centímetros só desde janeiro de 2025.
É aqui que os números surpreendem: a velocidade de elevação está em 10 ± 3 milímetros por mês desde o início de fevereiro, o valor mais baixo desde o enxame sísmico de fevereiro de 2025. Chegou a 30 milímetros por mês na primavera desse ano.
O sismo recorde não ocorreu durante o período de maior velocidade de elevação da caldeira, mas na fase em que o terreno subia mais devagar em doze meses.
Porque é que um 4,7 fez tanto estrago
A magnitude não conta a história toda. Num sismo tectónico típico, o foco situa-se a dezenas de quilómetros e a energia dissipa-se antes de chegar à superfície.
Neste caso, o hipocentro ficou a três quilómetros: a tabela detalhada do INGV indica 2,6 km, praticamente debaixo dos pés de quem vive em Pozzuoli.
O ShakeMap do INGV estimou níveis de agitação do solo até ao grau VII da escala Mercalli-Cancani-Sieberg. Os relatos recolhidos junto da população indicam que o sismo foi sentido até ao grau VI, incluindo em Nápoles, Ísquia e na península sorrentina.
Há ainda uma nota técnica: o INGV mede estes eventos em magnitude de duração (Md), que dá 4,7, mas converte para magnitude de momento (Mw) 4,4. Catálogos internacionais registaram 4,5. São escalas diferentes, não erros de medição.
O INGV atribui a agitação ao desgaseificamento da caldeira: gases magmáticos que sobem de vários quilómetros e pressurizam o sistema hidrotermal.
Um estudo da Universidade de Stanford publicado em maio de 2025 na Science Advances defende o contrário: a culpa seria da pressão de um reservatório geotérmico alimentado por água da chuva e selado por uma camada de rocha impermeável.
Num estudo de 2023, investigadores do University College London e do INGV estimaram que a resistência efetiva à tração na zona de rutura poderá ser atualmente 2,5 a três vezes inferior à registada antes da crise de 1984.
Christopher Kilburn, autor principal do estudo, sublinhou então que a rutura não garante erupção.
Circula desde abril uma pré-publicação no arXiv, ainda sem revisão por pares, que projeta uma “transição crítica” para o intervalo 2030-2034. Os próprios autores escrevem que não encontraram indícios de erupção iminente e que esse intervalo não corresponde necessariamente a qualquer evento.
Na crise de 1982-84, a última grande convulsão dos Campos Flégreos, o solo subiu 179 centímetros em dois anos. O abalo mais forte, em outubro de 1983, foi de magnitude 4,0.
Milhares de habitantes de Pozzuoli saíram de casa e muitos nunca regressaram.