
Investigadores da Sociedade de História Natural em escavações numa arriba perto da Foz do Sizandro
Um anquilossauro com mais de 150 milhões de anos está a ser escavado numa arriba de Torres Vedras. Só foi encontrado porque a erosão costeira o expôs — e quase foi destruído pela mesma erosão que o revelou.
Em junho de 2025, Luís Domingos, investigador do Centro de Investigação em Paleobiologia e Paleoecologia (Ci2Paleo) da Sociedade de História Natural, andava a fazer trabalho de inventário nas arribas junto à foz do rio Sizandro quando reparou num osso a sobressair da rocha.
Era parte de um fémur. Estava em risco de queda, e foi recolhido de imediato.
A morfologia do osso indicou logo que não se tratava de um animal comum.
Numa segunda intervenção, nesse mesmo verão, a equipa recolheu cerca de 45 osteodermes, as placas ósseas que funcionavam como armadura natural do animal, e confirmou estar perante um anquilossauro: um dinossauro quadrúpede, herbívoro e encouraçado.
Depois veio o inverno, que foi, este ano, o pior em muito tempo. A equipa protegeu o local e esperou.
Entretanto, as depressões Kristin, Leonardo e Marta varreram a costa portuguesa a partir de 28 de janeiro, causando pelo menos 19 mortes e obrigando a um investimento de 111 milhões de euros na recuperação do litoral.
No relatório da Agência Portuguesa do Ambiente sobre os estragos, uma praia aparece assinalada com os três problemas em simultâneo: instabilidade de arribas, erosão costeira e galgamentos do mar. Chama-se Praia da Foz do Sizandro.
É exatamente onde está o dinossauro.
O esqueleto aguentou. As escavações foram retomadas em junho deste ano, e revelaram algo que apanhou a equipa de surpresa.
“O dinossauro está cerca de 85% completo”, explicou Bruno Camilo, diretor do Ci2Paleo, em comunicado da Câmara Municipal de Torres Vedras.
E poderá estar mais: a equipa suspeita que os dois membros anteriores estejam escondidos por baixo dos espigões e osteodermes, o que empurraria o número para perto dos 95%.
O animal está de barriga para baixo, uma posição invulgar, já que a maioria dos dinossauros é encontrada deitada de lado, e mantém-se articulado desde partes do crânio até à ponta da cauda, num conjunto com cerca de 2,5 metros. Será retirado da arriba num único bloco.

Pode tratar-se de um exemplar juvenil ou subadulto. Se as expectativas se confirmarem, poderá passar a ser o dinossauro mais completo alguma vez encontrado em Portugal.
O título de dinossauro mais completo formalmente descrito em Portugal pertence atualmente a um exemplar de Miragaia longicollum, de Atouguia da Baleia, descrito em 2019.
Este exemplar, que tinha sido descoberto em 1959 e passado décadas esquecido numa reserva do LNEG, serviu até de motivo numa das moedas da coleção “Dinossauros de Portugal” lançada em 2021 pelo Banco de Portugal.
Há ainda um segundo recorde em jogo: o anquilossauro de Torres Vedras foi encontrado na camada do Kimmeridgiano, mais antiga do que a dos restantes anquilossauros conhecidos em Portugal, que são sobretudo do Titoniano.
Isso faria dele, segundo Camilo, “o mais antigo conhecido da Europa continental”. A ressalva é importante, porque o Reino Unido tem material ainda mais antigo, embora muito fragmentário.
A escavação prossegue até ao final de setembro, com 22 investigadores e estudantes de oito países. O mar, esse, volta em outubro.